. A inocência da sabedoria é a inocência genuína, porque é interna e da mente mesma, assim, de sua vontade e, por conseguinte, de seu entendimento. E quando neles há a inocência, também há a sabedoria, pois a sabedoria é da vontade e do entendimento. Daí se dizer no céu que a inocência habita na sabedoria e que, quanto mais sábio é o anjo, mais tem inocência. Que isso seja assim, eles o confirmam pelo fato de que aqueles que estão na inocência não atribuem coisa alguma do bem a si mesmos, mas consideram as coisas como recebidas e as atribuem todas ao Senhor; querem ser conduzidos por Ele e não por si mesmos, amam tudo o que é bom e se deleitam em tudo o que é verdadeiro, porque sabem e percebem que amar o bem, assim, querê-lo e fazê-lo, é amar ao Senhor e amar o vero é amar o próximo; vivem contentes com o que possuem, quer seja pouco, quer muito, porque sabem que recebem tanto quanto é adequado: pouco para quem o pouco é adequado e muito para quem o muito é adequado; e não sabem o que lhes é adequado, mas somente o Senhor, para Quem são eternas todas as coisas que provê. Por isso, não são solícitos quanto ao futuro; à solicitude quanto ao futuro chamam cuidado pelo dia de amanhã, o qual dizem ser a dor pela perda ou pela não recepção das coisas tais que são necessárias para os usos da vida. Nunca agem com os amigos por um mau propósito, mas pelo bem, o justo e o sincero. Agir por mau propósito chamam de astúcia, da qual fogem como de uma serpente venenosa, visto que é inteiramente contra a inocência. Que nada amam mais do que serem conduzidos pelo Senhor; e, como consideram todas as coisas como recebidas do Senhor, por isso estão afastados do seu proprium; e quanto mais afastados do proprium estão, mais o Senhor influi. Assim é que as coisas que ouvem d’Ele, seja por meio da Palavra, seja por meio das prédicas, não a retêm na memória, mas logo obedecem, isto é, querem e praticam. A vontade é a sua memória mesma. Na maioria das vezes, parecem simples na forma externa, mas são sábios e prudentes na interna. São esses os que foram referidos pelo Senhor: “Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mat. 10:16). Tal é a inocência que se chama inocência da sabedoria. Como a inocência não arroga para si coisa alguma do bem, mas atribui todo bem ao Senhor e como, assim, ama ser conduzida pelo Senhor e, assim, é a recepção de todo bem e vero de que vem a sabedoria, por isso o homem foi criado de tal modo que, quando na infância, esteja na inocência mas externa e, quando se torna velho, esteja na inocência interna, de modo que por aquela nesta e esta naquela venha à inocência. Por isso, também, o homem, quando se torna velho, também diminui quanto ao corpo e se torna de novo como uma criança, mas uma criança sábia, assim, um anjo. Pois uma criança sábia, no sentido eminente, é um anjo. Por isso é que, na Palavra, a “criança” significa o inocente, e o “velho”, o sábio no qual há a inocência *191. *191 Que pelas “crianças”, na Palavra, seja significada a inocência (n. 5608) e também por “crianças de peito” (n. 3183). Que pelo “velho” seja significado o sábio e, num sentido abstrato, a sabedoria (n. 3183, 6524). Que o homem tenha sido criado de tal modo que, quando tende para a velhice, torna-se como criança e, então, a inocência esteja na sabedoria para que o homem nesse estado passe para o céu e se torne anjo (n. 3183, 5608).