DIVPROV &324

Sabedoria Angélica sobre a DIVINA PROVIDÊNCIA
Emanuel Swedenborg
Doutrina da Nova Jerusalém sobre a Divina Providência

. Visto que por estas explicações pode-se ver também que a Divina Providência não é predestinação senão para o céu, e tampouco pode ela ser mudada em outra, deve-se demonstrar aqui que o propósito da criação é um céu proveniente do gênero humano, na ordem proposta. Primeiro: Todo homem foi criado para viver eternamente. No tratado Divino Amor e Divina Sabedoria, partes Terceira e Quinta, mostrou-se que há no homem três graus de vida, que se chamam natural, espiritual e celeste; esses três graus estão em realidade em cada um; e nas bestas não há senão um grau de vida, semelhante ao último grau no homem, e que se chama natural. Daí se segue que o homem, pela elevação de sua vida ao Senhor, está mais do que as bestas no estado de poder entender o que é da Divina Sabedoria e querer o que é do Divino Amor, assim, de poder receber o Divino. E quem pode receber o Divino, a ponto de vê-lo e percebê-lo, não pode deixar de ser conjunto ao Divino e por essa conjunção viver eternamente.
[2] O que seria o Senhor, com toda a criação do universo, se não tivesse criado também imagens e semelhanças Suas, às quais pudesse comunicar o Seu Divino? De outro modo, que teria sido isso, senão fazer que algo seja e não seja, ou que algo exista e não exista, e isso sem outro fim senão poder contemplar de longe meras vicissitudes e contínuas variações, como sobre algum teatro? Que Divino haveria neles, se não fosse o propósito de servirem de sujeitos que recebessem o Divino mais intimamente e o vissem e sentissem? E como o Divino é de uma glória inexaurível, não reteria isso em si somente, e o poderia? Pois o amor quer comunicar a outro o que é seu e mesmo dar do que é seu o quanto pode; o que não fará então o Divino Amor, que é infinito? Pode ele dar e de novo tomar? Não seria isso dar algo que deve perecer? Nada existe do que é naquilo que interiormente em si nada é, pois quando perece se torna nada. Mas dá o que é, ou que não cessa de ser, e isso é eterno.
[3] Para que o homem viva eternamente, o que é mortal é tirado dele. Seu mortal é o corpo material, que é tirado por sua morte. Assim é despido o seu imortal, que é sua mente, e ele então se torna espírito na forma humana. Sua mente é esse espírito. Que a mente do homem não possa morrer, é o que os sofistas ou sábios antigos viram, pois disseram: "Como pode o espírito [animus] ou mente morrer, uma vez que pode ser sábio?" A idéia interior deles a este respeito poucos hoje conhecem, mas era uma idéia que caía do céu em sua percepção geral de que Deus é a Sabedoria mesma, da qual o homem participa, e que Deus é imortal ou eterno.
[4] Porquanto me foi concedido conversar com os anjos, direi também alguma coisa pela experiência. Falei com aqueles que viveram há muitos séculos, alguns que viveram antes do dilúvio, outros que viveram após o dilúvio, outros que viveram no tempo do Senhor, como um de Seus apóstolos, e com muitos que viveram nos séculos seguintes. Eu os vi a todos como homens de meia idade, e disseram que não sabiam o que é a morte, somente o que é a danação. Também, todos os que viveram no bem, quando vêm ao céu, entram na sua idade juvenil do mundo e nela permanecem eternamente, até os que eram senis e decrépitos no mundo. E as mulheres, ainda que tenham sido velhas e idosas, voltam à flor da sua idade e à sua beleza.
[5] Que o homem viva eternamente depois da morte, é evidente pela Palavra, onde a vida no céu se chama 'vida eterna' (como em Mt. 19:29; 25:46; Mc. 10:17; Lc. 10:25; 18:30; Jo. 3:15, 16, 36; 5:24, 25, 39; 6:27, 40, 68; 12:50) e, também, simplesmente 'vida' (Mt. 18:8, 9; Jo. 5:40; 20:31). O Senhor disse também aos discípulos:
"Pois que Eu vivo, vós também vivereis" (Jo. 14:19);
E sobre a ressurreição, que Deus é
"Deus dos que vivem e não Deus dos mortos", e também que não podem mais morrer (Lc. 20:36, 38).
[6] Segundo: Que todo homem tenha sido criado para viver eternamente num estado bem-aventurado é a conseqüência disso, pois Aquele que quer que o homem viva eternamente quer também que viva num estado bem-aventurado. O que é a vida eterna sem isso? Todo amor quer o bem do outro; o amor dos pais quer o bem dos filhos, o amor do noivo e do marido quer o bem da noiva e da esposa, e o amor da amizade quer o bem dos amigos. O que não deve então querer o Divino Amor? E o bem, que outra coisa é senão o prazer? E o Divino Bem, que outra coisa é senão a bem-aventurança eterna? Todo bem é chamado bem por causa de seu prazer ou sua beatitude. Ao que é concedido e possuído chama-se bem, é verdade, mas, a não ser que seja também um prazer, é um bem estéril, que em si não é o bem. Daí é evidente que a vida eterna também é a bem-aventurança eterna. Esse estado do homem é o propósito da criação. Mas que somente venham a esse estado aqueles que estão no céu, a culpa não está no Senhor, mas no homem. Que a culpa esteja no homem, ver-se-á na seqüência.
[7] Terceiro: Assim, todo homem foi criado para vir ao céu. Este é o propósito da criação. Mas que nem todos venham ao céu é porque se impregnam dos prazeres do inferno opostos à beatitude do céu, e os que não estão na beatitude do céu não podem entrar no céu, pois não o suportam. A ninguém que vem ao mundo espiritual se nega subir ao céu, mas quando ali entra aquele que está no prazer do inferno, o coração palpita, a respiração ofega e a vida começa a perecer; aflito e atormentado, ele se retorce como uma serpente posta perto do fogo. Isto é assim porque o oposto atua no oposto.
[8] Entretanto, visto que nasceram homens e, por isso, estão na faculdade de pensar e de querer, assim, na faculdade de falar e de agir, não podem morrer. Como, porém, não podem viver com outros senão aqueles que estão em semelhante prazer da vida, para esses é reenviado. Conseqüentemente, os que estão nos prazeres do mal são reenviados para os seus, e os que estão nos prazeres do bem, para os seus. É mesmo concedido a cada um estar no prazer de seu mal, contanto que não infeste aqueles que estão no prazer do bem. Mas como o mau não pode deixar de infestar o bom, pois no mal se encerra o ódio contra o bem, por isso, para que não causem dano, são removidos e precipitados em seu lugar no inferno, onde o prazer deles se muda em desprazer.
[9] Mas isso não anula o fato de que o homem por criação seja tal e, assim, nasça tal que possa vir ao céu, pois ao céu vem todo aquele que morre na infância, sendo ali educado e instruído tal como um homem no mundo, e, pela afeição do bem e do vero, é imbuído de sabedoria e se torna anjo. A mesma coisa é possível ao homem que é educado e instruído no mundo, pois há nele o mesmo que na criança. Sobre as crianças no mundo espiritual, vide a obra O Céu e o Inferno (publicada em Londres, no ano de 1758), n° 329-345.
[10] Mas que não aconteça a mesma coisa com muitos no mundo é porque eles amam o primeiro grau de sua vida, que se chama natural, e não querem se afastar dali e tornarem-se espirituais. E o grau natural da vida considerado em si mesmo não ama senão a si e ao mundo, pois é coerente com os sentidos do corpo, que também estão expostos ao mundo. Mas o grau espiritual da vida considerado em si mesmo ama o Senhor e o céu, e também a si e ao mundo, mas Deus e o céu como o superior, principal e dominante, e a si mesmo e o mundo como o inferior, instrumental e servo.
[11] Quarto: Que o Divino Amor não possa querer outra coisa senão isso, e a Divina Sabedoria não possa prover outra coisa senão isso. Que a Divina Essência seja o Divino Amor e a Divina Sabedoria, mostrou-se plenamente no tratado do Divino Amor e Divina Sabedoria. Ali também se demonstrou (n° 358-370) que o Senhor forma em todo embrião humano dois receptáculos, um do Divino Amor e outro da Divina Sabedoria; o receptáculo do Divino Amor para a futura vontade do homem, e o receptáculo da Divina Sabedoria para seu futuro entendimento. Assim é que dotou cada homem da faculdade de querer o bem e da faculdade de entender o vero.
[12] Ora, visto que essas duas faculdades foram dadas pelo Senhor ao homem de nascença e, assim, o Senhor está nelas como no que é Seu no homem, é evidente que o Seu Divino Amor não pode querer outra coisa senão que o homem venha ao céu e ali usufrua da eterna bem-aventurança. E, também, a Divina Sabedoria não pode prover outra coisa senão isso. Mas, como é pelo Divino Amor do Senhor que o homem sente a bem-aventurança celeste em si como sua, e isso não é possível a não ser que o homem seja mantido em toda a aparência de que pensa, quer, fala e age por si, por conseguinte, o Senhor não pode conduzir o homem de outro modo senão segundo as leis de Sua Divina Providência.

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