. (ii.) O homem, pela própria prudência, se persuade e se confirma de que todo bem e vero procede de si e está em si, do mesmo modo que todo mal e falso. Seja uma argumentação, por analogia, entre o bem e vero natural e o bem e vero espiritual. Pergunta-se: O que são o vero e o bem à vista do olho? Porventura não se chama vero o que é belo e bem o que é prazeroso? Pois se sente prazer vendo o que é belo. O que são o vero e o bem para o ouvido? Porventura não se chama vero o que é harmônico e bem o que é ameno? Pois se sente a amenidade ouvindo a harmonia. É semelhante em relação aos outros sentidos. Daí se vê o que são o vero e o bem naturais. Será considerado agora o que são o vero e o bem espirituais. Porventura o vero espiritual é outra coisa senão o que é belo e harmônico nas coisas e nos objetos espirituais? E o bem espiritual é outra coisa senão o prazer e a amenidade pela percepção da beleza e da harmonia de tais coisas? [2] Agora se verá se pode-se dizer de um coisa diferentemente do que se diz de outra, ou do espiritual uma coisa e do natural outra. Do natural se diz que o belo e o prazeroso influem dos objetos no olho, e que o harmônico e ameno influem dos instrumentos no ouvido. Qual será a diferença nas substâncias orgânicas da mente? Diz-se destas últimas que elas estão presentes e das primeiras que elas influem. Mas, se for perguntado: "Por que se diz que elas influem?", não se pode responder outra coisa senão que é porque aparece uma distância. Mas, se for perguntado: "Por que se diz que estão presentes?", não se pode responder outra coisa senão que é porque não aparece a distância. Conseqüentemente, é a aparência da distância que faz com que se creia uma coisa a respeito do que o homem pensa e percebe, e outra coisa a respeito do que ele vê e ouve. Mas isto cai por terra quando se sabe que o espiritual não está na distância como está o natural. Pensa sobre o Sol e a Lua, ou sobre Roma e Constantinopla. Porventura não estão no pensamento sem distância, contanto que esse pensamento não seja conjunto à experiência havida pela vista ou pelo ouvido? Por que então te persuades de que, por não aparecer distância no pensamento, o bem e o vero, assim como o mal e o falso, estão ali, e não influem? [3] Acrescentarei a isso uma experiência que é comum no mundo espiritual. Um espírito pode incutir seus pensamentos e afeições em outro espírito e este não saber outra coisa senão que esses são seus próprios pensamentos e afeições. Isto ali se chama pensar por outro e pensar em outro. Vi isso milhares de vezes e também fiz isso centenas de vezes; e, todavia, a aparência de distância era considerável. Mas tão logo sabiam que era outro que incutia esses pensamentos e afeições, ficavam indignados e se afastavam, reconhecendo, porém, que a distância não aparece à vista interna ou ao pensamento como aparece à vista externa ou ao olho, a menos que isso seja revelado, e daí é que se crê influir. [4] Ajuntarei a isso uma experiência cotidiana minha. Espíritos maus muitas vezes injetavam em meu pensamento males e falsos que pareciam como se estivessem em mim e fossem meus, ou que eu mesmo os tivesse imaginado. Mas, como eu sabia que eram males e falsos, procurava quem os tinha injetado, e eles eram descobertos e expulsos; e eles estavam a uma boa distância de mim. Por aí se pode ver que todo mal com seu falso influi do inferno e todo bem com seu vero influi do Senhor, e uns e outros parecem como se estivessem no homem.