. Quando, porém, o amor ao próximo tornou-se amor de si e esse amor aumentou, então o amor humano tornou-se amor animal. E o homem, de homem tornou-se besta, com a diferença que pode pensar naquilo que sente com o corpo e racionalmente discernir um do outro e, assim, pode ser instruído e tornar-se homem civil e moral e, finalmente, espiritual. Pois, como foi dito, há no homem o espiritual pelo qual ele é distinguido do animal bruto, porque por esse espiritual ele pode saber o que são o mal e o bem civis, em seguida, o que são o mal e o bem morais, e, finalmente, se o desejar, o que são o mal e o bem espirituais. Quando o amor ao próximo transformou-se em amor de si, o homem não pôde mais nascer na luz da ciência e da inteligência, mas na escuridão da ignorância, porque estava no último plano da vida, que se chama sensual corpóreo, e dele é introduzido nos interiores da mente natural por meio de instruções, o espiritual acompanhando-o sempre. Ver-se-á na seqüência a razão pela qual ele nasce no último da vida, que se chama sensual corpóreo, e, por isso, na escuridão da ignorância. [2] Que o amor ao próximo e o amor de si sejam amores opostos qualquer um pode ver, porque o amor ao próximo quer bem a todos por si mesmo, mas o amor de si quer bem somente a si próprio pelos outros. O amor ao próximo quer servir a todos, e o amor de si quer que todos o sirvam. O amor ao próximo considera a todos como seus irmãos e amigos, mas o amor de si considera a todos como seus servos e, se não o servem, como seus inimigos. Numa palavra, considera a si somente, e aos outros mal considera como homens, os quais no seu coração estima menos que a seus cavalos e cães. E como os considera de um modo tão vil, também considera como nada fazer-lhes mal; daí vêm os ódios e as vinganças, os adultérios e as escortações, os furtos e as defraudações, as mentiras e as blasfêmias, as sevícias e as crueldades, e outras coisas semelhantes. Estes são os males em que o homem está por nascimento. Que eles sejam permitidos para um fim, que é a salvação, será demonstrado nesta ordem: (i.) Todo homem está no mal, e deve ser retirado do mal para que seja reformado. (ii.) Os males não podem ser afastados a menos que apareçam. (iii.) Quanto mais os males são afastados, mais são remidos. (iv.) Assim, a permissão do mal é para um fim, que é a salvação.