. Falei, após sua morte, com alguns que, enquanto viveram no mundo, se abstiveram do mundo e se entregaram a uma vida quase solitária pela abstração dos pensamentos das coisas mundanas e andaram em pias meditações, crendo que, assim, seguiam o caminho do céu. Mas esses, na outra vida, são de um gênio tristonho, menosprezam os outros que não lhes são semelhantes e ficam indignados por não terem sido agraciados com felicidade mais do que os outros, acreditando serem merecedores. Não se importam com os outros e têm aversão aos ofícios de caridade pelo que há a conjunção com o céu. Desejam o céu mais do que os outros, mas, quando são elevados onde estão os anjos, induzem ansiedades, o que perturba a felicidade dos anjos. Por causa disso, são dissociados e os dissociados se congregam num lugar deserto, onde levam uma vida semelhante à do mundo. O homem não pode ser formado para o céu a não ser pelo mundo; aí estão os últimos efeitos em que deve assentar a afeição de cada um. Se a afeição não se exercer ou não se extravasar nos atos, o que se dá na sociedade de muitos, é sufocada ao ponto de, finalmente, o homem não ter mais em vista o próximo, mas somente a si mesmo. Assim é evidente que a vida de caridade para com o próximo – que é fazer o justo e o direito em toda obra e em toda função – conduz ao céu, mas não a vida de piedade sem aquela *237. Conseqüentemente, os exercícios de caridade e, assim, seus incrementos na vida, só podem existir na medida em que o homem estiver nos negócios e não podem existir na medida em que deles se remove. Sobre isso digo, agora, pela experiência. Muitos dos que se dedicaram à obra das negociações e dos comércios no mundo e, também, por aí se tornaram ricos, estão no céu, mas poucos dos que se tornaram honrados e ricos pelas funções, em razão de que esses último, pelos lucros e pelas honras decorrentes das dispensações do justo e do direito, como também pelos lucros e pelas honras que lhes foram atribuídos, foram levados a amar a si próprios e ao mundo e, por isso, a remover do céu os pensamentos e afeições e voltá-los para si. Pois quanto mais o homem ama a si mesmo e ao mundo e em tudo tem vista a si e ao mundo, mais se afasta do Divino e se remove do céu.
*237 Que a caridade para com o próximo seja fazer o que é bom, justo e reto em toda obra e em toda função (n. 8120-8122). Daí, que a caridade para com o próximo se estenda a todas e cada uma das coisas que o homem pensa, quer e faz (n. 8124). Que a vida de piedade sem a vida de caridade para nada sirva, mas, com ela, conduza a todas as coisas (n. 8252, 8253).