. Não se pode descrever em poucas palavras como são os maus nesse estado, pois cada um é insano segundo as suas cobiças e essas são variadas. Por causa disso, quero citar apenas alguns exemplos específicos pelo que se pode concluir sobre os demais. Aqueles que se amaram sobre todas as coisas e, nos ofícios e funções, tinham em vista a sua honra e prestaram usos não por causa dos usos, mas se deleitaram com eles por causa da reputação para que fossem estimados como mais dignos do que os outros e, assim, se deleitaram com a reputação de sua honra, esses, quando estão nesse segundo estado, são mais estúpidos do que os demais, porque, quanto mais alguém se ama, mais se remove do céu e quanto mais se remove do céu, mais se remove da sabedoria. Aqueles que, porém, estiveram no amor de si e, ao mesmo tempo, foram astutos e se elevaram às honras por meios de artifícios, esses se consociam com os piores e aprendem artes mágicas – que são abusos da ordem Divina – pelas quais atacam e infestam todos os que não os honram; tramam insídias, fomentam ódios, abrasam vinganças e ardem com o desejo de fazer violência a todos os que não se lhes submetem. Lançam-se a todas essas coisas tanto quanto a turba maligna lhes favoreça; finalmente, buscam em espírito de que modo podem subir ao céu para o destruir, ou para serem ali adorados como deuses, a tal ponto os leva a insanidade. Aqueles que da religião papal foram assim são mais insanos do que os demais, porque trazem na mente que o céu e o inferno estão sob seu poder e que podem absolver os pecados a seu bel-prazer. Esses reivindicam para si todo o Divino e se chamam Cristo. A sua persuasão de que isso é assim é tal que, onde ela influi, perturba as mentes e induz trevas até à dor. São quase semelhantes em um e outro estados, mas no segundo são desprovidos de racionalidade. Mas, sobre a sua insanidade e a sua sorte depois desse estado, serão ditas algumas coisas em particular no opúsculo sobre O Juízo Final e a Babilônia Destruída. Aqueles que atribuíram a criação à natureza e, assim, negaram o Divino de coração, ainda que não de boca, negando, por conseguinte, todas as coisas da igreja e do céu, esses se consociam com os semelhantes nesse estado, chamam de Deus a qualquer um que prepondere em astúcia e mesmo o adoram com honra Divina. Vi esses numa assembléia adorando um mago, debatendo sobre a natureza e agindo estupidamente, como se fossem bestas sob a forma humana. Entre eles estavam também aqueles que no mundo tinham sido constituídos em dignidade e alguns que, no mundo, tinham sido reputados como doutos e sábios. Outros, de outros modos. Por esses poucos exemplos se pode concluir quais são os interiores daqueles cujas mentes foram fechadas para o céu, como são todos os que não receberam algum influxo do céu pelo reconhecimento do Divino e pela vida da fé. Cada um pode julgar por si mesmo o que seria se fosse tal que lhe fosse permitido agir sem temor das leis e da vida e sem os vínculos externos que são os temores de ser prejudicado quanto à reputação e de ser privado da honra, do ganho e das volúpias daí. Contudo, a sua insânia é sempre constrangida pelo Senhor, para que não se lance além dos limites do uso, pois cada um deles presta, não obstante, um uso. Os bons espíritos vêem neles o que é o mal, como ele é e o que o homem é se não for conduzido pelo Senhor. Há, também, uso, porque, por meio deles, os maus são coligados aos semelhantes e separados dos bons. Então, os veros e bens que os maus exibiam e fingiam nos externos lhes são tirados e eles são levados aos males de sua vida e aos falsos do mal; assim, são preparados para o inferno. Com efeito, ninguém pode ir ao inferno antes de estar no seu mal e nos falsos do mal, porquanto a ninguém é ali permitido ter uma mente dividida, a saber, pensar e falar uma coisa e querer outra. Cada indivíduo mau ali pensará o mal pelo falso do mal e falará pelo falso do mal, um e outro pela vontade, assim, por seu próprio amor e seu prazer e volúpia, do mesmo modo que, no mundo, quando estava em seu espírito, isto é, do mesmo modo que quando pensava consigo mesmo pela afeição interior. A razão é porque a vontade é o homem mesmo e não o pensamento, a não ser na medida em que tira da vontade, e a vontade é a natureza mesma ou a índole do homem. Por isso, ser reposto na sua vontade é ser reposto na sua natureza ou índole e também na sua vida, pois o homem, pela vida, se reveste de uma natureza. E o homem permanece após a morte tal qual é a natureza que adquiriu pela vida no mundo, a qual, nos maus, não pode mais ser emendada e mudada por meio do pensamento ou do entendimento.