. (i) Que o homem, após a morte, seja seu amor ou sua vontade, foi-me provado por múltiplas experiências. Todo o céu é distinto em sociedades segundo as diferenças do bem do amor. E cada espírito que é transportado ao céu e se torna anjo é levado à sociedade onde seu amor está e, quando ali chega, está em si mesmo e como se na casa em que nasceu. O anjo percebe isso e é consociado aos seus semelhantes. Quando sai dali e vai a outro lugar, há nele uma constante resistência e está na afeição do desejo *274 de retornar aos seus semelhantes, assim, ao seu amor reinante. Assim se fazem as consociações no céu. É semelhante no inferno, onde também se consociam segundo os amores contrários aos celestes. (Que haja sociedades que constituem o céu e, também, sociedades que constituem o inferno e que todos elas sejam segundo as diferenças de amor, veja-se acima, n. 41-50 e n. 200-212). Que o homem, após a morte, seja o seu amor, pude ver também pelo fato de que são removidas e como que retiradas dele as coisas que não fazem um com seu amor reinante. Daquele que é bom são removidas e como que retiradas todas as coisas discordantes ou dissidentes e é, assim, introduzido no seu amor. Dá-se de modo semelhante com o mau, mas com a diferença de que dele são retirados os veros e do bom são retirados os falsos, até que finalmente cada um se torne seu amor. Isso acontece quando o homem-espírito é conduzido ao terceiro estado, de que se tratará na seqüência. Quando se faz isso, então a sua face se volta constantemente para seu amor, que tem continuamente diante dos olhos, qualquer que seja a direção para a qual se volta (veja-se acima, n. 123, 124). Todos os espíritos podem ser conduzidos para qualquer lugar que se queira, contanto que sejam mantidos em seu amor reinante; não podem resistir, ainda que saibam que assim é e pensem que resistam. Foi tentado muitas vezes, se alguém podia agir contra isso, mas em vão. O seu amor é como um vínculo ou como uma corda com que estão atados, por assim dizer, e da qual não podem se soltar. Sucede de modo semelhante com os homens no mundo: seu amor os conduz e, pelo amor, são conduzidos pelos outros, porém ainda mais quando se tornam espíritos, porque então não lhes é permitido demonstrar aparência de um outro amor e simular o que não é seu. Que o espírito do homem seja o seu amor reinante, isto foi manifestado em toda consociação na outra vida, porque, quanto mais alguém age e fala com outrem segundo o amor de um outro, mais esse aparece inteiramente com uma face plena, alegre e viva. Porém, quanto mais alguém age e fala contra o amor daquele, mais a face daquele outro começa a mudar, escurecer e não se mostrar; finalmente, ele todo desaparece, como se não estivesse ali. Fiquei admirado muitas vezes de que isto sucedesse assim, porque é coisa que não pode acontecer no mundo. Mas foi dito que acontece semelhantemente com o espírito no homem, que, quando tem aversão a outrem, não mais está em sua presença. Que o espírito seja o seu amor reinante, também se me tornou evidente pelo fato de que todo espírito se apodera e se apropria de todas as coisas que convêm ao seu amor, e rejeita e afasta de si todas as que não convêm. O amor de cada um é como uma madeira esponjosa e porosa que absorve os líquidos que convêm à sua vegetação e repele os outros. É como os animais de todo gênero, que conhecem seus alimentos, têm apetite pelos que concordam com sua natureza e têm aversão aos que discordam. Com efeito, o amor de cada um quer se nutrir do que é seu: o amor mau de falsos e o amor bom de veros. Algumas vezes, foi concedido ver que alguns bons simples queriam instruir os maus nos veros e nos bens, mas esses, por causa da instrução, fugiam para longe e, quando vinham entre os seus, se apoderavam com muita volúpia dos falsos convenientes ao seu amor. Também, quando os espíritos bons falavam entre si sobre os veros, os bons que se achavam presentes ouviam com gosto, porém os maus, que também estavam presentes, em nada prestavam atenção e eram como se não ouvissem. No mundo dos espíritos aparecem alguns caminhos que levam ao céu e alguns que levam ao inferno, cada um a alguma sociedade. Os bons não andam por outros caminhos a não ser aqueles que levam ao céu e à sociedade que está no bem do seu amor; não vêem os caminhos que vão dar a outros lugares. Mas os maus espíritos não andam por outros caminhos a não ser aqueles que levam ao inferno e à sociedade ali que está no mal de seu amor; não vêem os caminhos que vão dar a outros lugares e, se os vêem, não querem ir por ali. Esses caminhos no mundo espiritual são aparências reais que correspondem aos veros ou aos falsos. Por esse motivo, os “caminhos”, na Palavra, significam isso, ou veros ou falsos *275. Por esses registros da experiência foram confirmadas as coisas que foram anteriormente ditas pela razão, a saber, que cada homem depois da morte é o seu amor e a sua vontade. Diz-se vontade, porque a vontade mesma de cada um é o seu amor. *274 N. do T.: Assim no latim, affectio desiderii. *275 Que os “caminhos”, os “cursos”, as “ruas” e a “praças” signifiquem os veros que conduzem ao bem, como também os falsos que conduzem ao mal (n. 627, 2331, 10422). Que “limpar o caminho” seja preparar para que os veros sejam recebidos (n. 3142). Que “ fazer conhecido o caminho”, quando se trata do Senhor, seja instruir nos veros que conduzem ao bem (n. 10565).