. (iii) Que venha ao céu o homem cujo amor é celeste e espiritual e ao inferno aquele cujo amor é corpóreo e mundano sem o celeste e o espiritual, é o que pude ver por todos aqueles que vi serem elevados ao céu ou lançados ao inferno. A vida dos que foram elevados ao céu tinha sido do amor celeste e espiritual, mas a vida dos que foram lançados ao inferno tinha sido do amor corpóreo e mundano. O amor celeste é amar o que é bom, sincero e justo porque é bom, sincero e justo e, pelo amor, fazer isso. Assim há para eles a vida do bem, do sincero e do justo, que é a vida celeste. Aqueles que amam essas coisas por causa delas mesmas e as praticam ou vivem de acordo com elas também amam ao Senhor acima de todas as coisas, pois elas provêm d’Ele; amam, também, o próximo, porque elas são o próximo que deve ser amado *276. Mas o amor corpóreo é amar o que é bom, sincero e justo não por essas causas mesmas, mas por causa de si, porque por meio delas adquirem reputação, honra e ganho. Esses, naquilo que é bom, sincero e justo não visam ao Senhor e ao próximo, mas a si e ao mundo e sentem prazer na fraude. E o bem, o sincero e o justo pela fraude é o mal, o insincero e o injusto que eles aí amam. Visto que os amores determinam dessa maneira a vida de cada um, por isso, todos, logo que vêm ao mundo dos espíritos, após a morte, são examinados quais são e ligados aos que estão num semelhante amor: os que estão no amor celeste, aos que estão no céu e os que estão no amor corpóreo, aos que estão no inferno. E, também, depois de decorridos o primeiro e o segundo estado, são separados, de sorte que não se vêem mais nem se conhecem, porque cada um se torna seu amor, não somente quanto aos interiores que são da mente, mas também quanto aos exteriores que são da face, do corpo e da linguagem, pois cada um se torna a efígie do seu amor também nos externos. Aqueles que estão nos amores corpóreos aparecem grosseiros, obscuros, negros e disformes, mas os que estão nos amores celestes aparecem vivos, lúcidos, brancos e formosos. São, ainda, inteiramente dessemelhantes de disposição e de pensamentos; os que estão nos amores celestes são, também, inteligentes e sábios, mas os que estão nos amores corpóreos são estúpidos e, por assim dizer, vazios. Quando é permitido inspecionar os interiores e exteriores do pensamento e da afeição dos que estão no amor celeste, seus interiores aparecem como uma semelhança da luz; em alguns, como uma semelhança de luz inflamada e os exteriores em várias e belas cores, como o arco-íris. Mas os interiores daqueles que estão no amor corpóreo aparecem como negros, porque estão fechados e, em alguns, como um escuro ígneo que estão nos que estiveram interiormente no dolo maligno; os exteriores, porém, aparecem de uma cor hedionda e com um aspecto triste. (Os interiores e exteriores que são da mente e do espírito se apresentam à vista no mundo espiritual todas as vezes que apraz ao Senhor). Os que estão no amor corpóreo nada vêem na luz do céu. A luz do céu é uma escuridão para eles, mas a luz do inferno, que é como a luz de brasa, lhes é como uma luz clara. Também, a sua visão é entenebrecida na luz do céu, de modo que se tornam insanos, fogem dessa luz e se escondem profundamente em antros e cavernas, segundo os falsos do mal neles. Aqueles que estão no amor celeste, porém, quanto mais vêm a uma luz do céu mais interior ou mais superior, mais claramente enxergam todas as coisas, até as mais belas de todas e percebem os veros mais sábia e inteligentemente. Os que estão no amor corpóreo não podem de modo algum viver no calor do céu, pois o calor do céu é o amor celeste, mas vivem no calor do inferno, que é o amor de fazer crueldade aos que não lhes favorecem. O desprezo pelos outros, as inimizades, os ódios e as vinganças são o prazer de seu amor; quando estão nisso, estão em sua vida. Não sabem, absolutamente, o que é fazer o bem aos outros pelo bem e por causa do bem mesmo, mas somente o bem pelo mal e por causa do mal. Os que estão no amor corpóreo não podem sequer respirar no céu. Quando algum mau espírito é levado até ali, fica com a respiração como a de alguém que está em luta. Mas os que estão no amor celeste respiram livremente e, quanto mais interiormente estão no céu, mais plenamente vivem. Por aí se pode ver que o amor celeste e espiritual é o céu no homem, porque nesse amor foram inscritas todas as coisas do céu, enquanto o amor corpóreo e o amor mundano sem o celeste e espiritual são o inferno no homem, porque nesses amores foram inscritas todas as coisas do inferno. Assim, é evidente que vem ao céu aquele cujo amor é celeste e espiritual e ao inferno aquele cujo amor é corpóreo e mundano sem o celeste e espiritual. *276 Que o Senhor seja o Próximo no sentido supremo, porque Ele deve ser amado acima de todas as coisas; mas que amar ao Senhor seja amar o que provém d’Ele, porque Ele está em tudo o que provém d’Ele, assim, o bem e o vero (n. 2425, 3419, 6706, 6711, 68 19, 6823, 8123). Que amar o bem e o vero, que vêm d’Ele, seja viver segundo estes e que seja isto amar o Senhor (n. 10143, 10153, 10310, 10336, 10578, 10645). Que todo homem, toda sociedade e também a pátria e a igreja e no sentido universal, o reino do Senhor, sejam o próximo; e que fazer-lhes bem pelo amor do bem segundo a qualidade do estado deles seja amar o próximo; assim, o bem deles, que deve ser considerado, é o próximo (n. 6818, 6824, 8120-8123). Que também o bem moral, que é o sincero e o bem civil, que é o justo, sejam o próximo; e que agir sincera e justamente pelo amor do sincero e do justo seja amar o próximo (n. 2915, 4730, 8121, 8123). Daí, que a caridade para com o próximo se estenda a todas as coisas da vida do homem e fazer o bem e o justo e agir sinceramente de coração, em toda função e em toda obra, seja amar o próximo (n. 2417, 8121, 8124). Que a doutrina na Igreja Antiga tenha sido a doutrina da caridade e que daí lhes vinha a sabedoria (n. 2385, 2417, 3419, 3420, 4844, 6628).