. (ii.) A operação da Divina Providência se faz continuamente por meios da pura misericórdia. Há meios e modos da Divina Providência. Os meios são aqueles pelos quais o homem se torna homem e é aperfeiçoado quanto ao entendimento e quanto à vontade. Os modos são aqueles pelos quais isso se efetua. Os meios pelos quais o homem se torna homem e é aperfeiçoado quanto ao entendimento são chamados, num termo comum, veros, que se tornam idéias no pensamento e se chamam coisas na memória; em si mesmos, são conhecimentos dos quais vem a ciência. Todos esses meios, considerados em si mesmos, são espirituais. Como, porém, estão nos naturais, por sua cobertura ou seu revestimento aparecem como coisas naturais e, alguns, coisas materiais. Esses meios são infinitos em número e infinitos em variedade. São simples e compostos, em menor e maior grau, e são imperfeitos e perfeitos, em menor e maior grau. Há meios para formar e para aperfeiçoar a vida civil natural, em seguida para formar e aperfeiçoar a vida moral racional, como também para formar e aperfeiçoar a vida espiritual celeste.
[2] Esses meios se sucedem, um gênero após o outro, da infância até à última idade do homem e, depois dela, na eternidade. E à medida que se sucedem, crescendo, também os anteriores se tornam meios posteriores, porque entram como causa média em tudo que é formado, pois desse modo todo efeito ou tudo que é concluído é eficiente e, assim, torna-se causa. Assim é que os anteriores se tornam sucessivamente meios. E como isto se faz na eternidade, não existe um derradeiro ou último que encerre. Porque, assim como o eterno é sem fim, assim a sabedoria, que cresce na eternidade, é sem fim. Se a sabedoria tivesse um fim para o sábio, pereceria o prazer de sua sabedoria, o qual consiste em sua perpétua multiplicação e frutificação e, assim, o prazer de sua vida, sucedendo em seu lugar o prazer da glória, no qual, por si só, não está a vida celeste. Então esse homem sábio não é mais um jovem, mas um velho e, finalmente, decrépito.
[3] Embora a sabedoria do sábio no céu cresça eternamente, não existe, todavia, para a sabedoria angélica, aproximação da Divina Sabedoria a ponto de poder atingi-la. É, comparativamente, como o que se diz de uma linha reta traçada próxima à hipérbole, continuamente se aproximando mas nunca tangenciando; e é também como se diz do esquadrejamento do círculo. Por aí se pode ver o que se entende pelos meios pelos quais a Divina Providência opera para que o homem se torne homem e seja aperfeiçoado quando ao entendimento, e por esses meios serem chamados, num termo comum, veros. Há também outros tantos meios pelos quais o homem é formado e aperfeiçoado quanto à vontade, mas esses são chamados, num termo comum, bens. Destes o homem tem o amor, mas daqueles o homem tem sabedoria. A conjunção deles faz o homem, pois qual é a conjunção, tal é o homem. Essa conjunção é o que se chama casamento do bem e do vero.
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