. Esses três pontos devem ser agora ilustrados separadamente. Primeiro: Que as honras e as riquezas sejam bênçãos e sejam maldições. A experiência comum atesta que tantos os piedosos quanto os ímpios, ou tanto os justos quanto os injustos, isto é, tanto os bons quanto os maus, acham-se nas dignidades e na opulência, e, todavia, ninguém pode negar que os ímpios e injustos, isto é, os maus, vão para o inferno e os piedosos e justos, isto é, os bons, para o céu. Porquanto isso é verdade, segue-se que as dignidades e as riquezas, ou as honras e a opulência, são ou bênçãos ou maldições, e nos bons são bênçãos mas nos maus são maldições. Na obra O Céu e o Inferno, editada em Londres no ano de 1758 (n° 357-365), mostrou-se que tanto os ricos como os pobres e tanto os grandes como os pequenos se acham no céu como também no inferno, pelo que é evidente que as dignidades e riquezas nos que estão no céu tinham sido bênçãos no mundo, e que, nos que estão nos infernos, tinham sido maldições. [2] Mas, de onde vem que sejam bênçãos e que sejam maldições, é o que qualquer um pode saber, se apenas pensar nisso por alguma razão, ou seja, são bênçãos naqueles que nelas não põem o coração, e são maldições naqueles que nelas põem o coração. Pôr o coração nelas é amar a si mesmos nelas, e não pôr nelas o coração é amar nelas os usos e não a si mesmos. Acima (n° 215) se disse o que é e qual é a diferença entre esses dois amores, ao que se deve acrescentar que as dignidades e riquezas seduzem a uns e não a outros. Seduzem quando excitam os amores do proprium do homem, que é o amor de si, amor esse que é o amor do inferno que se chama diabo, como acima se disse; e não seduzem quando não excitam tais amores. [3] Que tanto os maus quanto os bons sejam elevados às honras e promovidos às riquezas é porque os maus prestam usos igualmente aos bons, mas os maus o fazem por causa das honrarias e do ganho de sua pessoa, enquanto os bons, por causa das honrarias e ganhos da coisa mesma. Esses visam as honrarias e o ganho da coisa como causas principais e as honrarias e o ganho de sua pessoa como causas instrumentais. Os maus, porém, visam as honrarias e o ganho da pessoa como causas principais e as honrarias e o ganho da coisa como causas instrumentais. Mas, quem não vê que a pessoa, sua função e honra são por causa da coisa que se administra e não o contrário? Quem não vê que o juiz existe por causa da justiça, o magistrado por causa do bem comum, o rei por causa do reino, e não o contrário? Por isso, também, cada um está em sua função segundo as leis do reino e segundo a dignidade da coisa, e a diferença é como a principal e a instrumental. Aquele que atribui a honra da coisa a si mesmo ou à sua pessoa aparece no mundo espiritual, quando é representado ali, como um homem de corpo invertido, com os pés para cima e a cabeça para baixo. [4] Segundo: As honras e as riquezas, quando são bênçãos, são espirituais e eternas; e quando são maldições, são temporais e perecíveis. As dignidades e as riquezas no céu são como no mundo, onde há governos e, assim, administrações e funções, como também negociações e, assim, obras, porquanto lá existem sociedades e comunidades. Todo o céu foi distinto em dois reinos, dos quais um se chama celeste e o outro, espiritual; e cada um desses reinos foi distinto em inúmeras sociedades, maiores e menores, todas elas, e todos em cada uma, sendo ordenados segundo as diferenças de amor e de sabedoria daí; as sociedades do reino celeste segundo as diferenças do amor celeste, que é o amor ao Senhor, e as sociedades do reino espiritual segundo as diferenças do amor espiritual, que é o amor para com o próximo. Porquanto há tais sociedades, e todos os que nelas se acham foram homens no mundo, e, por conseguinte, conservam consigo os amores que tiveram no mundo, com a diferença de que ali são agora espirituais, e visto que essas dignidades e riquezas são espirituais no reino espiritual e celestes no reino celeste, conseqüentemente, os que ali se acham em dignidades e riquezas mais do que os outros são aqueles que têm amor e sabedoria mais do que os outros; são aqueles para os quais as dignidades e riquezas foram bênçãos no mundo. [5] Por aí se pode ver como são as dignidades e riquezas espirituais, a saber, são da coisa e não da pessoa. De fato, a pessoa que ali está na dignidade está em magnificência e glória como as dos reinos nas terras, mas, não obstante, não visam a dignidade mesma como alguma coisa, mas os usos, nos quais estão as administrações e funções. Até recebem as honras, cada um de sua dignidade, porém não as atribuem a si próprios, mas aos usos mesmos; e como todos os usos vêm do Senhor, atribuem-nas ao Senhor, de Quem tudo procede. São, pois, assim as dignidades e riquezas espirituais, que são eternas. [6] Mas dá-se de outro modo com aqueles para quem as dignidades e riquezas no mundo foram maldições. Esses, porque as atribuem a si mesmos e não aos usos, e porque não quiseram que os usos dominassem sobre eles, mas eles sobre os usos, os quais não reputaram como usos senão na medida que serviam à sua honra e à sua glória, estão, por conseguinte, no inferno e, ali, em vil escravidão, no desprezo e na miséria. Por isso, como essas dignidades e riquezas perecem, chamam-se temporais e perecíveis. Sobre estes e aqueles assim o Senhor ensina: "Não guardeis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça consomem, e onde os ladrões minam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a ferrugem nem a traça consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam; onde estiver vosso tesouro... também estará o vosso coração" (Mt. 6:19-21). [7] Terceiro: Que as dignidades e as riquezas que são maldições relativamente às dignidades e riquezas que são bênçãos sejam como o nada relativamente ao todo, e como o que não é em si relativamente ao que é em si. Tudo o que perece e não se torna alguma coisa, nada é interiormente em si. Exteriormente, até parece que é alguma coisa, e mesmo parece ser muito e, para alguns, como se fosse tudo enquanto dura, mas nada é interiormente em si. É como uma superfície dentro da qual não há coisa alguma e como um personagem teatral vestido regiamente, quando termina a peça. Mas o que permanece eternamente, isso é perpetuamente alguma coisa em si, portanto, é tudo. E também é, porque não cessa de ser.