HH 489

O Céu e o Inferno
Emanuel Swedenborg
O Céu e as suas Maravilhas, e o Inferno, Segundo o que foi ouvido e visto

. Mas os prazeres da vida daqueles que, no mundo, viveram no amor celeste se mudam em correspondências como as que estão nos céus, que existem pelo Sol do céu e pela luz daí, luz que apresenta à vista coisas que em si encerram Divinos. As coisas que daí aparecem afetam os interiores que são das mentes dos anjos e, ao mesmo tempo, os exteriores que são de seus corpos. E como a Divina luz, que é o Divino vero procedente do Senhor, influi nas suas mentes, que se acham abertas pelo amor celeste, por isso apresenta nos externos coisas tais que correspondem aos prazeres de seu amor. Que as coisas que aparecem à vista nos céus correspondam aos interiores dos anjos ou às coisas que são da fé e do amor e, assim, de sua inteligência e sabedoria, mostrou-se no capítulo onde se tratou dos representativos e das aparências no céu (n. 170-176) e no capítulo onde se tratou da sabedoria dos anjos do céu (n. 265-275). Visto que se começou a confirmar este ponto pelos exemplos da experiência, para que sejam ilustradas as coisas que foram anteriormente ditas pela razão das coisas, quero também referir alguma coisa a respeito dos prazeres celestes em que se mudam os prazeres naturais naqueles que, no mundo, viveram no amor celeste. Os que amaram os Divinos veros e a Palavra por uma afeição interior ou pela afeição do vero mesmo, esses, na outra vida, habitam na luz, em lugares elevados que aparecem como montanhas e, ali, estão continuamente na luz. Não sabem o que são as trevas como as que se conhecem no mundo e também vivem na estação da primavera. À sua vista se apresentam como que campos e searas, como também vinhas. Em suas casas, cada coisa brilha como se de pedras preciosas. A sua vista, através das janelas, é como de puros cristais. Essas coisas são os prazeres de sua visão, mas essas mesmas coisas são prazeres interiores pelas correspondências com os Divinos celestes, pois os veros da Palavra a que amaram correspondem às searas, vinhas, pedras preciosas, janelas e cristais *280. Os que aplicaram logo à vida os doutrinais da igreja que provêm da Palavra estão no céu íntimo e, mais do que os outros, estão no prazer da sabedoria. Vêem coisas Divinas em cada um dos objetos. Decerto vêem os objetos, mas a correspondência Divina influi imediatamente em suas mentes e as enche de beatitude, pela qual todos os seus sentidos são tocados. Assim, diante de seus olhos, todas as coisas riem, brincam e vivem, por assim dizer. (Sobre isso, veja-se acima, n. 270). Os que amaram as ciências e, por elas, cultivaram o racional, por aí adquiriram para si inteligência e, ao mesmo tempo, reconheceram o Divino, sua delícia nas ciências e o seu prazer racional se mudam na outra vida em prazer espiritual, que é o dos conhecimentos do bem e do vero. Habitam em hortos, onde aparecem canteiros e jardins distintos em áreas de uma forma bela e rodeados por ordens de árvores com pórticos e alamedas. As árvores e as flores variam diariamente; o aspecto de tudo, no geral, apresenta prazeres às suas mentes e as variedades, no particular, os renovam continuamente. E como correspondem aos Divinos e eles estão na ciência das correspondências, conhecimentos novos são sempre implementados e, por eles, o seu racional espiritual se aperfeiçoa. Essas coisas lhe são prazeres porque os hortos, canteiros, jardins e árvores correspondem aos conhecimentos, cognições e, assim, à inteligência *281. Os que atribuíram todas as coisas ao Divino e consideraram a natureza como relativamente morta, somente servindo às espirituais, e se confirmaram nisso, esses estão na luz celeste; todas as coisas que aparecem diante dos seus olhos tiram dessa luz a sua translucidez e, nessa translucidez, vêem inumeráveis variações da luz que sua vista interna imediatamente haure, por assim dizer. Daí sentem prazeres interiores. As coisas que aparecem em suas casas são como que adamantinas, nas quais há semelhantes variações. Foi dito que as paredes de suas casas são como que cristalinas e também transluzentes; nelas aparecem, como fluindo, formas representativas das coisas celestes, também com variedade perpétua e removidas da sombra proveniente da fé e do amor natural, porque tal translucidez corresponde ao entendimento iluminado pelo Senhor. São dessas coisas e de outras, infinitas, que falam aqueles que estiveram no céu dizendo que viram coisas que nenhum olho viu e, pela percepção dos Divinos comunicada através delas, que ouviram coisas que nenhum ouvido ouviu. Os que não agiram clandestinamente mas quiseram que todas as coisas que pensavam fossem públicas tanto quanto permitiu a vida civil, desses, como não pensaram outra coisa senão o sincero e o justo pelo Divino, a face brilha no céu e, na face, por essa luz, aparecem cada uma das afeições e dos pensamentos como em forma. E, quanto à linguagem e as ações, são efígies, por assim dizer, de suas afeições. Por isso, são amados mais do que os outros. Quando falam, a face se escurece um pouco, mas, depois de falarem, as mesmas coisas que falaram aparecem ao mesmo tempo na face, plenamente à vista. Também, todas as coisas que existem à sua volta, visto que correspondem aos seus interiores, estão numa aparência tal que os outros percebem claramente o que representam e significam. Espíritos cujo prazer foi agir clandestinamente fogem para longe deles e aparecem como se rastejando quando deles se afastam. Os que tiveram os adultérios como coisas nefandas e viveram no casto amor conjugal, esses, mais do que os outros, estão na ordem e na forma do céu e, assim, em toda beleza e continuamente na flor da juventude. Os prazeres de seu amor são inexplicáveis e aumentam eternamente, pois nesse amor influem todos os prazeres e alegrias do céu, porque esse amor descende da conjunção do Senhor com o céu e com a igreja e, em geral, da conjunção do bem e do vero, conjunção essa que é o céu mesmo no geral e está em cada anjo em particular (veja-se acima, n. 366-386). Os seus prazeres externos são tais que não podem ser descritos por palavras humanas. Mas essas são umas poucas coisas, ditas a respeito das correspondências dos prazeres naqueles que estão no amor celeste.

*280 Que a “seara”, na Palavra, signifique o estado de recepção e de incremento do vero procedente do bem (n. 9146). Que as “vinhas” signifiquem a igreja espiritual e os veros dessa igreja (n 1069, 9139). Que as “pedras preciosas” signifiquem os veros do céu e da igreja transluzindo pelo bem (n. 114, 9863, 9865, 9868, 9873, 9905). Que a “janela” signifique o entendimento, que é a visão interna (n. 655, 658, 3391).
*281 Que o “jardim,” o “bosque” e o “paraíso” signifiquem a inteligência (n. 100, 108, 3220). Que por isso os antigos tiveram o culto santo nos bosques (n. 2722, 4552). Que as “flores” e os “canteiros” signifiquem os veros científicos e as cognições (n. 9553). Que a “erva,” “grama” e o “relvado” signifiquem os veros científicos (n 7571). Que as “árvores” signifiquem as percepções e as cognições (n. 103, 2163, 2682, 2722, 2972, 7692).

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