. (iv.) O Senhor, por Sua Divina Providência, compõe as afeições [de todo o gênero humano] em uma única forma, que é a forma humana. Que isto seja o universal da Divina Providência, ver-se-á no parágrafo seguinte. Os que atribuem todas as coisas à natureza também atribuem tudo à prudência humana, pois os que atribuem todas as coisas à natureza negam de coração a Deus, e os que atribuem todas as coisas à prudência humana negam de coração a Divina Providência; um não é separado do outro. Todavia, uns e outros, por causa da reputação de seu nome e pelo temor de a perder, dizem de boca que a Divina Providência é universal e que seus singulares estão no homem, e que esses singulares num complexo são entendidos pela prudência humana. [2] Mas, pensa em ti mesmo: O que é uma Providência universal, quando os singulares foram separados? Não será outra coisa senão uma simples palavra? Porque chama-se universal o que é formado ao mesmo tempo de singulares, como se chama geral o que existe pelos particulares. Se, pois, separas os singulares, o que será então o universal senão alguma coisa que por dentro é vazia, assim, como uma superfície dentro da qual nada há, ou um complexo no qual não há coisa alguma? Se se dissesse que a Divina Providência é um governo universal, mas que nada é governado e é somente mantido em conexão, e que as coisas que pertencem ao governo são dispostas por outros, poderia isso ser chamado governo universal? Nenhum rei tem um governo como esse, pois se um rei concedesse a seus súditos governar todas as coisas de seu reino, não seria mais um rei, mas somente seria chamado rei; assim, teria somente a dignidade do nome e não alguma dignidade da coisa. A tal rei não se pode atribuir o governo, ainda menos um governo universal. A Providência em Deus se chama prudência no homem. Assim como não se pode dizer de um rei que se reserva senão o nome a fim de que o reino seja chamado reino e seja assim mantido, assim também não se pode chamar a Providência de universal se os homens provêem todas as coisas pela própria prudência. Dá-se o mesmo com o nome de universal da Providência e de universal do governo quando se fala da natureza, quando se entende que Deus criou o universo e deu à natureza que produzisse todas as coisas por si mesma. O que seria então a Providência universal, senão um vocábulo metafísico em que nada há além de um nome? Dentre os que atribuem à natureza tudo o que é produzido e à prudência humana tudo o que se faz, e, todavia, dizem de boca que Deus criou a natureza, há também os que não pensam na Divina Providência senão como uma palavra vazia. Mas a coisa é tal em si mesma que a Divina Providência está nos muito singulares da natureza e nos muito singulares da prudência humana, e por esses muito singulares ela é universal.