. Mas recorro agora à experiência. Que os anjos sejam formas humanas ou de homens, vi isso mil vezes, pois falei com eles como homem com homem, às vezes com um, às vezes com muitos reunidos, e não vi neles coisa alguma que diferenciasse do homem quanto à forma e algumas vezes fiquei admirado de que fossem tais; e para que não se diga que foi falácia ou visão de fantasia, foi-me concedido vê-los em plena vigília ou quando estava em todo o sentido do corpo e num estado de clara percepção. Freqüentemente lhes contei que os homens no mundo cristão estão numa ignorância tão cega sobre os anjos e os espíritos que acreditam serem eles mentes sem forma ou puros pensamentos, a cujo respeito não têm outra idéia a não ser de algo como etéreo em que existe algum sinal de vida; e porque, assim, não lhes atribuem coisa alguma do homem além do cogitativo, crêem que não vêem porque não têm olhos, não ouvem porque não têm ouvidos e não falam porque não têm boca nem língua. A isso os anjos replicaram que sabem que tal fé existe em muitos no mundo, que ela reina nos eruditos e, do que se admiraram, nos sacerdotes. Disseram, também, que a causa disso é que os eruditos, que foram os líderes e os primeiros a gerarem tal idéia sobre os anjos e os espíritos, tinham pensado sobre eles pelos sensuais do homem externo e os que pensam assim e não por uma luz interior e uma idéia geral que se acha inscrita em cada um, não podem senão imaginar as idéias referidas, porquanto os sensuais do homem externo não compreendem outra coisa senão as que se acham na natureza e não as que estão acima, assim, nada que seja do mundo espiritual *70. Desses líderes e guias a falsidade do pensamento sobre os anjos foi passada para os outros, que não pensaram por si mesmos, mas por eles. E os que pensam primeiro pelos outros e fazem sua fé para em seguida examinar por ela o entendimento dificilmente podem se afastar disso. Por isso a maioria das pessoas se contenta em confirmá-las. Disseram, além disso, que os simples de fé e de coração não estão nessa idéia sobre os anjos, mas na idéia deles como de homens do céu, em razão de não terem, pela erudição, extinguido a sua idéia inata que vem do céu, nem compreendem coisa alguma sem forma. Assim é que os anjos nos templos, quer esculpidos, quer em gravuras, não são apresentados senão como homens. Sobre essa idéia inata [insitum] que vem do céu disseram que é o Divino influindo naqueles que estão no bem da fé e da vida.
*70 Que o homem saiba muito pouco, se não for elevado dos sensuais do homem externo (n. 5089). Que o homem sábio pense acima das coisas sensuais (ns. 5089, 5044). Quando elevado acima das coisas sensuais, o homem vem a uma luz mais clara e, finalmente, à luz celeste (ns. 6183, 6313, 6315, 9407, 9730, 9922). Que a elevação e a remoção desses sensuais tenha sido conhecida pelos antigos (n. 6313).