. O amor de dominar de um cônjuge sobre o outro arrebata completamente o amor conjugal e seu prazer celeste, pois, como foi dito acima, o amor conjugal e seu prazer consiste em que a vontade de um seja a do outro e isso mútua e reciprocamente. Isso o amor de dominar no casamento aniqüila, pois quer dominar para que somente sua vontade esteja no outro e, reciprocamente, que a do outro nele seja nula, assim, não mutuamente. Por conseguinte, não há comunicação alguma do amor e de seu prazer ao outro e vice-versa, quando, todavia, a comunicação e, assim, a conjunção, é o prazer interior mesmo que se chama beatitude no casamento. O amor de dominar extingue completamente essa beatitude e, com ela, todo celeste e espiritual desse amor, ao ponto de não se saber que ela exista; e, se dela se falasse a respeito, seria considerada de modo tão vil que sua simples menção seria motivo de riso ou enfurecimento. Quando um quer ou ama como o outro, então há liberdade para ambos, pois toda liberdade é do amor; mas a liberdade não existe onde há o domínio: um é servo e o que domina também é, porque é conduzido, como um servo, pela cupidez de dominar. Mas isso não é absolutamente compreendido por aquele que não sabe o que é a liberdade do amor celeste. Entretanto, pelas coisas que foram ditas acima a respeito da origem e essência do amor conjugal, pode-se saber que, quanto mais a dominação entra, mais as mentes não são conjuntas, mas divididas. A dominação subjuga e uma mente subjugada ou não tem vontade alguma, ou tem uma vontade oposta. Se não tem vontade, também não tem amor algum; se tem vontade oposta, tem ódio em lugar de amor. Os interiores daqueles que vivem em tal casamento colidem e lutam entre si mutuamente, como são comumente dois opostos, ainda que os exteriores sejam contidos e refreados por causa da tranqüilidade. A colisão e a luta de seus interiores se revelam após a sua morte: geralmente eles se encontram e, então, combatem entre si como inimigos e se dilaceram mutuamente, porque então agem segundo o estado dos seus interiores. Foi-me dado ver, algumas vezes, suas lutas e dilacerações, e algumas delas eram cheias de vingança e selvageria. Com efeito, na outra vida, os interiores de cada um são postos em liberdade e não são mais coagidos pelos externos por diversas causas no mundo, pois cada um é, então, tal qual é interiormente.