- X. As coisas espirituais, assim revestidas no homem, fazem com que ele possa viver racional e moral, por conseguinte, espiritualmente no natural. 12. Isto se segue como conclusão do princípio acima estabelecido, de que a alma se reveste do corpo assim como o homem se veste, pois a alma influi na mente humana e, por ela, no corpo, e traz consigo a vida que recebe continuamente do Senhor, transferindo-a assim imediatamente no corpo, onde, por uma união muito próxima, faz com que o corpo viva, por assim dizer. Assim, e pelo testemunho de milhares de experiências, é evidente que o espiritual unido ao material, como uma força viva com uma força morta, faz com que o homem fale racionalmente e aja moralmente. [2] Parece que a língua e os lábios falam por uma certa vida em si, e que os braços e as mãos agem semelhantemente, mas é o pensamento, que em si é espiritual, que fala, e a vontade, que é igualmente espiritual, que age, ambos por meio de seus órgãos, que são em si mesmos materiais, porque foram tomados do mundo natural. Que isto seja assim é o que se mostra à luz do dia, contanto que se preste atenção ao seguinte: remove o pensamento da linguagem; acaso a boca não emudece num instante? Remove também a vontade da ação; acaso as mãos não repousam no mesmo instante? [3] A união das coisas espirituais com as naturais e, daí, a aparência de vida nas materiais pode ser comparada a um vinho nobre numa esponja limpa, ao mosto açucarado na uva, ao sumo saboroso na fruta e também ao odor aromático na canela. As fibras continentes de todos estes são materiais que por si mesmos não têm sabor nem fragrância, mas, sim, pelos fluidos neles e dentro deles; por isso, se espremeres os seus sucos, tornam-se filamentos mortos. Dá-se semelhantemente com os órgãos próprios do corpo, se a vida lhes for tirada. [4] Que o homem seja racional pela união das coisas espirituais com as naturais é evidente pelos seus pensamentos analíticos; e também é moral pelas ações honestas e pela decência de seus gestos. Estas ele tem pela faculdade de poder receber o influxo do Senhor por meio do céu angélico, onde é o habitáculo mesmo da sabedoria e do amor, por conseguinte, da racionalidade e da moralidade. Por aí se percebe que o espiritual e o natural unidos no homem fazem com que ele viva espiritualmente no natural. Que ele seja semelhante ou mesmo dessemelhante após a morte é porque a sua alma está então revestida de um corpo substancial, assim como no mundo natural foi revestida de um corpo material. [5] Muitos crêem que as percepções e os pensamentos da mente, por serem espirituais, influem nus e não por meio de formas organizadas. Mas assim sonham aqueles que não viram os interiores da cabeça, onde as percepções e os pensamentos estão em seus princípios, e ali estão os cérebros1, entretecidos e cobertos de substâncias cinerícias e medulares, e também glândulas, cavidades, septos, e todas elas envoltas pelas meninges e pela máter; e o homem segundo o estado íntegro ou pervertido de todos esses pensa e quer de forma sã ou insana, resultando que é racional e moral segundo a formação orgânica de sua mente. Pois a visão racional do homem, a qual pertence ao entendimento, sem as formas organizadas para a recepção da luz espiritual não seria de atributo algum, assim como a visão natural sem os olhos. E assim por diante.