. Mas estas coisas devem ser explicadas em sua ordem, para que apareçam diante do homem racional, seja ele mau ou bom, assim, esteja ele na luz do inverno ou na luz do verão, pois em uma e outra as cores aparecem igualmente. Primeiro: Quando a vontade está no mal a inteligência própria não vê senão o que é falso, e não quer nem pode ver outra coisa. Isso foi mostrado muitas vezes no mundo espiritual. Cada homem, quando se torna espírito - o que acontece após a morte, pois que então se despe do corpo material e se reveste do corpo espiritual - é posto alternadamente nos dois estados de sua vida, o externo e o interno. Quando está no estado externo, fala e também age racional e sabiamente, absolutamente como um homem racional e sábio no mundo, e pode até ensinar aos outros muitas coisas que pertencem à vida moral e civil e, se foi pregador, pode também ensinar as que pertencem à vida espiritual. Mas, quando desse estado externo é posto em seu interno, e o externo adormece enquanto o interno é despertado, então, se é mau, a cena muda: de racional torna-se sensual, e de sábio, insano. Porque então pensa pelo mal de sua vontade e seu prazer, assim, pela inteligência própria, e não vê senão o falso, não faz senão o mal, crendo que a malícia é sabedoria e que a astúcia é prudência. Pela inteligência própria crê-se uma deidade e extrai artifícios nefandos de toda a sua mente. [2] Vi essas insanidades muitas vezes e vi também que eram postos nesses estados alternados duas ou três vezes no espaço de uma hora. Foi-lhes então concedido ver suas insanidades e até reconhecê-las, todavia não quiseram permanecer no estado racional e moral, mas espontaneamente se voltavam para o estado interno sensual e insano, ao qual amavam mais do que ao outro, porquanto nesse estava o prazer do amor de suas vidas. Quem pode crer que o homem mau seja assim por trás de sua face, e que passe por tal metamorfose quando entra em si mesmo? Por esta única experiência pode-se ver o que é a própria inteligência, quando pensa e age pelo mal de sua vontade. Acontece de outro modo com os bons: esses, quando do estado externo são postos no interno, tornam-se ainda mais sábios e morais. [3] Segundo: Se a inteligência própria então vê o vero, afasta-se dele ou o falsifica. Existe no homem o proprium voluntário e o proprium intelectual. O proprium voluntário é o mal e o proprium intelectual é o falso do mal, pelo que este se entende pela 'vontade do homem' e aquele pela 'vontade da carne' (João 1:13). O proprium voluntário é, em sua essência, o amor de si, e o proprium intelectual é o orgulho proveniente desse amor. Estes dois são como dois cônjuges, e o seu casamento se chama casamento do mal e do falso. Neste casamento cada mau espírito é posto, antes de ir ao inferno e, quando está ali, não sabe mais o que é o bem, pois ao seu mal chama bem, uma vez que o sente como prazer. E, então, também se desvia do vero, nem o deseja ver, porque vê o falso que concorda com seu mal como o olho vê o que é belo, e o ouve como o ouvido ouve o que é harmonioso. [4] Terceiro: A Divina Providência faz continuamente com que o homem veja o vero e lhe dá a afeição de percebê-lo e também de o receber. Isto acontece porque a Divina Providência age desde o interior e por este influi nos exteriores, ou, desde o espiritual, nas coisas que estão no homem natural, e pela luz do céu ilumina o entendimento e pelo calor do céu vivifica a vontade. A luz do céu, em sua essência, é a Divina Sabedoria, e o calor do céu, em sua essência, é o Divino Amor. Pela Divina Sabedoria nenhuma outra coisa pode influir senão o vero, e pelo Divino Amor nenhuma outra coisa pode influir senão o bem; e por esse modo o Senhor dá ao entendimento a afeição de ver o vero e também de o perceber e receber. Assim o homem se torna homem não somente quanto à face externa, mas também quanto à interna. Quem não quer ser visto como homem racional e espiritual? E quem não sabe que quer ser visto assim para ser considerado pelos outros como um verdadeiro homem? E, por conseguinte, se é racional e espiritual só na forma externa e não ao mesmo tempo na interna, acaso ele é homem? Não será outra coisa senão um palhaço num teatro, ou um macaco cuja face é quase humana? Não se pode, por isso, conhecer que só é homem aquele que o é interiormente, como quer ser visto pelos outros? Quem reconhece um, reconhece o outro. A própria inteligência pode induzir a forma humana só nos externos, mas a Divina Providência a induz nos internos e, pelos internos, nos externos; quando essa forma é induzida, o homem não [somente] parece homem, mas é um homem. [5] Quarto: Desse modo o homem é retirado do mal, não por si mesmo, mas pelo Senhor. Que o homem possa ser retirado do mal quando a Divina Providência concede ver o vero e, ao mesmo tempo, a afeição do vero, é porque o vero mostra e dita, e quando a vontade faz isso [que foi mostrado e ditado], ela se conjunta ao vero e em si muda o vero em bem. Com efeito, torna-se de seu amor, e o que é do amor isto é um bem. Toda reforma se faz pelo vero e não sem ele, pois sem o vero a vontade está continuamente em seu mal; e, se consulta o entendimento, não é instruída, mas o mal é confirmado pelo falso. [6] No que concerne à inteligência, ela aparece como sua e própria, tanto no homem bom quanto no homem mau, e o bom, do mesmo que o mau, é levado a agir pela inteligência como sua própria. Mas quem crê na Divina Providência é retirado do mal; quem, porém, não crê, não é retirado. E nela crê aquele que reconhece ser o mal um pecado e, por isso, quer ser retirado dele, e nela não crê aquele que não o reconhece isso nem quer. A diferença entre essas duas inteligências é como entre uma coisa que se crê existir em si e outra que se crê não existir em si, mas como em si. É, também, como entre o externo sem o seu similar interno e o externo com seu similar interno, assim, como entre a linguagem e o gesto de mímicos e comediantes, que representam papéis de reis, príncipes e duques, e os reis, príncipes e duques mesmos. Estes últimos são tais interiormente e exteriormente ao mesmo tempo, mas aqueles somente no exterior, o qual, quando é tirado, eles se chamam comediantes, palhaços e atores.