- XI. A recepção desse influxo é segundo o estado de amor e de sabedoria no homem 13. Que o homem não seja a vida, mas um órgão recipiente da vida de Deus, e que o amor unido à sabedoria seja a vida e também Deus seja o Amor mesmo e a Sabedoria mesma, e, assim, a Vida mesma, é o que foi demonstrado acima. Segue-se daí que quanto mais o homem ama a sabedoria, ou quanto mais a sabedoria no seio do amor está nele, mais ele é imagem de Deus, isto é, receptáculo da vida de Deus. E, ao contrário, quanto mais está no amor oposto e, daí, na insanidade, menos recebe a vida de Deus, mas a do inferno, vida essa que se chama morte. [2] O amor mesmo e a sabedoria mesma não são a vida, mas o ser da vida, e os prazeres do amor e as amenidades da sabedoria, que são as afeições, fazem a vida, pois o ser da vida existe por elas. O influxo da vida de Deus traz consigo esses prazeres e amenidades, assim como o influxo da luz e do calor na estação da primavera nas mentes humanas e também em todo gênero de aves e bestas, até mesmo nos vegetais, que então germinam e proliferam. É porque os prazeres do amor e as amenidades da sabedoria expandem os ânimos e os adaptam para a recepção, assim como o regozijo e a alegria expandem as faces e as adaptam para o influxo contente da alma. [3] O homem que é movido pelo amor da sabedoria é como o jardim do Éden no qual há duas árvores, uma da vida e a outra da ciência do bem e do mal. A árvore da vida é a recepção do amor e da sabedoria de Deus, e a árvore da ciência do bem e do mal é a recepção destes de si mesmo, mas esta última torna-o insano e faz com que se creia saber como Deus, enquanto pela primeira recepção ele verdadeiramente sabe e crê que ninguém sabe senão Deus somente, e que o homem, quanto mais crê nisso, mais sabe, e ainda mais quando sente que quer isso. Todavia, muitas coisas a respeito deste assunto são vistas no memorável inserido na obra sobre o Amor Conjugal, ns. 132 a 136. [4] Acrescentarei aqui um arcano do céu que confirma isso. Todos os anjos do céu voltam o rosto para o Senhor como Sol, e todos os anjos do inferno voltam para Ele o occipício, e estes últimos recebem o influxo nas afeições de sua vontade, as quais em si mesmas são concupiscências e fazem com que o entendimento favoreça, enquanto os primeiros recebem o influxo nas afeições de seu entendimento, e fazem com que a vontade favoreça, pelo que estes estão na sabedoria enquanto os outros na insanidade. Com efeito, o entendimento humano habita no cérebro, que está sob o frontispício, e a vontade está no cerebelo, que está no occipício. [5] Quem não sabe que o homem que se torna insensato pelas falsidades favorece os males de suas cobiças e os confirma pelas razões do entendimento, e que o homem sábio vê pelos veros quais são as cobiças de sua vontade e as refreia? Isto o sábio faz porque volta a face para Deus, isto é, crê em Deus e não em si mesmo, mas aquilo faz o insano, que desvia de Deus a face, isto é, crê em si mesmo e não em Deus. Crer em si mesmo é crer que ama e sabe por si e não por Deus, e isto é significado por comer da árvore da ciência do bem e do mal, mas crer em Deus é crer que ama e sabe por Deus e não por si, e isto é comer da árvore da vida (Ap. 2:7). [6] Por aí se pode perceber - ainda que seja como no lúmen noturno da lua - que a recepção do influxo da vida de Deus é segundo o estado de amor e de sabedoria no homem. Esse influxo pode ser ainda mais ilustrado pelo influxo de luz e de calor nos vegetais, os quais florescem e frutificam segundo o enlace das fibras que os formam, assim, segundo a recepção. E pode também ser ilustrado pelo influxo dos raios de luz nas pedras preciosas que os modificam em cores segundo a posição das partes que as compõem, assim, segundo a recepção. Igualmente, pelas lentes ópticas e pelas águas da chuva, que apresentam íris segundo as incidências, refrações e, assim, recepções da luz. Dá-se de modo semelhante com as mentes humanas quanto a luz espiritual que procede do Senhor como Sol, que influi perpetuamente mas é recebida variadamente.