. Porquanto são poucos os que sabem alguma coisa sobre a iluminação em que se acha o entendimento do homem que é ensinado pelo Senhor, por isso vai-se dizer alguma coisa a esse respeito. Há uma iluminação interior e exterior, proveniente do Senhor, e uma ilustração proveniente do homem, também interior e exterior. A iluminação interior proveniente do Senhor é que dá ao homem perceber, tão logo ele ouve, se o que se diz é ou não um vero. A iluminação exterior existe daí, no pensamento. A iluminação interior proveniente do homem vem da confirmação somente, e a iluminação exterior proveniente do homem vem somente da ciência. Mas dir-se-á alguma coisa sobre cada uma delas. [2] O homem racional, pela iluminação interior proveniente do Senhor logo percebe, ao ouvir, se muitas coisas são ou não verdadeiras. Sejam estas como exemplo: Que o amor é a vida da fé ou que a fé vive pelo amor. Pela iluminação interior o homem também percebe que tudo o que o homem ama, isso ele quer, e o que ele quer, isso faz; por conseguinte, amar é fazer. E também percebe que tudo o que o homem crê pelo amor, isso também quer e faz; por conseguinte, ter fé é também fazer, pelo que o ímpio não pode amar a Deus, nem, portanto, ter a fé de Deus. O homem racional, pela iluminação interior, logo que ouve, também percebe isso: que Deus é um, que Ele é onipresente; que todo bem vem d'Ele; depois, que todas as coisas se referem ao bem e ao vero; e que todo bem procede do Bem mesmo e todo vero procede do Vero mesmo. Estas e outras coisas semelhantes o homem percebe interiormente em si, quando as ouve. Se as percebe é porque tem a racionalidade, e ela está na luz do céu, que ilumina. [3] A iluminação exterior é a iluminação do pensamento por essa iluminação interior, e o pensamento está nessa iluminação tanto quanto permanece na percepção que tem pela iluminação interior e, ao mesmo tempo, tanto quanto tem conhecimentos do vero e do bem, pois que deles adquire as razões pelas quais confirma. O pensamento por essa iluminação exterior vê uma coisa de uma e de outra partes; de uma vê as razões que confirmam, e de outra vê as aparências que invalidam. Estas ele rejeita e aquelas ele recolhe. [4] Mas a iluminação interior proveniente do homem é completamente diferente. Por ela o homem vê a coisa de uma parte mas não a vê de outra, e após tê-la confirmado, ele a vê numa luz semelhante, quanto à aparência, à luz de que se falou acima, mas é uma luz de inverno. Seja, por exemplo, o seguinte: o juiz que julga injustamente por causa de presentes e por causa do ganho; após ter confirmado o julgamento pelas leis e pelas razões, não vê outra coisa senão o que é justo em seu julgamento. Alguns vêem o injusto, mas como não querem vê-lo, escurecem-no e se cegam, e, assim, não o vêem. Dá-se de modo semelhante com o juiz que pronuncia julgamentos pela amizade para angariar favores e por causa da conjunção pelas afinidades. [5] Tais indivíduos agem de modo semelhante com relação a todo assunto que recebem da boca de um homem de autoridade ou da boca de um homem de fama, ou que retiram da própria inteligência. São cegos racionais, pois têm a visão dos falsos que confirmam; e o falso fecha, mas o vero abre a visão. Esses não vêem vero algum pela luz do vero, nem justo algum pelo amor do justo, mas pela luz da confirmação, que é uma luz ilusória. No mundo espiritual, eles se apresentam como faces sem cabeça ou como faces humanas tendo por trás cabeças de madeira, e são chamados animais racionais, porque têm a racionalidade potencial. A iluminação exterior proveniente do homem está, porém, naqueles que pensam e falam somente pela ciência impressa na memória; esses são pouco capazes de confirmar alguma coisa por si mesmos.