. Mas vou relatar o que ouvi de alguns no mundo espiritual. Eram daqueles que tinham acreditado que a própria prudência é tudo e que a Divina Providência nada é. Eu disse que o homem não tem proprium algum, a não ser que se queira chamar de seu proprium àquilo que faz com que seja tal ou tal sujeito, tal ou tal órgão, tal ou tal forma, porém não é isso que se entende por proprium, pois é somente a qualidade; mas nenhum homem tem proprium algum, tal como é comumente entendido. Aqueles que tinham atribuído tudo à própria prudência, os quais também podem ser chamados proprietários à sua imagem, se inflamaram tanto que parecia sair chama de suas narinas, dizendo: "Falas paradoxos e insanidades. Não seria o homem, assim, nada e vazio? Ou não seria uma idéia e fantasia? Ou uma escultura, ou estátua?" [2] Mas não pude responder de outra maneira senão que paradoxo e insanidade é crer que o homem tem vida por si, e que a sabedoria e a prudência não fluem de Deus, mas estão no homem, assim como o bem que é da caridade e o vero que é da fé. Atribuir essas coisas a si é o que todo sábio chama de insanidade e, daí, também é um paradoxo. Além disso, eles são como os que habitam na casa e na propriedade dos outros e, quando estão ali, persuadem-se de que são suas propriedades; ou são como ecônomos e empregados que crêem serem suas todas as coisas da casa, e como os servidores, aos quais o senhor deu talentos e minas para negociarem, que não prestaram conta mas os retiveram como seus e, assim, agiram como ladrões. [3] Destes e daqueles pode-se dizer que são insanos, e mesmo que são nada e vazios, e também que são fantasiosos, porque não têm em si, provindo do Senhor, o bem, que é o Ser mesmo da vida, tampouco o vero. Por isso esses são até chamados 'mortos' e também 'nada' e 'vazios' (Isaías 40:17,23), e, em outra passagem, 'fazedores de imagem' e também 'esculturas' e 'estátuas'. Mas, sobre isso, muitas coisas serão ditas na seqüência, apresentadas nesta ordem: (i.) O que é a própria prudência e o que é a prudência não própria. (ii.) O homem, pela própria prudência, se persuade e se confirma de que todo bem e vero procede de si e está em si, do mesmo modo que todo mal e falso. (iii.) Tudo o que é persuadido e confirmado permanece como o proprium no homem. (iv.) Se o homem cresse, como é a verdade, que todo bem e vero procede do Senhor, e todo mal e falso procede do inferno, não apropriaria a si o bem, fazendo-o meritório, nem apropriaria a si o mal, fazendo-se culpado do mal.