. Quando são desvendados os atos do homem após a sua morte, então os anjos a quem cabe o dever de inquirir inspecionam sua face; a inspeção prossegue por todo o corpo, começando pelos dedos de uma e outra mão e continuando, dali, por todo o corpo. Como me admirasse disso, foi-me revelado o motivo. É que, assim como todas as coisas do pensamento e da vontade foram inscritas no cérebro, pois estão em seus princípios, assim também foram inscritas em todo o corpo, visto que aí são continuadas todas as coisas do pensamento e da vontade desde os seus princípios e são ali terminadas como em seus últimos, donde acontece que as coisas que foram inscritas na memória pela vontade e, assim, pelo seu pensamento, não foram inscritas somente no cérebro, mas também no homem todo, tal como ele é em sua vontade e, assim, no seu pensamento, ao ponto de o homem mau ser o seu mal e o bom ser o seu bem *269. Por aí se pode ver, também, o que se entende pelo livro da vida do homem de que se trata na Palavra, a saber, que todas as coisas, tanto as que fez quanto as que pensou, foram inscritas no homem todo e aparecem como se lidas num livro quando são evocadas da memória e como que vistas em efígie, quando o espírito é visto na luz do céu. A isso quero acrescentar um dado notável sobre a memória que permanece no homem após a morte, pelo que fui confirmado que permanecem não somente as coisas gerais, mas também as mais singulares que entraram na memória e não são jamais removidas. Vi livros contendo escritos feitos como no mundo e fui instruído que eram provenientes da memória dos que os escreveram e que nenhum vocábulo faltava ali, tal como fora no livro escrito pelo mesmo escritor no mundo; e que, assim, da memória de outro podem ser tiradas todas as coisas mais singulares, até as que ele mesmo tinha removido no mundo. Foi também revelada a razão disso, ou seja, que no homem há uma memória externa e uma interna; a externa é a de seu homem natural e a interna a de seu homem espiritual. Todas as coisas que o homem pensou, quis, falou e fez, como também, as que ouviu e viu, foram inscritas em sua memória interna ou espiritual *270. E as coisas que foram aí inscritas não podem jamais ser apagadas, uma vez que foram inscritas ao mesmo tempo em seu espírito e nos membros de seu corpo, como foi dito acima. Assim, o espírito é formado segundo o que pensou e fez por sua vontade. Sei que essas coisas parecem paradoxais e, por isso, dificilmente serão cridas, todavia, são verdadeiras. Portanto, ainda que o homem não creia que algo que em si mesmo pensou e fez no oculto, permaneça após a morte, que creia, no entanto, que todas e cada uma das coisas se tornarão evidentes como na claridade do dia. *269 Que o bom homem, o espírito e o anjo sejam o seu bem e o seu vero, isto é, que sejam todos quais são seu bem e vero (n. 10298, 10367). A razão é que o bem faz a vontade e o vero o entendimento e a vontade e o entendimento fazem toda a vida no homem, espírito e anjo (n. 3332, 3623,6065). É o mesmo que dizer que o homem, o espírito e o anjo são o seu amor (n. 6872, 10177, 10284). *270 Que haja duas memórias no homem, exterior e interior, ou natural e espiritual (n. 2469-2494). Que o homem não saiba que tem uma memória interior (n. 2470, 2471). Quanto a memória interior excede a exterior (n. 2473). Que as coisas que estão na memór ia exterior estejam na luz do mundo; as que, porém, estão na interior, na luz do céu (n. 5212). Que seja pela memória interior, que o homem possa pensar e falar pelo entendimento e racionalmente (n. 9394). Que todas e cada uma das coisas que o homem pens ou, falou, agiu e as que viu e ouviu, tenham sido inscritas na memória interior (n. 2474, 7398). Que essa memória seja seu livro da vida (n. 2474, 9386, 9841, 10505). Que na memória interior estejam os veros que se tornaram da fé e os bens que se tornara m do amor (n. 5212, 8067). Que as coisas que passaram para o hábito e se tornaram da vida e por isso obliteradas na memória exterior, estejam na memória interior (n. 9394, 9723, 9841). Que os espíritos e anjos falem pela memória interior e que daí tenham uma língua universal (n. 2472, 2476, 2490, 2493). Que as línguas no mundo sejam da memória exterior (n. 2472, 2476).