. (iii.) Ninguém é reformado por meio de ameaças e castigos, porque eles constrangem. Sabe-se que o externo não pode constranger o interno, mas o interno pode constranger o externo. Também se sabe que o interno rejeita ser constrangido pelo externo, a ponto de se afastar. E sabe-se também que os prazeres externos atraem o interno ao consentimento e ao amor. Pode-se saber, ainda, que existe o interno constrangido e o interno livre. Mas essas coisas, embora sejam conhecidas, devem todavia ser ilustradas, pois há muitas coisas que, quando ouvidas, logo se percebe que são assim, porque são verdadeiras, sendo daí afirmadas; mas se não forem ao mesmo tempo confirmadas por razões, podem ser enfraquecidas por argumentações e falácias e, finalmente, negadas. Por isso, as coisas que agora foram referidas como sendo conhecidas devem ser retomadas e racionalmente confirmadas.
[2] Primeiro: Que o externo não possa constranger o interno, mas o interno possa constranger o externo. Quem é que pode ser constrangido a crer e a amar? Ninguém pode ser constrangido a crer mais do que a pensar que assim é, quando não pensa assim, e ninguém pode ser constrangido a amar mais do que querer o que não quer. (**) Também, a fé pertence ao pensamento e o amor pertence à vontade. Mas o interno pode ser constrangido pelo externo a não falar mal das leis do reino, dos costumes da vida e das santidades da igreja. O interno pode e também deve ser constrangido a isso por meio de ameaças e castigos. Mas esse interno não é o interno propriamente humano, mas um interno que o homem tem em comum com as bestas, que também podem ser constrangidas. O interno humano reside acima desse interno animal. É o interno humano que se entende aqui, o qual não pode ser constrangido.
[3] Segundo: Que o interno rejeita o constrangimento a tal ponto que se afasta. A razão disso é que o interno quer estar no livre e ama o livre, pois o livre é do amor ou da vida do homem, como se mostrou acima. Por isso, quando o livre se sente constrangido, retrai-se, por assim dizer, e se afasta, vendo o constrangimento como seu inimigo. Pois o amor, que faz a vida do homem, é irritado e faz com que o homem pense que assim não se pertence, conseqüentemente, que não vive por si. Que o interno do homem seja assim, é pela lei da Divina Providência do Senhor, para que o homem aja pelo livre segundo a razão.
[4] Por aí é evidente quão danoso é constranger os homens ao culto Divino por meio de ameaças e castigos. Mas há os que se deixam e os que não se deixam constranger à religião. Os que se deixam constranger à religião são os muitos da nação católica; mas isso ocorre naqueles em cujo culto nada há de interno, mas tudo é externo. Os que não se deixam constranger são muitos da nação inglesa, do que acontece que há um interno no seu culto, e o que é do externo provém do interno. Quanto à religião, os interiores destes aparecem à luz espiritual como nuvens brancas, enquanto os interiores dos primeiros, quanto à religião, aparecem na luz do céu como nuvens sombrias. Uns e outros podem ser assim vistos no mundo espiritual, e quem quiser ver assim verá, quando estiver naquele mundo, após a morte. Além disso, o culto constrangido enclausura os males, que então ficam latentes como fogo na madeira sob a cinza, que continuamente se alimenta e se espalha até irromper em incêndio, enquanto o culto não constrangido, mas espontâneo, não enclausura os males, pelo que estes são como o fogo que, logo que se inflama, é dissipado. Por aí é evidente que o interno rejeita o constrangimento de tal forma, que se afasta. Que o interno possa constranger o externo é porque o interno é como um senhor e o externo como um serviçal.
[5] Terceiro: Que os prazeres externos atraiam o interno ao consentimento e também ao amor. Os prazeres são de dois gêneros, prazeres do entendimento e prazeres da vontade. Os prazeres do entendimento são também os prazeres da sabedoria, e os prazeres da vontade são também os prazeres do amor, pois a sabedoria pertence ao entendimento e o amor pertence à vontade. Ora, como os prazeres do corpo e de seus sentidos, que são os prazeres externos, agem em comum com os prazeres internos, que são do entendimento e da vontade, segue-se que, assim como o interno rejeita o constrangimento do externo, a ponto de se afastar, também o interno graciosamente considera o prazer no externo, a ponto de para ele se voltar. Assim existe o consentimento da parte do entendimento e o amor da parte da vontade.
[6] Todas as crianças no mundo espiritual são introduzidas pelo Senhor na sabedoria angélica e, por esta, no amor celeste por meio de prazeres e amenidades, primeiramente por coisas belas nas casas e por amenidades nos jardins; depois, por representativos espirituais que afetam os interiores de suas mentes e, finalmente, pelos veros da sabedoria e, assim, pelos bens do amor; portanto, por prazeres em sua ordem, continuamente: primeiro pelos prazeres do amor do entendimento e sua sabedoria e finalmente pelos prazeres do amor da vontade, que se torna o amor de suas vidas, sob o qual são mantidas em subordinação as demais coisas que entraram pelos prazeres.
[7] Isto acontece porque tudo o que é do entendimento e da vontade deve ser formado pelo externo antes de ser formado pelo interno, pois tudo o que é do entendimento e da vontade é formado primeiro pelas coisas que entram pelos sentidos do corpo, principalmente pela visão e audição. Mas quando o primeiro entendimento e a primeira vontade são formados, então o interno do pensamento os vê como externos de seu pensamento, e, ou se conjunta a eles ou se separa deles; conjunta-se a eles se são prazeres e separa-se deles se não o são.
[8] Mas cumpre saber muito bem que o interno do pensamento não se conjunta ao interno da vontade, mas o interno da vontade é que se conjunta ao interno do entendimento e faz com que a conjunção seja recíproca. Isso, porém, se faz pelo interno da vontade e de modo algum pelo interno do entendimento. Daí vem que o homem não pode ser reformado pela fé somente, mas pelo amor da vontade, que forma para si a fé.
[9] Quarto: Que exista o interno constrangido e o interno livre. O interno constrangido existe naqueles que estão somente no culto externo e em nenhum culto interno, pois o interno deles é pensar e falar aquilo para o qual o externo é constrangido. Esses são os que estão no culto a homens vivos e mortos, por conseguinte, num culto aos ídolos e na fé dos milagres. Neles não há interno algum senão o que é ao mesmo tempo externo. Naqueles, porém, que estão no culto interno, existe um interno constrangido pelo temor e outro constrangido pelo amor. O interno constrangido pelo temor é naqueles que estão no culto pelo temor dos tormentos do inferno e do seu fogo. Mas esse interno não é o interno do pensamento de que se tratou anteriormente, mas o externo do pensamento, que aqui é chamado interno porque pertence ao pensamento. O interno do pensamento, de que se tratou anteriormente, não pode ser constrangido por temor algum, mas pode sê-lo pelo amor e pelo temor de sua perda. O temor a Deus, no sentido genuíno, não é outra coisa. Ser constrangido pelo amor e pelo temor de sua perda é constranger-se a si mesmo. Que constranger-se a si mesmo não seja contra a liberdade e a racionalidade, é o que se verá abaixo.
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