. (iii.) Não existe salvação instantânea por misericórdia imediata. Nos parágrafos precedentes mostrou-se que a operação da Divina Providência para salvar o homem começa desde seu nascimento e continua até o fim de sua vida e depois, na eternidade; e mostrou-se também que essa operação se faz continuamente por pura misericórdia. Daí se segue que não existe salvação instantânea nem misericórdia imediata. Como, porém, há muitos que nada pensam pelo entendimento sobre as coisas da igreja ou da religião e crêem que são salvos por misericórdia imediata e, assim, que a salvação é instantânea, e, considerando que isso é contra a verdade e essa crença é danosa, é importante que isso seja examinado em sua ordem. Primeiro: A fé numa salvação instantânea por misericórdia imediata foi tomada do estado natural do homem. Segundo: Essa fé vem da ignorância a respeito do estado espiritual, que é inteiramente diferente do estado natural. Terceiro: As doutrinas de todas as igrejas no mundo cristão, consideradas interiormente, são contra a salvação instantânea por misericórdia imediata, embora os homens externos da igreja a sustentem.
[2] Primeiro: Que a fé na salvação instantânea por misericórdia imediata seja tomada do estado natural do homem. O homem natural, por seu estado, não sabe outra coisa senão que a alegria celeste é como a alegria do mundo, e que influi e é recebida de modo semelhante. Por exemplo, que é como alguém que é pobre e se torna rico e, assim, do triste estado de indigência vai ao estado feliz da opulência. Ou como alguém que é vil e se torna honorável e, assim, de desprezado vai à glória. Ou como alguém que de uma casa de luto vai à alegria das núpcias. Porquanto esses estados podem ser mudados dentro de um dia e não há outra idéia a respeito do estado do homem após a morte, é evidente de onde procede que se creia na salvação instantânea por misericórdia imediata.
[3] Também, no mundo muitos podem estar numa mesma consociação ou numa comunidade civil, alegrarem-se juntamente e, todavia, todos serem de diferentes ânimos. A razão disso é que o externo de um homem pode ser acomodado ao externo de outro, por mais que os internos sejam dessemelhantes. Desse estado natural também se concluiu que a salvação é somente a admissão entre os anjos no céu e que essa admissão seja por misericórdia imediata. Por isso, também, se crê que o céu pode ser dado igualmente aos maus como aos bons e, então, que a consociação entre eles é semelhante a que existe no mundo, com a diferença de que aquela é cheia de alegria.
[4] Segundo: Mas que essa fé venha da ignorância a respeito do estado espiritual, que é inteiramente diverso do estado natural. Acima, em muitos lugares, tratou-se do estado espiritual, que é o estado do homem após a morte, e mostrou-se que cada um é o seu amor e que ninguém pode viver com outros senão aqueles que estão em semelhante amor; e, se vai estar entre outros, não pode respirar a sua vida. Assim é que cada um depois da morte vai à sociedade dos seus, que são aqueles que estão num amor semelhante, aos quais ele reconhece como parentes e amigos. E, o que é admirável, quando vem entre eles e os vê é como se os conhecesse desde a infância. Isto acontece por causa da afinidade e amizade espiritual. Ainda mais, numa sociedade ninguém pode habitar em outra casa senão a sua; cada um na sociedade tem sua casa, a qual encontra preparada para si tão logo entra na sociedade. Pode estar na companhia dos outros fora de sua casa, mas não pode morar em outra que não a sua. E, o que é mais ainda, ninguém pode sentar-se num aposento particular de outro a não ser no seu lugar próprio; se sentar em outro, perde o controle da mente e fica mudo. E, o que é admirável, cada um que entra num aposento conhece o seu lugar. Acontece de modo semelhante nos templos e também nas assembléias, quando se reúnem.
[5] Por aí é evidente que o estado espiritual é inteiramente diferente do estado natural, e tal que ninguém pode estar em outro lugar senão onde seu amor reinante está, porque ali está o prazer de sua vida e cada um quer estar no prazer de sua vida. Espíritos e homens não podem estar em outro lugar, porque isso faz a sua vida e mesmo a própria respiração, como também o batimento de seu coração. É diferente no mundo natural. Neste, o externo do homem é, desde a infância, instruído a simular na face, na linguagem e nos gestos outros prazeres que não são de seu interno. Por isso, pelo estado do homem no natural não se pode tirar conclusões quanto ao seu estado após a morte, pois o estado de cada um após a morte é espiritual, o qual é, que ninguém pode estar em outro lugar diferente de onde está o prazer de seu amor, que adquiriu para si pela vida no mundo natural.
[6] Daí se pode ver claramente que ninguém pode ser introduzido no prazer do céu - que, por um termo comum se chama prazer celeste - se está no prazer do inferno, ou, o que é o mesmo, no prazer do bem se está no prazer do mal. Isto pode ser ainda mais claramente concluído pelo fato de que, após a morte, a ninguém é negado subir ao céu; o caminho lhe é mostrado, a oportunidade lhe é dada e ele é introduzido. Mas, quando chega ao céu, e pela aspiração inala o seu prazer, começa a sentir dor no peito, experimenta tortura no coração e sofre desmaio, no qual se contorce como uma serpente posta perto do fogo; e com a face desviada do céu e voltada para o inferno, foge e se precipita, e não descansa senão na sociedade de seu amor. Daí se pode ver que ninguém pode vir ao céu por misericórdia imediata; por conseguinte, não é somente ser admitido ali, como se imagina no mundo; depois, que não existe salvação instantânea, pois ela implica em imediata misericórdia.
[7] Havia alguns que, no mundo, tinham acreditado na salvação instantânea pela misericórdia imediata e, quando se tornaram espíritos, quiseram que o seu prazer infernal ou prazer do mal fosse transformado em prazer celeste ou prazer do bem pela Divina Onipotência e, ao mesmo tempo, pela Divina Misericórdia. E como desejavam muito isso, foi-lhes mesmo permitido que os anjos removessem deles o prazer do inferno. Mas, como este era o prazer do amor de sua vida, por conseguinte, a sua vida, eles então jazeram como mortos, desprovidos de todo sentido e de todo movimento. Tampouco foi possível insinuar neles outra vida senão a sua, porquanto todas as coisas de suas mentes e seus corpos, que eram voltadas para trás, não podiam ser destorcidas ao contrário. Por isso, foram ressuscitados pela imissão do prazer do amor de suas vidas. Depois disso, disseram que naquele estado tinham sentido interiormente algo medonho e horrendo, que não quiseram contar. Por isso se diz, no céu, que é mais fácil mudar uma coruja em pomba e uma serpente em cordeiro do que um espírito infernal em um anjo do céu.
[8] Terceiro: Que as doutrinas de todas as igrejas no mundo cristão, consideradas interiormente, sejam contra a salvação instantânea por misericórdia imediata, embora os homens externos da igreja a sustentem. As doutrinas de todas as igrejas, consideradas interiormente, ensinam a vida. Que igreja há cuja doutrina não ensine que o homem deve se examinar, ver e reconhecer seus pecados, confessá-los, praticar penitência e em seguida viver uma vida nova? Quem é admitido à Santa Comunhão sem essa exortação e esse preceito? Pergunta, e terás a confirmação. Que igreja há cuja doutrina não seja fundada sobre os preceitos do Decálogo? Ora, os preceitos do Decálogo são preceitos de vida. Qual é o homem da igreja, em quem a igreja está, que não reconhece quando ouve dizer que quem vive no bem é salvo, e quem vive no mal é condenado? Por isso, na Fé do credo Atanasiano, que também é doutrina recebida em todo o mundo cristão, estas palavras são ditas: "O Senhor virá para julgar os vivos e os mortos, e então aqueles que fizeram o bem entrarão na vida eterna, e os que fizeram o mal, no fogo eterno".
[9] Pelo que é evidente que as doutrinas de todas as igrejas, interiormente consideradas, ensinam a vida; e como ensinam a vida, ensinam que a salvação é segundo a vida; e a vida do homem não pode ser inspirada num só momento, mas formada gradativamente e reformada conforme o homem foge dos males como pecados, por conseguinte, à medida que sabe o que é pecado e o conhece e reconhece, e não o quer, desistindo, assim, do pecado; e também à medida que conhece igualmente os meios, que se referem ao conhecimento de Deus. Por estas e aquelas coisas a vida do homem é formada e reformada, e elas não podem ser insinuadas num só momento. Com efeito, o mal hereditário, que em si é infernal, deve ser removido e em seu lugar deve ser implantado o bem que, em si, será celeste. Por seu mal hereditário o homem pode ser comparado a uma coruja quanto ao entendimento e a uma serpente quanto à vontade, e o homem reformado pode ser comparado a uma pomba quanto ao entendimento e a uma ovelha quanto à vontade. Por isso, a reforma instantânea e, assim, a salvação seria, por comparação, como a instantânea conversão da coruja em pomba e da serpente em ovelha. Quem não vê, sabendo alguma coisa sobre a vida do homem, que isso não é possível, a não ser que a natureza da coruja e da serpente seja tirada e a natureza da pomba e da ovelha seja implantada?
[10] Sabe-se também que todo inteligente pode se tornar mais inteligente e todo sábio mais sábio, e que a inteligência e a sabedoria no homem podem crescer e em alguns cresce desde a infância até o fim de sua vida, e que, assim, o homem é continuamente aperfeiçoado. Por que não cresceria ainda mais a inteligência e sabedoria espiritual? Esta sobe por dois graus acima da inteligência e sabedoria natural, e, à medida que sobe, torna-se angélica, que é inefável. Que ela cresça nos anjos na eternidade, é o que foi dito acima. Quem não pode compreender, se quiser, que é impossível que aquilo que é aperfeiçoado na eternidade seja aperfeiçoado num instante?
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