. Mas esse pontos devem ser separadamente ilustrados e confirmados um a um. Primeiro: O que são as temporais e o que são as eternas. As temporais são todas aquelas que são próprias da natureza e, por conseguinte, próprias do homem. As próprias da natureza são principalmente os espaços e os tempos, uns e outros com limite e termo; as que decorrem daí e são próprias do homem são próprias de sua vontade e próprias de seu entendimento, assim, de sua afeição e de seu pensamento, principalmente as de sua prudência. Essas, como se sabe, são finitas e limitadas. As eternas, porém, são todas as que são próprias do Senhor e, por Ele, são como se fossem próprias do homem. As próprias do Senhor são, todas elas, infinitas e eternas, portanto, sem tempo, conseqüentemente sem limite e sem fim. As que, decorrendo daí, são próprias do homem, são semelhantemente infinitas e eternas. Na verdade, nenhuma delas pertence ao homem, mas ao Senhor, somente, no homem. [2] Segundo: O homem é o temporal em si, e o Senhor é o eterno em Si; por conseguinte, do homem nada pode proceder senão o que é temporal, e do Senhor, o que é eterno. Que o homem seja temporal em si e o Senhor seja o Eterno em Si, foi dito anteriormente. Visto que nada pode proceder de alguma coisa senão aquilo que nela se encontra, segue-se que do homem nada pode proceder senão o que é temporal, e do Senhor, senão o que é eterno, pois o infinito não pode preceder do finito; seria uma contradição se o pudesse. Todavia, o infinito pode até proceder do finito, porém não do finito, mas por este a partir do infinito. Vice-versa, o finito também não pode proceder do infinito; seria também uma contradição se o pudesse. Mas o finito pode ser produzido a partir do infinito, porém isso não é proceder, mas criar. Sobre este assunto, vide a Sabedoria Angélica sobre o Divino Amor e a Divina Sabedoria, do princípio ao fim. Por isso, se do Senhor procede o finito, como ocorre em muitas coisas no homem, esse finito não procede do Senhor, mas do homem, e pode-se dizer que procede do Senhor por meio do homem, porque assim parece. [3] Isto pode ser ilustrado por estas palavras do Senhor: "Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não; o que disso passar vem do maligno" (Mt. 5:37). Assim é a fala de todos no terceiro céu, pois eles nunca raciocinam sobre as coisas Divinas, se elas são assim ou não, mas vêem em si mesmos pelo Senhor se são ou não assim. Por esse motivo, raciocinar sobre as coisas Divinas, se são assim ou não, decorre do fato de que aquele que assim raciocina não as vê pelo Senhor, mas quer vê-las por si mesmo, e o que o homem vê por si mesmo é o mal. Contudo, o Senhor quer que o homem não somente pense e fale sobre as coisas Divinas, mas também raciocine sobre elas, a fim de que veja se são assim ou não. E do pensamento, da fala e do raciocínio sobre elas, somente com o propósito de se ter ou ver a verdade, pode-se dizer que são do Senhor no homem, mas são do homem, até que veja a verdade e a reconheça. Entretanto, isto vem do Senhor, para que o homem possa pensar, falar e raciocinar, pois ele o pode pelas duas faculdades que se chamam liberdade e racionalidade, faculdades essas que são do homem pelo Senhor somente. [4] Terceiro: As temporais separam de si as eternas, e as eternas conjuntam as temporais a si. Pelo fato de as temporais separarem de si as eternas entende-se que é pelo homem, que é temporal pelos temporais em si; e pelo fato de as eternas conjuntarem a si as temporais entende-se que é pelo Senhor, que é eterno, pelo Eterno em Si, como anteriormente se disse. No que precedeu mostrou-se que existe uma conjunção do Senhor com o homem e, reciprocamente, do homem com o Senhor, mas a recíproca do homem com o Senhor não vem do homem, mas do Senhor; depois, que a vontade do homem está em oposição à vontade do Senhor, ou, o que é o mesmo, a prudência própria do homem está em oposição à Divina Providência do Senhor. Disso se segue que o homem, pelos seus temporais, separa de si as eternas do Senhor, mas o Senhor conjunta as Suas eternas com as temporais do homem, isto é, conjunta-Se ao homem e o homem a Si. Sobre isto, uma vez que se tratou muitas vezes no que precedeu, não há necessidade de confirmá-lo mais. [5] Quarto: O Senhor conjunta o homem a Si por meio de aparências. Com efeito, a aparência é que o homem por si mesmo ame o próximo, faça o bem e fale o vero. Se isso não parecesse ao homem como procedendo de si, ele não amaria o próximo, não faria o bem nem falaria o vero, assim, não seria conjunto ao Senhor. Como, porém, do Senhor vêm o amor, o bem e o vero, é evidente que o Senhor, pelas aparências, conjunta o homem a Si. Mas dessa aparência, dessa conjunção do Senhor com o homem, e dessa recíproca conjunção do homem com o Senhor, tratou-se muitas vezes acima. [6] Quinto: O Senhor conjunta o homem a Si por meio de correspondências. Isto se faz por meio da Palavra, cujo sentido da letra consiste de meras correspondências. Que haja, por esse sentido, conjunção do Senhor com o homem, e a recíproca, do homem com o Senhor, mostrou-se na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa, do princípio ao fim.