. (iv.) A conjunção das temporais e das eternas é da Divina Providência do Senhor. Mas como essas coisas não podem entrar na primeira percepção do entendimento se antes não forem trazidas em ordem e, segundo essa ordem, não forem desenvolvidas e demonstradas, por isso a sua ordem aqui será: Primeiro: É da Divina Providência do Senhor que o homem, após a morte, dispa-se das coisas naturais e temporais e se revista das espirituais e eternas. Segundo: O Senhor, por Sua Divina Providência, conjunta-Se às naturais pelas espirituais, e às temporais pelas eternas, segundo os usos. Terceiro: O Senhor conjunta-Se aos usos pelas correspondências e, assim, pelas aparências, segundo as confirmações delas pelo homem. Quarto: Essa conjunção das temporais com as eternas é a Divina Providência. Mas essas coisas serão postas numa luz mais clara por meio de explicações.
[2] Primeiro: É da Divina Providência que o homem, após a morte, dispa-se das coisas naturais e temporais e se revista das espirituais e eternas. As naturais e temporais são as extremas e últimas, nas quais o homem entra primeiro quando nasce, a fim de que daí possa ser introduzido nos interiores e superiores. De fato, os extremos e últimos são os continentes, e estes estão no mundo natural. Assim é que nenhum anjo ou espírito tenha sido criado imediatamente, mas todos eles nasceram antes como homens e, assim, foram introduzidos. Ele têm, portanto, extremos e últimos que são em si mesmos fixos e estabelecidos, dentro dos quais e pelos quais os interiores podem ser mantidos em conexão.
[3] Mas o homem primeiro se veste das coisas mais grosseiras da natureza; seu corpo vem delas, mas ele as despe pela morte e retém as coisas mais puras da naturezas, que são próximas das espirituais, e estas são, então, os seus continentes. Além disso, nos extremos ou últimos se acham todas as coisas interiores ou superiores simultaneamente, como se mostrou acima, em seu artigo próprio. Por isso, toda operação do Senhor é dos primeiros aos últimos, por conseguinte, no que é pleno. Mas como os extremos e últimos da natureza não podem receber as espirituais e eternas como elas são em si e para as quais a mente humana foi formada, e todavia o homem nasceu para se tornar espiritual e viver na eternidade, por isso o homem se despe delas e conserva somente as coisas naturais interiores que convêm às espirituais e celestes, com as quais concordam e lhes servem de continentes. Isto se faz pela rejeição dos últimos dos temporais e naturais, que é a morte do corpo.
[4] Segundo: O Senhor, por Sua Divina Providência, conjunta-Se às naturais pelas espirituais, e às temporais pelas eternas, segundo os usos. As naturais e temporais não são somente as que são próprias da natureza, mas também as que são próprias dos homens no mundo natural. Destas e daquelas o homem se despe pela morte, e se reveste das espirituais e eternas em correspondência com elas. Que se revista delas segundo os usos, mostrou-se muitas vezes no que precedeu. As naturais que são próprias da natureza se referem em geral aos tempos e aos espaços, em particular às coisas que se vêem sobre a terra; essas o homem deixa após a morte e toma em seu lugar as espirituais, que são semelhantes quanto à face externa ou a aparência, mas não quanto à face interna ou a essência mesma. Deste assunto também se tratou acima.
[5] As temporais, que são próprias dos homens no mundo natural, se referem em geral às dignidades e às riquezas, e em particular às necessidades de cada homem, que são o alimento, a vestimenta e a habitação. Estas também são despidas e deixadas pela morte, e são tomadas e assumidas as que são semelhantes quando à face externa ou a aparência, mas não quanto à face interna e quanto à essência. Todas estas têm sua face interna e essência pelos usos temporais no mundo. Os usos são os bens que se chamam bens da caridade. Por aí se pode ver que o Senhor, por Sua Divina Providência, conjunta as coisas naturais e temporais às espirituais e eternas segundo os usos.
[6] Terceiro: O Senhor conjunta-Se aos usos pelas correspondências e, assim, pelas aparências, segundo as confirmações delas pelo homem. Como, porém, essas afirmações não podem deixar de ser vistas como obscuras por aqueles que ainda não apreenderam uma noção clara do que é correspondência e do que é aparência, por isso elas devem ser ilustradas por meio de exemplos e assim explicadas. Todas as coisas da Palavra são meras correspondências de coisas espirituais e celestes, e por serem correspondências, também são aparências. Ou seja, todas as coisas da Palavra são Divinos bens do Divino Amor e Divinos veros da Divina Sabedoria, que são em si mesmos nus, mas vestidos no sentido da letra da Palavra, pelo que se mostram como um homem com uma vestimenta, que corresponde ao estado de seu amor e de sua sabedoria. Por isso é evidente que, se o homem confirma as aparências, é como se confirmasse que as vestimentas são os homens, pelo que as aparências se tornam falácias. É diferente se o homem inquire as verdades e as vê nas aparências.
[7] Ora, todos os usos, ou os veros e bens da caridade, que o homem pratica em relação ao próximo, ele os pratica ou segundo as aparências ou segundo as verdades mesmas na Palavra; se os pratica segundo as aparências confirmadas em si mesmo, está nas falácias; mas se os pratica segundo as verdades, pratica-os como se deve. Por aí se pode ver o que se entende pelo fato de o Senhor Se conjuntar aos usos pelas correspondências e, assim, pelas aparências segundo as confirmações delas pelo homem.
[8] Quarto: Essa conjunção das temporais com as eternas é a Divina Providência. Para que esta afirmação seja apresentada numa certa luz diante do entendimento, deve ser ilustrada por dois exemplos: por um que diz respeito às dignidades e às honras, e por outro que diz respeito à riqueza e à opulência. Umas e outras são, na forma externa, naturais e temporais, mas na forma interna são espirituais e eternas. As dignidades com suas honras são naturais e temporais quando nelas o homem visa a si mesmo quanto à pessoa e não visa nelas o bem público e os usos, pois então o homem não pode deixar de pensar interiormente em si que o bem público é por causa de si e não ele por causa do bem público. É como um rei que pensa que o reino e todos os homens ali existem por causa dele mesmo, e não ele por causa do reino e dos seus homens.
[9] Mas as mesmas dignidades com as suas honras são espirituais e celestes quando o homem visa a si mesmo quanto à pessoa por causa do bem público e dos usos, e não estes por causa de si. Se faz isso, então o homem está na verdade e na essência de sua dignidade e de sua honra; mas se faz aquilo, então está na correspondência e na aparência, nas quais se confirma, e está nas falácias e não em conjunção com o Senhor senão como os que se acham nos falsos e, daí, nos males, pois as falácias são falsos com os quais os males se conjuntam. Esses até prestam usos e fazem bens, mas por si mesmos e não pelo Senhor. Assim, puseram a si mesmos no lugar do Senhor.
[10] É semelhante em relação às riquezas e à opulência, que são naturais e temporais e também espirituais e eternas. As riquezas e a opulência são naturais e temporais naqueles que visam unicamente a elas e a si mesmos, e nesses dois objetivos têm seu desejo e seu prazer. Mas as mesmas riquezas e a opulência são espirituais e eternas naqueles que visam nelas os bons usos, e nisso consiste interiormente seu contentamento e seu prazer. Nestes, também o contentamento e o prazer externos se tornam espirituais e o temporal se torna eterno. Por isso, também, após a morte esses estão no céu e, ali, em palácios, nos quais as formas dos utensílios resplandecem pelo ouro e pelas pedras preciosas. Todavia, não visam essas formas senão quanto ao resplendor e a transparência vinda dos internos, que são os usos, pelos quais têm contentamento e prazer que, em si, são a beatitude e a felicidade do céu. É contrária a sorte daqueles que visaram as riquezas e a opulência por causa delas somente e por causa de si, assim, por causa dos externos e não ao mesmo tempo dos internos; por conseguinte, segundo as aparências e não segundo as suas essências. Esses, quando delas se despem, o que acontece quando morrem, revestem-se de seus internos que, por não serem espirituais, não podem deixar de ser infernais, pois se está ou em um ou no outro; um e outro não podem estar aí ao mesmo tempo, donde em lugar das riquezas têm pobreza e em lugar da opulência, miséria.
[11] Pelos usos se entendem não só as coisas necessárias da vida, que se referem ao alimento, ao vestuário e à habitação por causa de si e dos seus, mas se entendem também o bem da pátria, o bem da sociedade e o bem dos concidadãos. Esse bem é o comércio, quando ele é o amor final e o dinheiro é o amor servindo aos meios, se somente o comerciante foge das fraudes e das más artes como pecados e os tenha em aversão. É diferente quando o dinheiro é o amor final e o comércio o amor servindo aos meios, pois isto é a avareza, que é a raiz dos males. (Sobre isso, vide Lucas 12:15 e a parábola a esse respeito, vers. 16-21).
* * * * * * *
VII - O homem não é introduzido interiormente nos veros da fé e nos bens da caridade senão tanto quanto pode neles ser mantido até o fim da vida