. (iii.) O homem meramente natural se confirma contra a Divina Providência quando vê que a religião cristã está somente numa pequena parte do mundo habitável, que se chama Europa, e que aí está dividida. Que a religião cristã esteja somente numa pequena parte do mundo habitável, que se chama Europa é porque não foi acomodada ao gênio dos orientais, tal como a religião maometana, que é mista, como há pouco se mostrou; e uma religião não acomodada não é recebida. Por exemplo, uma religião que prescreve não ser lícito tomar várias esposas não é recebida, mas rejeitada por aqueles que foram polígamos há séculos. Assim também é o caso com algumas outras prescrições da religião cristã. [2] Não importa se a menor parte ou a maior parte do mundo recebeu a religião, contanto que haja povos com quem a Palavra esteja, pois ainda assim há luz para os que estão fora da igreja e não têm a Palavra, como se mostrou na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa (n° 104-113). E - o que é memorável - onde a Palavra é lida com santidade e o Senhor é adorado pela Palavra, aí está o Senhor com o céu. A razão disso é que o Senhor é a Palavra e a Palavra é o Divino Vero, que faz o céu. Por isso o Senhor disse: "Onde houver dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou no meio deles" (Mt. 18:20). É o que pode ser feito com a Palavra em muitos lugares do mundo habitável pelos europeus, pois eles têm comunicação com todas as terras do mundo e em toda parte a Palavra é lida ou ensinada por eles. Isso parece uma invenção, mas, no entanto, é verdadeiro. [3] Que a religião cristã esteja dividida é porque ela vem da Palavra, e a Palavra foi escrita por meras correspondências; e as correspondências, quanto à maior parte, são aparências do vero em que, todavia, acham-se encerrados os veros genuínos. E como a doutrina da igreja deve ser extraída do sentido da letra da Palavra, sentido esse que é assim, é inevitável que na igreja existam disputas, controvérsias e dissensões, principalmente quanto ao entendimento da Palavra, mas não quanto à Palavra mesma e quanto ao Divino mesmo do Senhor, pois em toda parte se reconhece que a Palavra é santa e que o Senhor é Divino, e estas duas coisas são os essenciais da igreja. Por isso, também, aqueles que negam o Divino do Senhor, os quais são os chamados socinianos, são excomungados da igreja. E aqueles que negam a santidade da Palavra não são considerados cristãos. [4] Aqui acrescentarei algo de memorável sobre a Palavra, pelo qual se pode concluir que a Palavra no interior é o Divino Vero e, intimamente, o Senhor. Quando algum espírito abre a Palavra e nela roça sua face ou sua veste, então, só pelo roçar, a sua face ou sua veste se torna tão branca como a lua ou como uma estrela, e isto à vista de todos que ele encontra. Isto testifica que nada há mais santo no mundo do que a Palavra. Que a Palavra tenha sido escrita por meras correspondências, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Escritura Santa, n° 5-26; que a doutrina da igreja deva ser extraída do sentido da letra da Palavra e por esse sentido confirmada, n° 50-61; que heresias possam ser formadas do sentido da letra da Palavra, mas que confirmá-las é prejudicial, n° 91-97; que a igreja exista pela Palavra e que seja tal qual o seu entendimento da Palavra, n° 76-79.