[bis] Que o amor de si seja oposto ao amor para com o próximo, pode-se ver pela origem e pela essência de um e outro. Naquele que está no amor de si, o amor ao próximo começa nele mesmo, pois diz que cada um é o seu próximo e dele, como de um centro, procede em direção a todos os que fazem um consigo, com decréscimo segundo o grau de conjunção pelo amor para consigo. Os que estão fora dessa consociação são considerados como nada e os que são contra eles e contra seus males, como inimigos, quaisquer que sejam, sábios, probos, sinceros ou justos. Mas o amor espiritual para com o próximo começa do Senhor e d’Ele, como um centro, procede em direção a todos os que estão conjuntos a Ele por meio do amor e da fé, procedendo segundo a qualidade do amor e da fé neles. Assim se vê que o amor ao próximo que começa do homem é oposto ao amor ao próximo que começa do Senhor; e vê-se que aquele procede do mal, pois vem do proprium do homem, mas este procede do bem, pois vem do Senhor, que é o Bem mesmo. Vê-se, também, que o amor ao próximo que procede do homem e de seu proprium é corpóreo, enquanto o amor para com o próximo que procede do Senhor é celeste. Numa palavra, o amor de si, no homem que nele se acha, constitui a cabeça, enquanto o amor celeste constitui os pés, amor no qual se apóia; e, se este não o serve, pisa-o com pés. Assim é que aqueles que são lançados no inferno parecem ser lançados de cabeça para baixo, para o inferno, e de pés para cima, para o céu (veja-se acima, n. 548).