. (iv.) Assim, que a permissão do mal seja para um fim, que haja salvação. É notório que o homem está em plena liberdade de pensar e de querer, mas não em plena liberdade de falar e de fazer aquilo que pensa e quer. Pois pode pensar como um ateu, negar a Deus e blasfemar contra as coisas santas da Palavra e da igreja; pode mesmo querer por palavras e ações destruí-las completamente, mas isso é impedido pelas leis civis, morais e eclesiásticas, pelo que ele alimenta essas impiedades em seu interior, pensando nelas e as querendo, mas não fazendo. O homem que não é ateu também está na plena liberdade de pensar muitas coisas que são do mal, tais como as fraudulentas, lascivas, vingativas e outras insanidades, as quais ele também por vezes faz. Quem pode acreditar que se o homem não tivesse plena liberdade, não somente não poderia ser salvo, mas também de todo pereceria? [2] Escutai agora a razão disso: Todo homem está por nascimento em males de muitos gêneros. Esses males estão em sua vontade, e quando estão na vontade são amados, pois o homem ama aquilo que quer pelo interior, e o amor da vontade influi no entendimento e aí faz com que seu prazer seja sentido. Daí entra nos pensamentos e também nas intenções. Por isso, se não fosse permitido ao homem pensar segundo o amor de sua vontade, que foi imbuído nele pelo hereditário, esse amor permaneceria encerrado e jamais viria à observação do homem. E o amor do mal que não aparece é como o inimigo numa emboscada, como pus numa úlcera, como veneno no sangue e como a podridão no peito, os quais, se se conservam encerrados, levam à morte. Quando, porém, é permitido ao homem pensar nos males do amor de sua vida até à intenção, eles são curados por meios espirituais. [3] Agora se dirá o que seria o homem, se lhe não fosse permitido pensar segundo os prazeres do amor de sua vida. Não seria mais homem; perderia suas duas faculdades, que se chamam liberdade e racionalidade, nas quais consiste a humanidade mesma. Os prazeres desses males ocupariam os interiores de sua mente a ponto de fecharem a porta e, então, não poderia fazer e falar outras coisas senão as semelhantes aos males e, assim, seria um insano não somente perante si mesmo, mas perante o mundo; e, finalmente, não saberia sequer cobrir suas partes pudendas. Mas, para que não se torne isso, foi-lhe permitido mesmo pensar nos males de sua hereditariedade e querê-los, mas não falar e fazê-los. Enquanto isso, é instruído nas coisas civis, morais e espirituais, que também entram nos seus pensamentos e removem as insanas e, por esse meio, é curado pelo Senhor, mas, no entanto, não além da medida em que sabe guardar a porta, a menos que também reconheça Deus e implore Seu auxílio, para poder resistir aos males. E tanto quanto resiste a eles, menos admite aquelas insanidades nas intenções e, finalmente, nos pensamentos. [4] Como, pois, o homem está na liberdade de pensar conforme deseja, a fim de que o amor de sua vida saia de seus esconderijos e apareça na luz de seu entendimento, e de outro modo não saberia coisa alguma de seu mal e, assim, não fugiria dele, segue-se que o mal cresceria neles a ponto de não restar no homem meios de reintegração e dificilmente nos filhos, se os gerasse, porquanto o mal dos pais é passado à prole. Mas o Senhor provê que isso não aconteça.