. Que a prudência própria seja nula, isso é inteiramente contra a aparência e, assim, contra a fé de muitos. E como é assim, alguém que pela aparência esteja na fé de que a prudência humana faz todas as coisas só pode se convencer do contrário por meio de razões de uma profunda investigação, as quais devem ser concluídas das causas. Essa aparência é o efeito, e as causas descobrem sua origem. Neste prólogo dir-se-á alguma coisa sobre a fé comum a este respeito. É contra a aparência o que a igreja ensina, que o amor e a fé não são provenientes do homem, mas de Deus, assim como a sabedoria e a inteligência, também a prudência e, em geral, todo bem e vero. Quando se aceita isso, também se aceita que a prudência própria é nula e somente parece ser alguma coisa. A prudência não vem de outra parte senão da inteligência e da sabedoria, e essas duas não vêm de outra parte senão do entendimento e, daí, dos pensamentos do vero e do bem. Isto que agora se disse é aceito e crido por todos os que reconhecem a Divina Providência, mas não pelos que reconhecem a prudência humana somente. [2] Ora, a verdade deve ser ou que a igreja ensina - que toda sabedoria e prudência procedem de Deus - ou o que o mundo ensina, que toda sabedoria e prudência procedem do homem. Pode-se conciliar isso de outro modo senão que o que a igreja ensina é verdadeiro e que o que o mundo ensina é a aparência? Pois a igreja o confirma pela Palavra, e o mundo, pelo proprium; e a Palavra vem de Deus, enquanto o proprium vem do homem. Visto que a prudência vem de Deus e não do homem, por isso o homem cristão, quando está em devoção, ora para que Deus conduza seus pensamentos, desígnios e ações, e também acrescenta que não pode fazê-lo por si. Quando, também, vê alguém fazendo o bem, diz que ele foi conduzido a isso pelo Senhor, e várias coisas semelhantes. Quem pode assim falar, a menos que assim creia interiormente? E crer interiormente vem do céu. Quando, porém, pensa em si mesmo e ajunta argumentos em favor da prudência humana, pode crer o contrário, e isso vem do mundo. Mas a fé interna vence naqueles que reconhecem Deus de coração, e a fé externa vence naqueles que não reconhecem Deus de coração, ainda que o façam de boca.