. Ainda que a memória externa ou natural fique no homem após a morte, todavia, as coisas meramente naturais, que se acham ali, não são reproduzidas na outra vida, mas as espirituais, que foram adjuntas às naturais pelas correspondências. Essas, contudo, quando se apresentam à vista, aparecem numa forma inteiramente semelhante, como no mundo natural, pois todas as coisas que aparecem nos céus, aparecem do mesmo modo que no mundo, ainda que não sejam naturais em sua essência, mas espirituais, de acordo com o que se viu mostrado no capítulo sobre os representativos e as aparências no céu (n. 170-176). Mas a memória externa ou natural, quanto às coisas ali que derivam do material, como o tempo e o espaço, e as demais que são próprias da natureza, ela não serve ao espírito para o uso que lhe tinha servido no mundo, visto que o homem no mundo, quando pensava pelo sensual externo e não, ao mesmo tempo, pelo sensual interno ou intelectual, pensava naturalmente e não espiritualmente, enquanto na outra vida, quando o espírito está no mundo espiritual, não pensa naturalmente, mas espiritualmente. Pensar espiritualmente é pensar com o entendimento ou racionalmente. Assim é que a memória externa ou natural então repousa quanto às coisas que são materiais e somente vêm ao uso as coisas que o homem delas hauriu e fez racionais. Que a memória externa, quanto às coisas que são materiais, repouse, é porque não pode ser reproduzida. Com efeito, os espíritos e anjos falam pelas afeições e, assim, pelos pensamentos que são de suas mentes; por isso, as coisas que não se enquadram com estes não podem ser pronunciadas, como se pode ver pelo que foi dito sobre a linguagem dos anjos no céu e sobre a sua linguagem com o homem (n. 234-257). Disso resulta que, quanto mais o homem se fez racional no mundo pelas línguas e pelas ciências, mais racional é após a morte e não, absolutamente, pela quantidade de línguas e ciências que conhecia. Falei com muitos que no mundo se acharam eruditos pelo fato de terem conhecido línguas antigas, como a hebraica, a grega e a latina e que não cultivaram o seu racional pelas coisas que foram escritas nessas línguas, e vi alguns tão símplices quanto os que dessas línguas não tiveram conhecimento algum; uns eram estúpidos, mas, não obstante, permanecia neles o orgulho como se fossem mais sábios que os outros. Falei com alguns que tinham acreditado no mundo que o homem tanto mais sabe quando mais memória tem, que tinham também enriquecido a memória com muitas coisas e falavam quase que somente por ela, assim, não por si mesmo, mas pelos outros e não aperfeiçoaram racional algum pelas coisas da memória. Alguns deles eram estúpidos, outros tolos, não compreendendo coisa alguma do vero, sem saberem se algo era verdadeiro ou não e apoderando-se de todos os falsos que são vendidos como veros pelos que se chamam eruditos. Com efeito, eles nada podem ver por si mesmos, se algo é assim ou não; por conseguinte, nada podem ver racionalmente quando ouvem dos outros. Falei, também, com outros que no mundo tinham escrito muitas coisas e até sobre conhecimentos de todo gênero e, assim, tinham adquirido fama de erudição em muitas regiões do mundo. Alguns deles puderam até raciocinar sobre os veros, todavia não quiseram compreendê-los, pelo que os negavam quando estavam em seus falsos e quando estavam em si mesmos. Outros não sabiam mais que o vulgo sem erudição. Assim, uns e outros, de diversos modos, tinham cultivado seu racional pelos conhecimentos que tinham escrito e copiado. Mas aqueles que foram contrários aos veros da igreja, pensaram pelos conhecimentos e por eles se confirmaram nos falsos, esses não cultivaram seu racional, mas somente a faculdade de raciocinar, faculdade essa que no mundo se crê ser a racionalidade. Mas essa faculdade é separada da racionalidade; é a faculdade de confirmar tudo que lhe apraz e, pelos princípios formados e falácias, ver os falsos e não os veros. Esses não podem jamais ser levados a reconhecer os veros, porquanto não se pode ver os veros pelos falso, mas pelos veros se pode ver os falsos. O racional do homem é semelhante a um jardim e a um canteiro, como também a uma terra recentemente lavrada; a memória é o humos e os conhecimentos verdadeiros e as cognições são as sementes; a luz e o calor do céu é que produzem, sem o que não há germinação. Acontece também o mesmo se a luz do céu, que é o Divino vero, e o calor do céu, que é o Divino amor, não forem admitidos. Por estes, somente, existe o racional. Os anjos deploram imensamente que os eruditos, em sua maioria, atribuam todas as coisas à natureza e, assim, tenham fechado para si os interiores que são de sua mente, de modo que nada possam ver do vero pela luz do vero, que é a luz do céu. Por isso, na outra vida, são privados da faculdade de raciocinar, para que não disseminem, pelos raciocínios, falsos entre os bons simples e os seduzam; são, assim, enviados a um lugar deserto.