. [154.] XII. Que o Senhor, por seu Divino Amor e Sua Divina Sabedoria, anime todas as coisas no céu e todas as coisas no mundo até os últimos destes, alguns para que vivam e outros para que sejam e existam. O olho vê o universo e a mente pensa nele, primeiro, que foi criado, e depois, por quem foi criado. A mente que pensa pelo olho pensa que foi criado pela natureza, mas a que não pensa pelo olho pensa que o foi por Deus. A mente que anda por um caminho no meio, porém, pensa que [o universo foi criado] por um Ser do qual não tem ideia, pois percebe que do nada não pode vir coisa alguma, mas essa mente cai na natureza, porque a respeito do infinito ela tem ideia de espaço, e do eterno, ideia do tempo. Esses são naturais interiores, e aqueles que pensam simplesmente da natureza como criadora são naturais exteriores. Mas aqueles que pensam com simplicidade pela religião a respeito de Deus, que Ele é o Criador do universo, são espirituais exteriores, enquanto aqueles que pensam a respeito de Deus sabiamente pela religião, que Ele é o Criador do universo, são espirituais interiores. Estes e aqueles, porém, pensam pelo Senhor. Ora, para que se perceba e se saiba que todas as coisas foram criadas por Deus, que é o Senhor de eternidade, o Divino Amor mesmo e a Divina Sabedoria mesma, assim, a Vida mesma, deve-se prosseguir por partes, o que se fará nesta ordem: 1. Que o Senhor seja o Sol no céu angélico. 2. Que desse Sol venha a origem de tudo. 3. Que por esse Sol haja a presença do Senhor em toda parte. 4. Que todas as coisas que foram criadas tenham sido criadas para o serviço da Vida mesma, que é o Senhor. 5. Que as almas da vida, as almas dos viventes e as almas vegetativas sejam animadas pelo Senhor por meio dos usos e segundo eles. [155.] [Seção XII. 1] 1. [Que o Senhor seja o Sol no céu angélico.] Até agora se ignorou que o Senhor é o Sol no céu angélico, porque se ignorou que o mundo espiritual é distinto do mundo natural, e que aquele está acima deste, e eles nada têm em comum entre si senão o fato de serem anterior e posterior e como a causa e o efeito. Daí se ignorou o que é o mundo espiritual e, sobretudo, que naquele mundo há anjos e espíritos, e que estes e aqueles são homens em toda semelhança aos homens no mundo, com a única diferença de que eles são espirituais e os homens são naturais. Depois, que todas as coisas que há ali são de origem espiritual unicamente, e todas as que há aqui são de origem tanto espiritual quanto natural. E como tais coisas foram ignoradas, ignorou-se também que os anjos têm luz e calor diferentes da luz e do calor dos homens, e que a luz e o calor ali derivam sua essência do Sol deles, assim como a luz e o calor derivam sua essência do nosso sol; por conseguinte, que a essência da luz e do calor de nosso sol é natural, à qual, todavia, se adjunta o espiritual do Sol deles, o qual no homem ilumina o seu entendimento quando o natural ilumina o seu olho. [156.] Por estas e outras explicações é evidente que o Sol do mundo espiritual é, em sua essência, de onde todo espiritual deriva sua origem (ortum); e que o sol do mundo natural seja em sua essência isto de onde todo natural deriva sua origem.” O espiritual não pode derivar a essência senão do Divino Amor e da Divina Sabedoria, pois amar e ser sábio é espiritual, ao passo que o natural não pode derivar sua essência de outra parte senão do puro fogo e da pura luz. Daí se segue agora que o Sol do mundo espiritual em seu ser é Deus, que é o Senhor de eternidade, e o calor desse Sol é o amor, e a luz desse Sol é a sabedoria. Que até agora não tenha sido revelada coisa alguma a respeito desse Sol, embora se entenda ele em muitas passagens na Palavra onde o sol é mencionado, é porque não devia ser revelado antes de o juízo final ser realizado e uma nova igreja ser instaurada pelo Senhor, a qual é a Nova Jerusalém. Há muitas razões pelas quais isto não foi revelado antes, mas aqui não é o lugar de citá-las. Uma vez que se deu a conhecer que os anjos e espíritos são homens e que eles vivem entre si como os homens no mundo, e que eles estão acima da natureza e os homens dentro da natureza, então se pode concluir pela razão que eles têm outro Sol, e que é dele que tudo do amor e tudo da sabedoria tira sua origem e, daí, tudo da vida verdadeiramente humana. Que eu tenha visto esse Sol e também, nele, o Senhor, vide na obra O Céu e o Inferno (n. 116-140) e no opúsculo Dos Planetas e das Terras no Universo (n. 40-42). [2] [157.] [Seção XII. 2] 2. Que desse Sol venha a origem de tudo. Ninguém pode pensar que o universo exista de eternidade e que venha do nada; e daí não se pode negar que ele foi criado, e por alguém, e que Ele seja o Ser mesmo em si infinito e eterno, o amor mesmo, a Sabedoria mesma e a Vida mesma; e que também seja o centro comum do qual vê, governa e provê todas as coisas como presentes, com o Qual se dá a conjunção e, segundo a conjunção, a vida do amor e da sabedoria, e a bem-aventurança e a felicidade; e que esse centro apareça perante os anjos como um Sol ígneo e flamejante e que essa aparência seja pelo Divino Amor e pela Divina sabedoria que procedem d’Ele, pelos quais todo espiritual existe e, pelo espiritual, por intermédio do sol do mundo, todo natural. A mente humana, que pode ser elevada nas verdades da luz, se quiser, pode ver que o universo foi criado por Deus, que é tal e que é Um só. [158.] Como, pois, há dois sóis, um do mundo espiritual e outro do mundo natural, e o Sol do mundo espiritual considera, pelo primeiro, os últimos, e o sol do mundo natural considera, pelos meios, os últimos, é evidente que é do Sol do mundo espiritual – no qual está Deus e o qual vem de Deus, que é a Vida mesma – que todas as coisas foram feitas e criadas; e que é do sol do mundo – no qual há fogo e o qual vem do fogo, que não é a vida – pelo qual unicamente foram criadas as coisas que estão abaixo do meio e que são mortas em si. Por isso, reconhecer a natureza, que em si é morta, é adorar o fogo que está no sol do mundo. Os que fazem isso são mortos. Mas reconhecer a Vida criadora é adorar a Deus, que está no Sol do céu. Os que fazem isso são vivos. Dos homens mortos se diz que estão no inferno, mas dos homens vivos se diz que estão no céu. [3] [159.] [Seção XII. 3] 3. Que por esse Sol haja a presença do Senhor em toda parte. Pela Palavra se sabe na igreja que o Senhor tem onipresença, a anteriormente foi dito o que é e qual é Sua onipresença. Aqui se dirá de que maneira ela pode ser compreendida. Pode ser compreendia pela correspondência do sol do mundo com o Sol do céu, e, daí, da natureza com a Vida, correspondência essa que também serve de comparação. Qualquer um sabe que o sol do mundo está em toda parte em seu mundo, e que a sua presença existe pela luz e pelo calor. Essa presença é tal que, embora esteja distante, está, por assim dizer, neles. A diferença é que o calor que emite é fogo em sua origem, e a luz que emite é chama em sua origem; e todas as coisas que foram criadas por esse sol são seus recipientes, mais perfeitas ou menos perfeitas segundo as formas e as distâncias. Daí é que todas as coisas do mundo natural crescem segundo a presença de seu sol, e decrescem segundo a sua ausência. Crescem conforme o calor faz um com a sua luz, e decrescem conforme o calor não faz um com sua luz. Todavia, esse sol opera assim nas coisas que estão abaixo dele e são chamadas naturais, mas nada absolutamente opera nas coisas que estão acima dele e são chamadas espirituais. Com efeito, operar nos inferiores é segundo a ordem, mas operar nos superiores é contra a ordem, pois é operar nas coisas das quais vêm, enquanto operar nas coisas inferiores é segundo a ordem, pois é operar nas coisas que daí vêm. O Sol do céu é de onde vem o sol do mundo, e as coisas espirituais são aquelas donde vêm as naturais. Por essa comparação pode-se de algum modo ver a presença do sol. [160.] [Seção XII. 3 (2)] Mas a presença do Sol do céu é universal, não somente no mundo espiritual onde estão os anjos e espíritos, mas também no mundo natural onde estão os homens, porque os homens não recebem de outra parte o amor de sua vontade e a sabedoria de seu entendimento. Sem esse Sol não viveria animal algum, nem existiria vegetal algum. Sobre isso, vide as coisas que anteriormente foram ditas e ilustradas. A presença desse Sol também existe pelo calor e pela luz, mas o seu calor é, em sua essência, o amor, e a sua luz é, em sua essência, a sabedoria. Dessa luz e desse calor o sol do mundo é auxiliar, acrescentando aquilo pelo qual as coisas da natureza existem e aí subsistem. Mas a presença do Sol do céu pelo calor e pela luz espirituais difere da presença do sol do mundo, que é pelo calor e pela luz naturais, pelo fato de que a presença do Sol do céu é universal e dominante tanto no mundo espiritual quando no mundo natural, enquanto a presença do sol do mundo é somente específica, para o mundo natural e aí servindo, e também pelo fato de que a presença do Sol do céu não é na extensão do espaço e do tempo, enquanto a presença do sol do mundo é nestes, pois a extensão do espaço e do tempo foi criado com a natureza. Daí é que a presença do sol do céu e a onipresença. [161.] [Seção XII. 3(3)] Considerada em si mesma, a presença do Sol do céu é constante, pois o Sol do céu está sempre em sua nascente e em seu poder, mas nos recipientes, que são principalmente os anjos, espíritos e homens, ela é inconstante e não está em seu poder, pois varia segundo a recepção. Nisto o sol do mundo corresponde àquele Sol, pois o sol do mundo é também constante em seu lugar e em sua força, mas na terra, que é o recipiente, torna-se inconstante e não está na sua força, pois varia segundo as voltas da terra em torno de seu eixo, as quais fazem os dias e as noites, e segundo as progressões ao redor do sol, as quais fazem a primavera, o verão, o outono e o inverno. Daí surge a correspondência das coisas naturais do mundo com as espirituais do céu. A presença do Sol do céu também no mundo natural pode de algum modo ser ilustrada pela presença do entendimento e da vontade no corpo do homem. Aí, o que o entendimento pensa, a boca, num instante, fala; e o que a vontade intenta, o corpo num instante faz, porque a mente do homem é o seu mundo espiritual, e o seu corpo é o seu mundo natural. Daí é que o homem foi chamado de microcosmo pelos antigos. Ao entender isto, um homem sábio pode ver e perceber a operação Divina e o influxo espiritual nos objetos da natureza, seja numa árvore com o seu fruto, seja numa planta com a sua semente, seja num verme com a lagarta e a borboleta oriunda dela, seja nas abelhas com o seu mel e sua cera, seja em outro animal, e rir-se da insânia dos que nestes veem e percebem somente a natureza. [4] [162.] [Seção XII. 4] 4. Que todas as coisas que foram criadas tenham sido criadas para o serviço da Vida mesma, que é o Senhor. Dir-se-á primeiro alguma coisa a respeito da vida e, depois, a respeito da criação de tudo para o serviço da vida. A vida é o amor e a sabedoria, pois quanto mais o homem ama a Deus e ao próximo, pela sabedoria, mais é vivo. Mas a Vida mesma, que é a vida de tudo, é o Divino Amor e a Divina Sabedoria; o Divino Amor é o ser da vida, e a Divina Sabedoria é o seu existir. Este unido àquele, reciprocamente, é o Senhor; e ambos, tanto o Divino Ser quanto o Divino Existir, é o infinito e eterno, porque o Divino Amor é infinito e eterno, e a Divina Sabedoria é infinita e eterna. Esta e aquele podem, no entanto, ter conjunção com o anjo e com o homem, embora não exista razão [ratio] entre o finito e o infinito. Como, porém, dificilmente entra no entendimento de que maneira pode haver alguma conjunção quando não existe razão, isto será explicado. Não existe razão entre o natural e o espiritual, mas existe conjunção por meio de correspondências. Tampouco existe razão entre o espiritual em que estão os anjos do céu mais externo e o celeste em que estão os anjos do céu supremo, mas existe conjunção por meio de correspondências. Semelhantemente, não existe razão entre o celeste em que estão os anjos do céu supremo com o Divino do Senhor, mas existe, contudo, conjunção por meio de correspondências. Qual é essa conjunção por meio de correspondências foi dito e mostrado em outro lugar. [163.] [Seção XII. 4(2)] Que o Divino seja infinito e eterno é porque é tudo em todas as coisas da vida do amor e da sabedoria nos anjos e nos homens, e estes e aqueles foram criados recipientes da vida do Senhor, assim, finitos, e o Senhor é incriado, a Vida em Si e, daí, a Vida mesma. Por isso, se os homens e, por eles, os anjos e espíritos forem multiplicados na eternidade, ainda assim o Senhor lhes dá a vida, e por Si os conduz nas coisas mais singulares, como se viu confirmado acima, onde se tratou de sua Divina Providência. Nisto está o eterno, e onde estiver o eterno, aí também está o infinito. Visto que não há razão alguma entre o infinito e o finito, que cada um se previna de pensar no infinito como sendo nada. Do nada não se pode dizer infinito e eterno, nem conjunção com algo; tampouco algo pode ser feito do nada, mas o Divino infinito e eterno é o ser mesmo do qual o finito é criado, com o qual existe a conjunção. Mas isto poderia ser ilustrado muito mais amplamente pela comparação das coisas naturais com as espirituais, entre as quais não existe razão, mas conjunção pelas correspondências. Assim é causa de tudo e o efeito entre si, assim é o anterior e o posterior entre si, assim é o grau superior e o inferior entre si, e assim é a o amor e a sabedoria dos homens e dos anjos entre si. No entanto, o amor e a sabedoria dos anjos, embora sejam inefáveis e incompreensíveis aos homens, são, porém, finitos, e não são capazes do infinito senão pelas correspondências. [164.] [Seção XII. 4(3)] 4. Que todas as coisas tenham sido criadas para o serviço da Vida, que é o Senhor, segue-se em sua ordem do fato de os homens e, destes, os anjos, terem sido criados para receberem a vida vinda do Senhor; e, também, eles não são senão receptáculos, ainda que no livre em que são mantidos pelo Senhor lhes pareça como se não fossem receptáculos, mas o são, de fato, tanto do bem quanto do mal, porque até o livre em que são mantidos vem do Senhor. A vida dos homens e dos anjos é entender e, daí, pensar e falar; e é querer e, daí, fazer, pelo que essas coisas são, também, da vida do Senhor, pois são os efeitos da vida. Todas as coisas que foram criadas no mundo foram criadas para uso, proveito e deleite dos homens, algumas mais próxima, outras mais remotamente. Ora, como elas foram criadas por causa do homem, segue-se que foram criadas para o serviço do Senhor, que é a Vida neles. A aparência é que os serviços existem nos bons, porque esses vivem pelo Senhor, mas não nos maus. Todavia, as coisas que foram criadas proporcionam, para uns e outros igualmente, uso, proveito e deleite, porque o Senhor diz que “Faz o Seu sol se levantar sobre maus e bons, e envia a chuva sobre justos e injustos” (Mt. 5:45). Que nem eles tenham a vida por si, e que sejam conduzidos pelo Senhor sem que o saibam e queiram, pode-se ver nas passagens onde se trata da vida dos que estão no inferno. [5] [165.] [Seção XII. 5] 5. Que almas da vida, as almas dos viventes e as almas vegetativas sejam animadas pelo Senhor por meio dos usos e segundo eles. Pelas almas da vida se entendem os homens e os anjos; pelas almas viventes se entendem os animais, que também são chamados de ‘almas viventes’ na Palavra; e pelas almas vegetativas se entendem as árvores e plantas de todo gênero. Que as almas da vida, ou os homens e anjos, sejam animados pela vida que vem do Senhor, tratou-se nos artigos precedentes. Que as almas viventes, ou os animais, sejam animados pela vida que vem do Senhor, também se mostrou nos artigos precedentes. Semelhantemente se dá com as almas vegetativas, pois elas são almas do uso que são os últimos efeitos da vida, e as almas viventes são as afeições de vários gêneros, correspondentes às vidas dos que estão no mundo espiritual, podendo ser chamadas de vida mediata, por causa dessa correspondência. Pela animação se entende que não somente vivem, mas também que são e existem. Que sejam animados continuamente, isto é, vivem, são e existem pelo Senhor, é porque a criação, uma vez concluída, é continuada, contudo, pelo influxo do Sol do céu. Se não houvesse um influxo contínuo dali, todas as coisas pereceriam, pois o influxo do sol do mundo nada é sem aquele influxo, já que o influxo do mundo é somente a causa instrumental, enquanto o outro é o principal. A correspondência do calor e de seu efeito é com a vida do amor ao Senhor, e a correspondência de sua luz e seu efeito é com a vida da sabedoria do Senhor, pois o Divino Amor procedente do Sol do céu é o calor no mundo espiritual, e a Divina Sabedoria procedente daquele Sol é a luz ali. A estes correspondem o calor e a luz do sol do mundo, pois tudo é correspondência. [166.] [Seção XII. 5 (2)] De que maneira, porém, o Senhor, por Seu Divino Amor e Sua Divina Sabedoria, que são a vida mesma, influi e anima o universo criado, dir-se-á em poucas palavras. O Divino procedente é o que ao redor d’Ele aparece aos anjos como o Sol, e deste o Seu Divino procede por atmosferas espirituais que ele criou para a translação da luz e do calor até os anjos, as quais ele acomodou para a vida, tanto da mente quanto do corpo deles, para que da luz recebam a inteligência e também para que vejam e respirem segundo a correspondência, pois os anjos respiram, tal como os homens. E para que do calor recebam o amor e também para que sintam e o coração deles pulse segundo a correspondência, pois os anjos têm batimento cardíaco, tal como os homens. Essas atmosferas espirituais crescem em densidade por graus discretos, dos quais se tratou acima, até os anjos do céu mais baixo, aos quais assim são acomodadas. Daí é que os anjos do céu supremo vivem como em uma aura pura, os anjos do céu médio como que no éter, e os anjos do céu mais baixo como que no ar. Abaixo dessas atmosferas, em cada céu, há terras sobre as quais eles habitam e há palácios e as suas casas, bem como jardins paradisíacos, além de campos cultivados, roseirais e canteiros, que são renovados a cada manhã, cada um segundo a recepção do amor e da sabedoria do Senhor nos anjos. Todas essas coisas são de origem espiritual e nenhuma de origem natural. A origem espiritual é a vida procedente do Senhor. [167.] Todavia, uma ideia completa da criação, ou da existência de tudo em sua ordem a partir da Vida que é o Senhor, não pode ser dada por causa dos arcanos que são conhecidos no céu e, de fato, me foram comunicados, mas, como são cheios de coisas tais que se encerram profundamente nos conhecimentos, não podem ser descritos senão por [muitos] livros e, então, mal chegariam ao entendimento. Desses, todavia, tem-se este resumo: O Sol do céu, no qual está o Senhor, é o centro comum do universo; todas as suas coisas são circunferências e circunferências até à última; estas o Sol governa como um contínuo, mas as intermediárias pelas últimas; e perpetuamente as anima e nelas atua tão facilmente quanto um homem pelo entendimento e pela vontade anima o seu corpo e atua nele; e o influxo se faz nos usos e, por eles, nas suas formas. [Nota do autor:] (Segue-se a Idéia Angélica, que será inserida, ou adjunta como apêndice ou constando nas notas.) [6] [168.] A ideia angélica a respeito da criação do universo pelo Senhor. A ideia angélica a respeito do universo criado pelo Senhor é assim: Deus é o centro e Ele é Homem; se Deus não fosse Homem, não seria possível a criação; o Senhor de eternidade é esse Deus. Da criação: O Senhor de eternidade, ou Deus, por Seu Divino procedente, criou o universo e todas as coisas aí. E como o Divino procedente é também a Vida mesma, todas as coisas foram criadas da Vida e pela Vida. O Divino procedente próximo é o que aparece como Sol perante os anjos. Ele aparece perante os olhos deles como ígneo e flamejante, o que acontece porque o Divino procedente é o Divino Amor e a Divina Sabedoria, dos quais é a aparência de longe (acrescentam que esse Divino procedente é o que os antigos representaram por círculos áureos ou lúcidos, puros, ao redor da cabeça de Deus, os quais os pintores de hoje ainda conservam da antiguidade). Disseram que desse Sol, como um grande centro, procedem círculos, um após o outro e um vindo do outro até o último, onde está o fim deles, subsistindo no repouso. E que esses círculos, dos quais um vem do outro e um após o outro, aparecendo como extensos na largura e no comprimento, são atmosferas espirituais que são cheias da luz e do calor do Sol deles e pelas quais [o Sol] se propaga até o último círculo. E que no último, por meio dessas atmosferas e, depois, por meio das atmosferas naturais que vêm do sol do mundo, se fez a criação da terra e, sobre ela, de todas as coisas que são de uso, criação essa que em seguida é continuada por meio de gerações de sementes, nos úteros ou nos ovos. Esses anjos – que sabiam que o universo assim criado é uma obra contínua do Criador até os últimos, e, como é uma obra contínua, é um encadeamento que depende do Senhor como um centro comum, e é atuado e regido por Ele – disseram que o Primeiro procedente continua até os últimos por graus discretos, absolutamente como os fins pelas causas nos efeitos, ou como que produz e o que é produzido, numa série contínua. E que a continuação não somente está no Primeiro, mas também ao redor, desde o Primeiro e, daí, de todos os anteriores em todos os posteriores até o derradeiro. E que, assim, o Primeiro e, por ele, os posteriores em sua ordem, coexistem no derradeiro ou último. Desse contínuo, como um, eles tiveram a ideia de que Deus é tudo em todos, que Ele é onipotente, onipresente e onisciente; que Ele é infinito e eterno, e também a ideia do que é a ordem segundo a qual o Senhor, por Seu Divino Amor e Sua Divina Sabedoria, dispõe, provê e governa todas as coisas. Foi-lhes perguntado: ‘De onde vem, então, o inferno?” Disseram: “Do livre do homem, sem o qual o homem não seria homem. [Disseram] que o homem, por esse livre, rompeu em si o contínuo, que, sendo rompido, deu-se a separação. E o contínuo, que estava nele pela criação, tornou-se como uma cadeia, ou uma obra concatenada que, tendo um elo rompido ou partido acima, cai e depois pende de filamentos tênues. A separação ou ruptura se fez e se faz pela negação de Deus. [7] [169.] [Fragmentos de notas do autor, da última página.] Que por esse calor e essa luz tenham sido criadas todas as coisas que há no mundo espiritual e que há no mundo natural. Que haja graus de calor e de luz. Que haja três graus de luz e de calor até os últimos do mundo espiritual, e, em seguida, três graus até os últimos do mundo natural. Que Deus seja a fonte de todos os usos celestes, espirituais e naturais. Que todos os usos em Deus estejam em sua vida, assim, no seu Ser. Que seja o Amor mesmo; que os usos sejam de Seu Divino Amor. Que os usos e o bem sejam uma só coisa. Que o Divino Amor seja o Divino Bem. Que o Divino Amor seja o amor dos usos. Que o Divino Amor e a Divina Sabedoria apareçam no mundo espiritual como o Sol. Que do Sol que é o Senhor no mundo espiritual procedam o calor e a luz. Que esse calor seja o amor procedente, e que essa luz seja a sabedoria procedente. 1 O termo, ‘origem’, e os dois seguintes, ‘meio’ e ‘manifestação’ não constam no original, mas auxiliam a compreensão das expressões latinas ‘a quo’, ‘per quo’ e ‘in quo’, respectivamente. --------------- ------------------------------------------------------------ --------------- ------------------------------------------------------------ 110 Emanuel Swedenborg Da Divina Sabedoria 2