(iv.) Pode-se levantar dúvida contra a Divina Providência pelo fato de que até o presente se ignorou que o homem vive homem após a morte, e por não ter isso sido revelado antes. A razão de se ter ignorado é porque naqueles que não fogem dos males como pecados jaz interiormente a fé em que o homem não vive após a morte e, por isso, consideram de pouca importância se dizer que o homem vive homem após a morte ou dizer que ressuscitará no dia do Juízo Final. E se a algum talvez ocorre a fé da ressurreição, esse diz consigo mesmo: "A mim não acontecerá pior que aos outros; se for para o inferno, estarei na companhia de muitos; se for para o céu, também". Entretanto, em todos os que têm alguma religião há uma cognição ínsita de que vivem como homens após a morte. A crença de que vivem como almas e não como homens está somente naqueles que a própria inteligência fez soberbos, e não em outros. Que naqueles que têm alguma religião haja a cognição ínsita de que se vive como homem depois da morte, pode-se ver pelo seguinte:
(1) Quem pensa de outro modo quando morre?
(2) Qual panegirista que na sua lamentação sobre os mortos não os eleva ao céu, põe-nos entre os anjos, falando com eles e usufruindo da alegria? Além dos discursos dos outros.
(3) Quem, dentre as pessoas simples, não crê que, quando morrer, se viveu no bem, virá ao paraíso celeste, vestido de vestes brancas, e gozará da vida eterna?
(4) Que sacerdote não diz essas coisas ou outras semelhantes ao moribundo? E quando diz isso, também crê nisso, contanto que não pense ao mesmo tempo no Juízo Final.
(5) Quem não crê que suas crianças estão no céu, e que ali verá, após a morte, a sua esposa a quem amou? Quem pensa que são fantasmas, e ainda mais que são almas ou mentes que voam no universo?
(6) Quem é que contradiz quando se diz algo da sorte e do estado daqueles que passaram do tempo para a vida eterna? Falei a muitos sobre o estado e a sorte de tais e tais pessoas, e ainda não ouvi alguém dizer que não havia ainda tal sorte para eles, mas que haverá no tempo do Juízo.
(7) Quem é que, vendo os anjos pintados e esculpidos, não reconhece que são assim? Quem então pensa que eles são espíritos sem corpo, sopros ou nuvens, como alguns eruditos imaginam?
(8) Os católicos crêem que seus santos são homens no céu e os outros em outra parte; os maometanos crêem o mesmo de seus defuntos; os africanos, mais do que os outros, de modo semelhante a muitas nações. Por que não o creriam os cristãos reformados, que sabem isso pela Palavra?
(9) Dessa cognição ínsita em cada um é que também alguns aspiram à imortalidade da fama, pois esse conhecimento se muda nisso em alguns e os torna heróis e valentes na guerra.
(10) Procurou-se no mundo espiritual se essa cognição era ínsita em todos e descobriu-se que era em todos, na sua idéia espiritual, que pertence aos internos do pensamento, e não tanto na sua idéia natural, que pertence aos externos do pensamento.
Por aí se pode ver que não se pode levantar dúvida alguma contra a Divina Providência do Senhor pelo fato de se pensar que agora, pela primeira vez, foi desvendado que o homem vive homem após a morte. É somente o sensual do homem que quer ver e tocar o que crê. Quem não pensa acima do sensual está nas trevas da noite quanto ao estado de sua vida.
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IX - Os males são permitidos para um fim, que é a salvação