. A inocência da infância ou das crianças não é a inocência genuína, pois está somente na forma externa e não interna. Todavia, pode-se por ela aprender qual é á inocência, pois brilha por suas faces, por alguns de seus gestos e por sua primeira linguagem e comove. De fato, as crianças não têm pensamento interno, porque ainda não sabem o que é o bem e o mal nem o vero e o falso de que procede o pensamento. Por conseguinte, não têm a prudência do proprium; não têm propósito nem deliberação, portanto, não têm o mal como fim; não têm um proprium adquirido pelo amor de si e do mundo; não atribuem coisa alguma a si mesmas, mas a seus pais todas as coisas recebidas; contentam-se com poucas e pequenas coisas que lhes são dadas e se alegram com elas; não têm solicitude quanto ao alimento e ao vestuário nem, absolutamente, quanto ao futuro; não têm em vista o mundo e, assim, não cobiçam muitas coisas; amam seus pais, suas nutrizes e as crianças amigas com as quais brincam em inocência; deixam-se conduzir, ouvem e obedecem. E como se acham nesse estado, recebem todas as coisas da vida. Assim, sem que saibam de onde, têm sua conduta decente, a linguagem e uma iniciação de memória e de pensamento, que servem como meios de receberem o estado de sua inocência e de serem imbuídas deles. Mas essa inocência, como foi dito acima, é externa, porque é só do corpo e não da mente *190, porquanto a mente delas ainda não está formada, visto que a mente é o entendimento e a vontade, assim, o pensamento e a afeição. Foi-me dito do céu que as crianças, principalmente, estão sob o auspício do Senhor e há um influxo do céu íntimo, em que há o estado de inocência e esse influxo passa e vai até os interiores delas e, na passagem, não toca os interiores senão pela inocência; assim é que a inocência é apresentada na face e em alguns gestos e aparece; é ela que afeta intimamente os pais e constitui o amor que se chama storge. *190 Que a inocência das crianças não seja a verdadeira inocência, mas que a verdadeira inocência habite na sabedoria (n. 1616, 2305, 2306, 3494, 4563, 4797, 5608, 9301, 10021). Que o bem da infância não seja o bem espiritual, mas que se torne espiritual pela implantação do vero (n. 3504). Que, todavia, o bem da infância seja o meio pelo qual é implantada a inteligência (n. 1616, 3183, 9331, 10110). Que o homem seria feroz sem o bem da inocência na infância (n. 3494). Que tudo o que é imbuído na infânci a pareça natural (n. 3494)