. Na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa mostrou-se que o Senhor é a Palavra e que toda doutrina da igreja deve ser extraída da Palavra. Ora, como o Senhor é a Palavra, segue-se que o homem que é ensinado pela Palavra é ensinado pelo Senhor, somente. Como, porém, isso é dificilmente compreendido, será ilustrado na seguinte ordem:
(1.) O Senhor é a Palavra porque a Palavra vem d'Ele e trata d'Ele.
(2.) Porque ela é o Divino Vero do Divino Bem.
(3.) Assim, ser ensinado pela Palavra é sê-lo por Ele.
(4.) E isto se faz mediatamente, pelas pregações, o que não afasta o imediato.
[2] (1.) O Senhor é a Palavra porque ela vem d'Ele e trata d'Ele. Que a Palavra venha do Senhor, ninguém o nega na igreja. Que, porém, a Palavra trate somente do Senhor, isso não é negado, é verdade, mas é ignorado, como se mostrou na Doutrina da Nova Jerusalém sobre o Senhor (n° 1-7 e 37-44), e na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa (n° 62-69, 80-90 e 98-100). Ora, visto que a Palavra vem do Senhor, somente, e trata somente do Senhor, segue-se que, quando o homem é ensinado pela Palavra, é ensinado pelo Senhor, porque a Palavra é Divina. Quem pode comunicar o Divino e introduzi-lo nos corações a não ser o Divino mesmo do qual [a Palavra] é derivada e de que ela trata? Por isso, falando de Sua conjunção com os discípulos, o Senhor disse
Que permanecessem n'Ele e as Suas palavras neles (Jo. 15:7);
Que as Suas palavras eram espírito e vida (Jo. 6:63);
E que tinha morada naqueles que guardassem as Suas palavras (Jo. 14:20-24).
Por isso, pensar pelo Senhor é pensar pela Palavra, como por meio da Palavra. Que todas as coisas da Palavra tenham comunicação com o céu, é o que se mostrou na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa, do começo ao fim. E como o Senhor é o céu, entende-se que todas as coisas da Palavra têm comunicação com o Senhor mesmo. Os anjos do céu têm comunicação, é verdade, mas isso é também pelo Senhor.
[3] (2.) O Senhor é a Palavra, porque ela é o Divino Vero do Divino Bem. Que o Senhor seja a Palavra, Ele o ensina em João, nestes termos:
"No princípio era a Palavra, e a Palavra estava em Deus, e Deus era a Palavra; e a Palavra se fez Carne, e habitou entre nós" (1:1, 14).
Como até hoje não se entendeu isso de outra maneira senão que Deus ensina o homem pela Palavra, isso foi explicado como sendo uma expressão elevada, que resulta que o Senhor não é a Palavra mesma. A razão disso é que não se soube que pela Palavra é entendido o Divino Vero do Divino Bem, ou, o que é a mesma coisa, a Divina Sabedoria do Divino Amor. Que estes sejam o Senhor mesmo, mostrou-se no tratado Divino Amor e Divina Sabedoria, na Primeira Parte. E que estes sejam a Palavra, na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa (n° 1-86).
[4] Também se dirá em poucas palavras de que maneira o Senhor é o Divino Vero do Divino Bem. Todo homem não é homem pela face e pelo corpo, mas pelo bem de seu amor e pelos veros de sua sabedoria. E como por esses ele é homem, todo homem é também o seu vero e o seu bem, ou o seu amor e a sua sabedoria. Sem estes o homem não existe. Mas o Senhor é o Bem mesmo e o Vero mesmo, ou, o que é a mesma coisa, o Amor mesmo e a Sabedoria mesma, e estes são a Palavra, que no princípio estava em Deus, que era Deus e que Se fez Carne.
[5] (3.) Assim, ser ensinado pela Palavra é sê-lo pelo Senhor mesmo, porque o é pelo Bem mesmo e pelo Vero mesmo, ou o Amor mesmo e a Sabedoria mesma, que são a Palavra, como se disse. Mas cada um é ensinado segundo seu entendimento do amor; o que estiver acima disso não permanece. Todos os que são ensinados pelo Senhor na Palavra são ensinados em poucos veros no mundo, mas em muitos quando se tornam anjos, porque as coisas interiores da Palavra, que são Divinas espirituais e Divinas celestes, são implantadas ao mesmo tempo, mas não podem ser abertas ao homem senão após sua morte, no céu, onde então ele se encontra na sabedoria angélica que, relativamente à humana, assim, à sua anterior, é inefável. Que as coisas Divinas espirituais e Divinas celestes, que fazem a sabedoria angélica, estejam inseridas em todas e cada uma das coisas da Palavra, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa (n° 5-26).
[6] (4.) Isto se faz mediatamente pelas pregações, o que não afasta o imediato. A Palavra não pode ser ensinada de outro modo senão mediatamente, pelos pais, professores, pregadores, pelos livros e, principalmente, por sua leitura. Entretanto, não é ensinada por eles, mas pelo Senhor por meio deles. Isso também é do conhecimento dos pregadores, que dizem que falam não por si, mas pelo Espírito de Deus, e que todo vero, assim como todo bem, procedem de Deus. Podem mesmo dizer isso e o incutirem no entendimento de muitos, mas não no coração de ninguém, e o que não está no coração perece no entendimento. Pelo 'coração' se entende o amor do homem. Por aí se pode ver que o homem é conduzido e ensinado somente pelo Senhor, e imediatamente por Ele quando o é pela Palavra. Isto é um arcano dos arcanos da sabedoria angélica.
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