. Agora se dirá a respeito da sabedoria dos anjos do íntimo ou terceiro céu e de quanto excede a sabedoria dos anjos do extremo ou primeiro céu. A sabedoria dos anjos do íntimo ou terceiro céu é incompreensível até para os que são do extremo céu. A razão é que os interiores dos anjos do terceiro céu foram abertos no terceiro grau, mas somente no primeiro grau os interiores dos anjos do primeiro céu e toda sabedoria aumenta para os interiores e, segundo a abertura destes, é aperfeiçoada (ns. 208, 267). Como os interiores dos anjos do terceiro ou íntimo céu foram abertos no terceiro grau, estão na forma do céu e a forma do céu procede do Divino vero, assim, segundo a Divina sabedoria. Assim é que, para aqueles anjos, os Divinos veros aparecem como que inscritos ou como ínsitos e inatos. Por isso, logo que ouvem os veros genuinamente Divinos, imediatamente os reconhecem e percebem e, em seguida, os vêem como em si. Como os anjos desse céu são assim, por isso nunca raciocinam a respeito dos Divinos veros, ainda menos a respeito de algum vero controverso, se é assim ou não, nem sabem o que é crer ou ter fé. Com efeito, dizem: “O que é a fé? pois percebo e vejo que assim é”. Isso pode ser ilustrado por uma comparação, a saber: seria como se alguém, com um amigo, visse uma casa e as várias coisas nela e ao redor dela e dissesse ao amigo que é necessário acreditar que aquelas coisas existem e que são de acordo com o que viu; ou como alguém que vê um jardim e, ali, árvores e frutos e dissesse ao amigo que devia ter fé que havia o jardim e que havia árvores e frutos, quando, porém, ele o veria claramente com seus olhos. Por esse motivo é que esses anjos nunca nomeiam a fé nem dela têm idéia alguma. É por isso que não raciocinam sobre os Divinos veros e ainda menos fazem controvérsia a respeito de algum vero, se é assim ou não *187. Mas os anjos do primeiro ou extremo céu não têm assim os veros Divinos inscritos em seus interiores, porque neles foi aberto somente o primeiro grau da vida. Por isso raciocinam sobre os veros e os que raciocinam mal vêem o que está além do objeto em exame, sobre o qual raciocinam, nem vão além do assunto, a não ser para confirmá-lo de algum modo; e, quando o têm confirmado, dizem que são da fé, em que se deve crer. Falei sobre isso com os anjos, que disseram que a diferença entre a sabedoria dos anjos do terceiro céu e a sabedoria dos anjos do primeiro céu é tal qual a diferença entre o lúcido e o obscuro. Também compararam a sabedoria dos anjos do terceiro céu com um magnífico palácio, cheio de todas as coisas úteis, em cujo redor, no comprimento e na largura, há paraísos e, ao redor destes, coisas magníficas de vários gêneros; e que esses anjos, como estão nos veros da sabedoria, podem entrar no palácio e ver todas as coisas, como também andar a toda parte nos paraísos e se deleitar com todas as coisas. Mas é de outro modo com aqueles que raciocinam sobre os veros e, ainda mais, com os que fazem controvérsia sobre eles; esses, como não vêem os veros pela luz do vero, mas absorvem essa luz ou dos outros ou do sentido da letra da Palavra, a qual não entendem interiormente, dizem que se deve crer, ou que se deve ter fé, sem querer que se entre nela com uma visão interior. Sobre esses os anjos disseram que não podem chegar sequer ao primeiro limiar do palácio da sabedoria, ainda menos entrar nele e andar nos seus paraísos, porque permanecem no primeiro passo. É de outro modo com os que estão nos veros: nada os impede; antes, avançam e progridem sem limite, pois os veros vistos os conduzem a toda parte por aonde vão, mesmo em campos abertos, pois cada um dos veros tem uma extensão infinita e está em conjunção com uma multiplicidade de outros. Disseram, além disso, que a sabedoria dos anjos do céu íntimo consiste principalmente no fato de verem os Divinos e celestes em cada objeto e coisas admiráveis numa série de muitos, pois todas as coisas que aprecem diante dos seus olhos têm correspondência; assim, quando vêem palácios e jardins, a sua intuição não se detém nessas coisas, que estão diante dos olhos, mas vêem coisas interiores por elas, assim, as que elas correspondem e isso com toda variedade, segundo o aspecto dos objetos; portanto, vêem ao mesmo tempo coisas inumeráveis em ordem e conexão, as quais comprazem tanto as suas mentes que se vêm como se abstraídos de si mesmos. Que todas as coisas que aparecem nos céus correspondam coisas Divinas que, pelo Senhor, estão nos anjos, veja-se acima (ns. 170-176). *187 Que os anjos celestes saibam coisas inumeráveis e saibam imensamente mais do que os anjos espirituais (n. 2718). Que os anjos celestes não pensem nem falem sobre a fé, como os anjos espirituais, porque estão pelo Senhor na percepção de todas as cois as da fé (n. 202, 597, 607, 784, 1121, 1387, 1389, 1394, 1442, 1919, 7680, 7877, 8780, 9277, 10336). Que sobre os veros da fé digam somente “sim, sim” ou “não, não”, mas que os anjos espirituais raciocinem se são assim (n. 2715, 3246, 4448, 9166, 10786); são explicadas aí as palavras do Senhor: “A fala será: Sim, sim; não, não” (Mat. 5:37).