. Foi dito acima (n° 289) que, quando alguns foram convencidos de que ninguém pensa por si mesmo, mas por outros, e que todos esses outros não o fazem por si, mas pelo influxo do Senhor através do céu, disseram admirados que, assim, não teriam culpa de fazerem o mal, pois assim parecia que o mal vem do Senhor. Disseram, também, que não compreendiam que o Senhor, só, pudesse fazer com que todos pensem de tão diversas maneiras. Ora, visto que essas três idéias não podem deixar de influir nos pensamentos daqueles que pensam somente nos efeitos pelos efeitos e não nos efeitos pelas causas, é necessário tomar essas idéias e desvendá-las pelas causas. [2] Primeiro: Que, assim, não teriam culpa de fazerem o mal, porque, se tudo o que o homem pensa influi dos outros, parece que a culpa está nos outros de quem vem o influxo. Mas sempre a culpa está naquele que o recebe, pois o recebe como seu; não sabe outra coisa e não quer saber. Com efeito, cada um quer ser ele mesmo e conduzir a si mesmo, principalmente pensar e querer por si mesmo, pois que isso é o livre mesmo, que se mostra como o proprium em que o homem se acha. Por isso, se soubesse que aquilo que ele pensa e quer influi de outrem, ver-se-ia como acorrentado e cativo, não mais senhor de si mesmo. Assim pereceria todo o prazer de sua vida e, finalmente, o humano mesmo. [3] Que isto seja assim, é o que vi confirmado muitas vezes. Foi concedido a alguns perceber e sentir que eram conduzidos pelos outros; então, ficaram tão irados, que estavam como que fora de si, e disseram que preferiam estar presos no inferno a serem impedidos de pensar como querem e querer como pensam. A esse impedimento consideraram como estar-se acorrentado quanto à vida mesma, o que é mais duro e mais intolerável do que estar acorrentado quando ao corpo. Ser impedido de falar e fazer segundo pensam e querem, não consideravam isso como estar acorrentado, porque o prazer da vida civil e moral, que consiste em falar e fazer, refreia isso e, por assim dizer, o atenua. [4] Ora, visto que o homem não quer saber que é conduzido a pensar pelos outros, mas quer pensar por si, e nisso também acredita, segue-se que ele mesmo tem culpa e não pode rejeitá-la de si, quando ama pensar o que pensa. Se, porém, não ama isso, então se rompe a sua ligação com eles. Isto acontece quando sabe que é um mal e, por isso, quer fugir e desistir desse mal. Então, ele é também retirado pelo Senhor da sociedade que está naquele mal e é transferido para uma sociedade onde esse mal não existe. Se, todavia, ele sabe que é um mal e não foge dele, então lhe é imputada a culpa e se torna réu do mal. Porque tudo o que o homem crê fazer por si mesmo, diz-se que isto é feito pelo homem e não pelo Senhor. [5] Segundo: Que, assim, parece que o mal é proveniente do Senhor. Isto pode ser considerado como a conclusão do que foi mostrado acima (n° 288), ou seja, que o bem influindo do Senhor é mudado em mal, e o vero em falso, no inferno. Mas, quem não pode ver que o mal e o falso não são provenientes do bem e do vero, assim, do Senhor, mas do sujeito ou objeto recipiente, que está no mal e no falso e que perverte e inverte [o bem e o vero]? É como foi plenamente mostrado acima (n° 292). De onde, porém, vem o mal e falso no homem, mostrou-se muitas vezes nos capítulos precedentes. Fez-se também uma experiência no mundo espiritual com aqueles que tinham acreditado que o Senhor pode remover os males nos maus e em seu lugar implantar os bens, e, assim, transferir todo o inferno para o céu e salvar a todos. Mas, que isto seja impossível, ver-se-á no final deste tratado, onde se tratará da salvação instantânea e da misericórdia imediata. [6] Terceiro: Que não compreendiam como o Senhor, só, pode fazer com que todos pensem de tão diversas maneiras. O Divino Amor do Senhor é infinito e a Sua Divina Sabedoria é infinita. O infinito Amor e a infinita Sabedoria procedem do Senhor e influem em todos no céu e, daí, em todos no inferno; e, a partir de um e de outro, em todos no mundo. Por isso não pode deixar de haver para alguém o que pensar e o que querer, pois todas as coisas são infinitamente infinitas. Esses infinitos, que procedem do Senhor, não somente influem universalmente, mas também singularissimamente, pois o Divino é universal pelas coisas mais singulares, e são as coisas Divinas mais singulares que se chamam o universal, como acima se mostrou. E o Divino nos singularíssimos é também infinito. Por aí se pode ver que somente o Senhor faz com que cada um pense e queira segundo sua qualidade e segundo as leis de Sua Providência. Que todas as coisas que estão no Senhor e procedem do Senhor sejam infinitas, mostrou-se acima (n° 46-69); e também no tratado Divino Amor e Divina Sabedoria (n° 17-22).