. Falei, algumas vezes, com espíritos que vieram recentemente do mundo a respeito do estado da vida eterna, a saber, que é importante conhecer o que é o reino do Senhor, qual é o seu governo e qual é a forma desse governo, assim como no mundo aqueles que vão a outro reino: nada lhes importa saber mais do que quem é e como é o rei, qual é o governo e muitas coisas que são desse reino. Ainda mais nesse reino em que irão viver eternamente. Deviam, pois, saber que o Senhor é Quem governa o céu e também o universo, pois quem governa um governa o outro. Assim, que, o reino em que agora estavam pertence ao Senhor e as leis desse reino são leis de verdades eternas, as quais, todas, são fundamentas nessa lei: que se ame ao Senhor acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmos. E ainda mais agora, se quisessem ser como os anjos, deviam amar ao próximo mais do que a si mesmos. Quando ouviram essas coisas, nada puderam responder, porque na vida do corpo ouviram isso mas não acreditaram, admirados de que tal amor exista no céu e de que seja possível que alguém ame ao próximo mais do que a si mesmo. Mas, foram informados que todos os bens crescem imensamente na outra vida e que a vida no corpo é tal que não se pode progredir além de amar ao próximo como a si mesmo, porque se está nos corpóreos. Contudo, sendo esses removidos, então o amor se torna mais puro e, finalmente, angélico, que é amar o próximo mais do que a si mesmo. Por isso, nos céus, o prazer é fazer bem ao outro e não o prazer de fazer bem a si, a não ser que se faça a outro, assim, por causa do outro, o que é amar o próximo mais do que a si mesmo. Foi dito que esse amor é possível, como se pode ver no mundo pelo amor conjugal de alguns, que preferiram antes a morte a ultrajar o cônjuge; pelo amor dos pais para com os filhos, em que a mãe prefere sofrer fome a ver o filho faminto; como também pela amizade sincera, quando se corre perigo por causa do amigo, e pela amizade civil e simulada, que imita a amizade sincera, em que se oferece o melhor àqueles que se diz querer bem, o que fazem de boca, ainda que não de coração. Enfim, pela natureza do amor, que é tal que sua alegria é servir aos outros por causa dos outros e não por causa de si. Mas não puderam entender essas coisas aqueles que se amavam mais do que aos outros e aqueles que foram ávidos pelo ganho na vida do corpo e, menos do que todos, os avarentos.