. Foi-me concedido falar, na outra vida, com alguns que se tinham afastado dos negócios do mundo para viverem pia e santamente e, também, com alguns que se tinham afligido de vários modos, porque tinham acreditado que isso é renunciar ao mundo e domar as concupiscências da carne. Mas a maior parte deles, porque assim tinham contraído uma vida triste e tinham-se afastado da vida de caridade – vida essa que só no mundo pode ser vivida – não puderam ser consociados aos anjos, porque a vida dos anjos é alegre pela bem-aventurança e consiste em desempenhar os bens que são as obras de caridade. E, além disso, aqueles que viveram uma vida abstraída das coisas mundanas se abrasam com o desejo pelo mérito e, assim, desejam continuamente o céu, pensando na alegria celeste como recompensas, sem absolutamente saberem o que é a alegria celeste. E quando são postos entre os anjos e as suas alegrias, que é sem mérito e consiste em labores e ofícios práticos, bem como na bem-aventurança pelo bem que por esses prestam, admiram-se como os que vêm coisas estranhas à fé. E como não são receptivos dessa alegria, retiram-se dali e se consociam aos seus, que estiveram numa vida semelhante no mundo. Mas aqueles que viveram santamente nos externos, continuamente nos templos e nas preces ali e os que afligiram suas almas e, ao mesmo tempo, pensavam constantemente em si mesmos, que deviam ser mais estimados e honrados do que os outros e, finalmente, serem tidos como santos após a morte, esses, na outra vida, não estão no céu, pois fizeram essas coisas por causa de si. E, como mancharam os Divinos veros pelo amor de si em que os mergulharam, alguns deles são tão insanos que se acham deuses. Por isso, estão entre os que são tais nos infernos. Alguns são astutos e fraudulentos e estão nos infernos dos fraudulentos, que são aqueles que fizeram essas coisas na forma externa por meio de artifícios e astúcias, pelo que induziram o povo comum a crer que neles havia uma santidade Divina. Tais são muitos dos santos da religião papal, com quem também foi concedido falar e, então, a vida deles foi claramente descrita qual fora no mundo e qual se tornou depois. Essas coisas foram ditas para que se saiba que a vida que conduz ao céu não é uma vida abstraída do mundo, mas no mundo. E a vida de piedade sem a vida de caridade, que só existe no mundo, não conduz ao céu, mas, sim, a vida de caridade, que é agir sincera e justamente em toda função e em todo negócio e em toda obra, pelos interiores, assim, por uma origem celeste. Essa origem de vida existe quando o homem age sincera e justamente porque é segundo as leis Divinas. Essa vida não é difícil, mas a vida da piedade abstraída da caridade é difícil; ela afasta do céu quanto mais se crê que conduza ao céu *287. *287 Que a vida piedade sem a vida de caridade para nada sirva, mas que, com esta, conduza a todas as coisas (n. 8252, 8253). Que a caridade para com o próximo seja fazer o bem, o justo e o reto em toda obra e em toda função (n. 8120-8122). Que a caridad e para com o próximo se estenda a todas e cada uma das coisas que o homem pensa, quer e faz (n. 8124). Que a vida de caridade seja uma vida segundo os preceitos do Senhor (n. 3249). Que viver segundo os preceitos do Senhor seja amar ao Senhor (n. 10143, 10153, 10310, 10578, 10645). Que a genuína caridade não seja meritória, porque procede de uma afeição interior e, assim, do prazer (n. 2343, 2380, 2372, 2400, 3816, 3887, 6388-6393). Que o homem permaneça após a morte tal qual foi a sua vida de caridade no mundo (n. 8256). Que a bem-aventurança celeste influa do Senhor na vida de caridade (n 2363). Que ninguém seja admitido no céu somente por pensar, mas por querer e fazer o bem ao mesmo tempo (n. 2401, 3459). Não há salvação nem conjunção do homem inte rno ao externo se a prática do bem não for conjunta ao querer bem e ao pensar no bem (n. 3987).