. (iv.) A salvação instantânea por misericórdia imediata é uma serpente de fogo voando na igreja. Pela serpente de fogo voando se entende o mal luzindo pelo fogo infernal, semelhante à 'serpente de fogo voando' em Isaías:
"Não te alegres, ó toda Filístia, porque se quebrou a vara que te fere, pois da raiz da serpente sai o basilisco, cujo fruto é uma serpente de fogo que voa" (Is. 14:29).
Esse mal voa na igreja quando se crê na salvação instantânea por misericórdia imediata, pois, por essa crença, (1.) a religião é abolida; (2.) a segurança é incutida; e (3.) a danação é imputada ao Senhor.
[2] No que concerne ao primeiro ponto, que por essa crença a religião é abolida. Há dois essenciais e, ao mesmo tempo, dois universais da religião: o reconhecimento de Deus e a penitência. Esses dois são coisas vãs para aqueles que crêem serem salvos só pela misericórdia, qualquer que seja a maneira que vivem, pois o que mais é necessário senão dizer: "Tem misericórdia de mim, ó Deus"? Acham-se estes na escuridão quanto a todas as demais coisas que são da religião, e até amam a escuridão. Sobre o primeiro essencial da igreja, que é o reconhecimento de Deus, não pensam outra coisa senão: "O que é Deus? Quem O viu?" Se se diz que Ele existe e que é Um, dizem que é Um; se se diz que são três, dizem também que são três, mas que os três devem ser chamados Um. Este é o reconhecimento de Deus neles.
[3] Do segundo essencial da igreja, que é a penitência, nada pensam. Conseqüentemente, tampouco pensam sobre algum pecado e, finalmente, não sabem se existe algum pecado. E então ouvem e recebem com satisfação que a lei não condena, "porque o cristão não está sob o seu jugo, se tão somente disser: Tem misericórdia de mim, ó Deus, por causa do Filho", e será salvo. Esta é a penitência de vida neles. Mas, remove a penitência, ou, o que é a mesma coisa, separa a vida da religião; o que resta a não ser a expressão: "Tem misericórdia de mim"? Assim é que nem poderiam dizer outra coisa senão que a salvação é instantânea por meio daquelas palavras e, se não antes, pelo menos perto da hora da morte. O que é, então, a Palavra para eles senão uma locução obscura e enigmática emitida de uma trípode numa caverna ou uma resposta ininteligível do oráculo de um ídolo? Em suma, se removes a penitência, isto é, se separas da vida a religião, que outra coisa é então o homem senão o mal que brilha do fogo infernal, ou uma serpente de fogo voando na igreja? Pois sem a penitência o homem está no mal, e o mal é o inferno.
[4] Segundo: Que pela fé na salvação instantânea por pura e única misericórdia seja incutida a segurança de vida. A segurança de vida surge ou da fé dos ímpios em que não existe vida após a morte, ou da fé daquele que separa da vida a salvação. Este, ainda que creia na vida eterna, todavia pensa: "Quer eu viva no bem, quer viva no mal, posso ser salvo, porque a salvação é por pura misericórdia, e a misericórdia de Deus é universal, pois não quer a morte de ninguém". E se talvez ocorre o pensamento de que a misericórdia deve ser implorada por palavras da fé recebida, pode pensar que isso ele pode fazer, se não antes, pelo menos antes da morte. Todo homem que está nessa segurança considera como nada os adultérios, as fraudes, as injustiças, as violências, as blasfêmias e as vinganças, mas entrega sua carne e seu espírito a todas elas. Tampouco sabe o que é o mal espiritual e sua concupiscência. Se ouve da Palavra alguma coisa sobre isso, é comparativamente como o que cai no ébano e resvala, ou como o que cai num fosso e é tragado.
[5] Terceiro: Que por essa fé a danação é imputada ao Senhor. Quem não pode concluir que não é o homem, mas o Senhor, o culpado, se o homem não é salvo, quando Ele pode salvar a cada um por pura misericórdia? Se se disser que o meio de salvação é a fé, pergunta-se: "Mas qual é o homem a quem essa fé não pode ser dada?" Porque essa fé é somente o pensamento, que pode ser infundido em todo estado do espírito abstraído das coisas mundanas, até com confiança. E ele também pode dizer: "Não posso tomá-la por mim mesmo". Assim, se ela não é dada e o homem é condenado, que outra coisa o condenado pode pensar senão que a culpa é do Senhor, que pôde e não quis? Não seria isso chamá-Lo de imisericordioso? E, além disso, na inflamação de sua fé, pode dizer: "Como [o Senhor] pode ver tantos condenados no inferno, quando, todavia, pode salvá-los num instante por pura misericórdia?" E muitas coisas semelhantes, que só podem ser chamadas de nefandas acusações ao Divino. Por aí agora se pode ver que a fé numa salvação instantânea por pura misericórdia é uma serpente de fogo voando na igreja.
[6] Desculpai-me por acrescentar estas coisas, para encher a sobra do papel. Alguns espíritos subiram do inferno mediante permissão e me disseram: "Escreveste muitas coisas vindas do Senhor. Escreve também algo vindo de nós". Respondi: "Que escreverei?" Disseram: "Escreve que cada espírito, seja bom, seja mau, está em seu prazer. O bom no seu prazer do bem e o mau no seu prazer do mal". Perguntei: "Qual é o vosso prazer?" Disseram que era o prazer de adulterar, roubar, fraudar e mentir. De novo perguntei: "Como são esses prazeres?" Disseram que são sentidos pelos outros como fedores de excremento, como podridão de cadáveres e como odores de urinas estagnadas. Eu disse: "Essas coisas vos são prazeres?" Disseram que eram prazerosíssimas. Eu disse: "Então sois como as bestas imundas que vivem em tais coisas". Responderam: "Se somos, somos, mas elas são delícias para nossas narinas".
[7] Perguntei: "Que mais escreverei de vós?" Disseram: "Isto, que a cada um é permitido estar no seu prazer, mesmo o mais imundo, como o chamam, contanto que não infeste os espíritos bons e os anjos. Mas como não podemos deixar de infestá-los, somos expulsos e lançados no inferno, onde sofremos coisas medonhas". Eu disse: "Por que infestais os bons?" Responderam que não podiam fazer outra coisa. É como um furor que os invade quando vêem algum anjo e sentem a esfera Divina ao redor dele. Então eu disse: "Se é assim, sois também como feras". Ao ouvir isso, sobreveio-lhes um furor que apareceu como o fogo do ódio; e, para que não causassem dano, foram repostos no inferno. Sobre os prazeres sentidos como odores e fedores no mundo espiritual, vê-se acima (n° 303-305 e 324).
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Nota do Tradutor
A primeira publicação da obra Divina Providência em língua portuguesa foi feita em 1969, fruto do trabalho de João de Mendonça Lima, que a traduziu da edição francesa do século XIX, por sua vez traduzida do latim por J. F. E. Les Boys des Guays. Com essa primeira edição praticamente esgotada por volta de 2005, tornou-se necessária uma nova edição e desta vez achou-se por bem fazer uma tradução inteiramente nova, diretamente do latim. Para esse fim, foram utilizados como fontes os textos em fac-símile da Editio Princeps, de 1764, e da edição digitalizada constante no programa NewSearch, da General Church of the New Jerusalem. Para consulta e referência, foi inestimável auxílio de duas obras: a própria tradução anterior, do francês, de Mendonça Lima, e a tradução inglesa de Wm. C. Dick e E. J. Pulsford, publicada pela Swedenborg Society, Londres, em 1949. Fica, pois, registrado aqui o nosso grato reconhecimento a esses dedicados tradutores do passado.
Registra-se igualmente nossa gratidão às pessoas que ofereceram espontânea colaboração ao presente trabalho: Roberto de Roure Paes, que fez uma leitura atenta e zelosa do primeiro esboço do texto e a concluiu poucos dias antes de perder a consciência e falecer em boa paz. Que o Senhor o tenha em Sua bem-aventurança. A Lygia C. Figueira Dalcin, revisora prestimosa de outras edições, que também deu seu valioso auxílio ao revisar a primeira parte deste trabalho. A Jorge de Lima Medeiros, que fez uma extensiva revisão gramatical do texto e, também, uma meticulosa comparação com a tradução antiga, de Mendonça Lima. Finalmente, a Cléia M. S. Nobre e Johnny Villanueva, que leram as provas, a Andrew J. Heilman, que também ofereceu sugestões úteis para melhor clareza do texto final, e a Eduardo Beirith, que cuidou da arte final da capa.
A publicação desta obra no Brasil se faz possível graças à generosa doação do Sr. John Pitcairn. A todas essas pessoas, inclusive às que já vivem no mundo espiritual, a gratidão sincera não só deste tradutor, mas de todos os leitores que se beneficiarão dessa valiosa obra em nosso idioma.
C. R. Nobre
2009
Glossário
Afetar - Aqui usado no sentido de causar ou produzir em efeito em algo ou alguém; inspirar; comover; sensibilizar. Por exemplo: "as coisas que devem ser do amor afetam a vontade do homem" AE 114.
Concordância verbal nos Escritos - vide Singularização
David - Nome do rei de Israel. Quando em itálico, aqui, designa todo o livro dos Salmos, indiferentemente dos seus autores, de acordo com o costume de Swedenborg.
Escortação, escortar, escortatório, etc. - Um termo muitíssimo usado nos Escritos em latim é o verbo 'scortor, aris, ari' e os substantivos 'scortum,i'; 'scortatio, onis'; e 'scortatus, us'. Esses termos são assim traduzidos no dicionário Latim-Português de A. Gomes Ferreira: 'Scortor, aris, ari - (verbo depoente intransitivo) -1. Frequentar os prostíbulos; ser devasso. Scortum, i - 1. Pele, couro; 2. Meretriz; 3. Homem prostituído. Scortatio, onis - não consta. Scortatus, us - (scortor) m. Libertinagem, devassidão". Nos dicionários portugueses adotados na tradução desta obra não consta nenhum termo equivalente, que seria o verbo 'escortar', nem os substantivos 'escortação', 'escortador' etc. A tradução mais lógica seria, portanto, 'praticar devassidão' e 'devasso' etc. No entanto, há mais de um século, isto é, desde as primeiras traduções em língua portuguesa, os termos 'escortar', 'escortação' etc. vêm sendo utilizados, de sorte que seu significado é bem conhecido na terminologia dos Escritos em nosso idioma. É, pois, um termo aceito e compreendido pelos leitores dos Escritos em português, especialmente pelo seu abundante emprego na obra Amor Conjugal. Em razão disso, preservou-se na presente tradução a forma portuguesa do substantivo 'escortação' muito embora não conste nos dicionários. Quanto ao verbo, foi preferida a forma 'cometer escortação' ou 'praticar escortação'. É interesse observar que, embora o vocábulo 'escortação' não conste nos dicionários portugueses, seu equivalente consta, todavia, em vários idiomas, mesmo que na grafia latina, como por exemplo, no holandês: scortatio, significando adultério; no alemão, scortatio, significando fornicação; e no inglês, scortatio, significando obscenidade.
Espada - Há vários termos no original latino para o termo 'espada', a saber: Romphaea, gladium, machaera. Nesta obra, gladium foi traduzida simplesmente como 'espada', mas a ocorrência mais significativa no livro do Apocalipse é a 'romphaea', traduzida como 'espada larga'.
Estender e expandir - Embora pareçam sinônimos, são empregados distintamente no latim, pelo que se manteve a forma, por exemplo "expandir as asas" ao invés de 'estendê-las', mas, especialmente, no contexto de "expandir os céus e estender a terra" (AE 274)
Mincha - Oferta de manjares nas Igrejas Israelita e Judaica, feita com flor de farinha e azeite.
Moisés - Nome do líder israelita. Quando em itálico, refere-se aqui aos cinco primeiros livros da Palavra, de acordo com a designação freqüente de Swedenborg.
Penitência - A definição do Dicionário Houaiss é: "1. arrependimento ou remorso por erro que se cometeu, esp. por haver ofendido os mandamentos divinos; contrição, metanóia. 2. A pena imposta para expiação desse erro". Nos Escritos de Swedenborg, porém, o termo "penitência" não é o remorso (ou contrição) nem a pena imposta, mas, sim, um processo inteiro, a saber: examinar-se, conhecer e reconhecer os próprios males, vê-los em si e confessar-se culpado por causa deles, suplicar o auxílio do Senhor e, então, começar efetivamente uma vida nova, abstendo-se do mal e praticando os usos de seu dever.
Prazer - vide Sensações ou afeições
Pronomes - Os pronomes pessoais, tanto os retos quanto os demonstrativos e oblíquos, que se referem diretamente ao Senhor são todos grafados em maiúsculas no original latino, forma que é mantida nas traduções para o português.
Proprium - Segundo a definição do dicionário Chadwick, de acordo com a instrução das Doutrinas Celestes: 1 - Uma qualidade peculiar do homem que o distingue... 3 - O ser dos seres humanos considerado como essencialmente mau, o ego.
Sensações ou afeições - Para designar sensações, há muitos mais vocábulos no latim do que podem ser traduzidos no português, coisa que também ocorre com o inglês. Por isso, alguns vocábulos acabam tendo a mesma tradução em nosso idioma. Por exemplo, 'prazer' pode ser a tradução dos termos latinos 'jucunditas', 'beneplacitum' ou 'voluptas', dependendo do contexto. De modo geral, procurou-se manter aqui a seguinte consistência para tradução de termos que designam as sensações: 'jucunditas' = prazer; 'laetitia' = alegria e, depois, prazer; 'gaudium' = regozijo e, depois, alegria; 'delectatio' = deleite e, depois, prazer; 'voluptas' = volúpia e, depois, prazer; 'beneplacitum' = beneplácito, bel-prazer, e, depois, prazer.
Singularização de termos e concordância verbal - Swedenborg emprega muito freqüentemente o que aqui chamaremos de singularização de termos, no sentido de que omite a concordância verbal ou aglutina dois sujeitos num só. Por exemplo, ele usa o verbo "proceder" na forma singular na frase: "Pode-se ver de onde procede o bem e vero", em vez de usar a forma plural "procedem"; ou: "O que é o bem e vero", em vez de "o que são...". Assim, parece que os dois, "bem e vero" são referidos como um só objeto, um só sujeito, pelo que o verbo ficou no singular. São duas entidades distintas, mas, talvez, pelo fato de estarem unidas no Senhor, são referidas como uma só, e o verbo fica na pessoa singular ("procede", "é"). O mesmo acontece com o adjetivo "mesmo" que fica no singular, em vez de "mesmos". Por isso, sempre que possível, mantivemos aqui essa forma. No entanto, como se disse acima, isto é coisa freqüente, mas não constante. Porque às vezes esses termos que formam casamentos são tratados como dois sujeitos distintos. Vemos exemplos de um e outro casos numa única frase, que se segue (os verbos foram sublinhados): "Quoniam cuivis affectioni est suum jucundum, et inde cogitationi suum amoenum, constare potest, unde est bonum et verum, tum quid bonum et verum in sua essentia sunt". Em português: "Visto que cada afeição tem o seu prazer e, daí, cada pensamento tem o seu deleite, pode-se ver de onde vem o bem e vero, e, também, o que são o bem e vero em sua essência". A fim de diferenciar um caso do outro, procuramos empregar artigos definidos num caso e omitir um deles no outro, isto é, no caso em que "bem" e "vero" estão regidos por um verbo singular (ou qualificados por um adjetivo singular), usamos o artigo só no primeiro termo. Assim: "O que é o bem e vero". E, no caso em que a regência segue a regra gramatical normal, usamos artigos para cada termo. Assim: "O que são o bem e o vero". O mesmo se aplica a outros termos, tais como: "o infinito e o eterno" e "o infinito e eterno" etc.
Urim e Thumim - Também chamada de peitoral do juízo, era parte da veste sacerdotal nas Igrejas Israelita e Judaica; era composto por uma placa quadrada feita de ouro e cravejada com doze pedras preciosas, por cujo brilho o Senhor inspirava respostas às indagações do sacerdote. Os termos vêm do hebraico "luzes e integridades".
Vero do bem - (verum ex bono) A preposição latina 'ex' indica procedência, ou seja, mostra que o vero procede ou nasce do bem, revelando uma derivação, assim como a semente procede do fruto. Portanto, o termo "vero do bem", muitíssimo visto nesta obra, não indica posse, ou seja, não é o vero que pertence ao bem. O mesmo é válido em relação a outros termos, como: 'falso do mal', 'fé da caridade' e outros menos usados.
Vero e verdade - Os dois termos (verum e veritas) coexistem no original. Na maioria das vezes, o latim usa 'verum' e poucas vezes 'veritas, atis', razão pela qual se manteve a distinção na tradução, em vez de se omiti-la e traduzir tudo por 'verdade'. É comum nos Escritos o uso de um adjetivo usado como substantivo: bonum = bem, verum = vero etc.
1 Publicada em português como "Sabedoria Angélica" em 1969.
2 Publicada em português no ano de 2008 como parte da obra Quatro Doutrinas.
3 Publicada em português no ano de 2005.
4 Publicado em português em 1945 e intitulado "Nova Jerusalém e Sua Doutrina Celeste".
5 Não há o n. 84 na edição original.
6 Publicada em português no ano de 2008 como parte da obra Quatro Doutrinas.
7 Não existe o n. 188 na edição original.
8 A mesma obra intitulada Sabedoria Angélica já citada
9 Ou Babilônia.
10 A mesma obra Doutrina de Vida
11 A numeração segue a da edição original.
12 Assim numerado na edição original.
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13
7
56 Emanuel Swedenborg
Divina Providência 57