. Preliminarmente, é lícito lembrar que o homem pode adquirir riquezas e acumular a opulência tanto quanto possível, contanto que não o faça por astúcia e por artes maléficas; pode comer e beber refinadamente, contanto que não ponha nisso a vida; pode habitar magnificamente segundo a sua condição; pode conversar com os outros da maneira como os outros fazem; pode freqüentar lugares de diversão e confabular sobre as coisas do mundo. Não é preciso que ande devotamente, triste, com a face chorosa e cabisbaixo, mas alegre e contente. Nem precisa dar o que é seu aos pobres, a não ser na medida em que sua afeição o conduz. Numa palavra, pode viver na forma interna inteiramente como um homem do mundo e nada disso o impede que venha ao céu, contanto que interiormente em si pense em Deus como convém e aja sincera e justamente com o próximo. Porque o homem é tal e qual sua afeição e pensamento ou tal e qual seu amor e fé. Daí tiram sua vida todas as coisas que ele faz nos externos, pois agir é querer e falar é pensar, porquanto age pela vontade e fala pelo pensamento. Por esse motivo, o que se diz na Palavra que o homem será julgado segundo seus feitos e retribuído segundo suas obras, entende-se que o será segundo seu pensamento e afeição, pelos quais agiu ou os quais fez, pois sem isso estes ele não faz coisa alguma e as ações e feitos são tais quais o pensamento e a afeição *235. Assim é evidente que o externo do homem nada faz, mas seu interno pelo qual o externo age. Seja este exemplo: quem age sinceramente e não defrauda o outro pela única razão que teme as leis, a perda da reputação, da honra ou do ganho e, se esse temor não o refreasse, defraudaria o outro tanto quanto pudesse, seu pensamento e sua vontade são uma fraude, ainda que na forma externa seus feitos pareçam sinceros. Esse, porque é insincero e fraudulento interiormente, tem o inferno em si. Quem, porém, age sinceramente e não defrauda o outro pelo fato de isto ser contra Deus e contra o próximo, esse, se pode defraudar o outro, ainda assim não o quer; seu pensamento e sua vontade é a consciência e tem em si o céu. Os feitos de um e outro parecem semelhantes na forma externa, mas na interna são inteiramente dessemelhantes.
*235 Que muitas vezes, na Palavra, se diga que o homem será julgado e que será retribuído segundo os feitos e obras (n. 3934). Que pelos “feitos” e “obras” aí não sejam entendidos feitos e obras na forma externa, mas na interna, porquanto os maus também fazem boas obras na forma externa, mas somente os bons fazem na forma externa e, ao mesmo tempo, interna (n. 3934, 6073). Que as obras, assim como todos os atos, procedam dos interiores do homem, que são do pensamento e da vontade, seu ser e existir, dos quais têm sua qualidade; por isso, quais são os interiores, tais são as obras (n. 3934, 8911, 10331), assim, tais são os interiores quanto ao amor e à fé (n. 3934, 6073, 10337, 10332). Que, assim, as obras os contenham e sejam eles no efeito (n. 10331). Por isso, julgar e retribuir segundo os feitos e obras, é segundo estes [o amor e a fé] (n. 3147, 3934, 6073, 8911, 10331, 10332). Que as obras sejam boas não tanto quanto considerem a si e ao mundo, mas quanto considerem o Senhor e o próximo (n. 3147).