ISB &14

Interacao da Alma e do Corpo
Emanuel Swedenborg
Da interacao da alma com o corpo, que se acredita fazer-se ou pelo influxo fisico, ou pelo influxo espiritual, ou por uma harmonia preestabelecida

- XII. O entendimento no homem pode ser elevado na luz, isto é, na sabedoria em que estão os anjos do céu segundo o cultivo da razão, e sua vontade pode ser elevada no calor, isto é, no amor, semelhantemente, segundo os feitos da vida.

14. Mas o amor da vontade não é elevado senão na medida que o homem quer e pratica as coisas que a sabedoria do entendimento ensina. Pelas mente humana se entendem as duas faculdades que se chamam entendimento e vontade; o entendimento é o receptáculo da luz do céu, que em sua essência é a sabedoria, e a vontade é o receptáculo do calor do céu, que em sua essência é o amor, como acima se mostrou. Estes dois, a sabedoria e o amor, procedem do Senhor como Sol e influem universal e singularmente no céu, donde os anjos têm sabedoria e amor, e influem também universal e singularmente no mundo, donde os homens têm sabedoria e amor.
[2] Esses dois procedem unidos do Senhor e influem igualmente unidos nas almas dos anjos e homens, mas não são recebidos unidos nas mentes; aí é recebida primeiro a luz, que faz o entendimento, e gradativamente é recebido o amor, que faz a vontade. Isto também foi provido para que todo homem seja criado de novo, isto é, reformado, e isto se faz pelo entendimento, pois desde a infância ele absorve as cognições do vero e do bem que o ensinam a viver bem, isto é, a querer e agir corretamente. Assim, a vontade é formada por meio do entendimento.
[3] Por este propósito é que foi concedida ao homem a faculdade de elevar o entendimento quase à luz em que estão os anjos do céu, para que veja o que lhe importa querer e, daí, fazer, a fim de ser próspero no mundo, no tempo, e bem-aventurado após a morte, na eternidade. Faz-se próspero e bem-aventurado se adquire para si a sabedoria e mantém sua vontade em obediência a ela, mas não próspero e infeliz se põe o seu entendimento sob obediência da vontade. A razão disso é que a vontade por nascimento se inclina para os males, mesmo os enormes; por isso, se ela não for refreada pelo entendimento, o homem se lança às coisas nefastas e, de fato, por sua ínsita natureza ferina, devastaria por causa de si todos os que o não favorecessem nem lhe fossem indulgentes.
[4] Além disso, se o entendimento não pudesse ser separadamente aperfeiçoado e, por meio deste, a vontade, o homem não seria homem, mas uma besta, pois, sem essa separação e sem a ascensão do entendimento acima da vontade, não poderia pensar e, pelo pensamento, falar, mas somente ressoar sua afeição. Tampouco poderia agir pela razão, mas pelo instinto, e ainda menos poderia conhecer as coisas que são de Deus e, por elas, conhecer a Deus e ser assim conjunto a Ele e viver na eternidade. Pois o homem pensa e quer como de si mesmo, e essa aparência de como de si mesmo é o recíproco da conjunção, porquanto não existe a conjunção sem o recíproco, assim como não existe a conjunção do ativo com o passivo sem o reativo. Somente Deus age, e o homem se deixa agir, e age em toda aparência por si, ainda que interiormente o seja por Deus.
[5] Por estas coisas corretamente percebidas pode-se ver a qualidade do amor da vontade do homem, se é elevado pelo entendimento, e, também, a qualidade desse amor se não é elevado; conseqüentemente, a qualidade do homem. Mas essa qualidade do homem, quando o amor não é elevado pelo entendimento, é ilustrada por meio de comparações. É como a águia que voa no alto, mas, assim que vê em baixo a comida que é de seu desejo, como as galinhas, os pombinhos e mesmo os filhotes das ovelhas, num momento se projeta e os devora. É semelhante também a um adúltero que esconde num quarto inferior uma prostituta e ora aparece na região superior da casa e ali fala sabiamente a respeito da castidade com os quais convive, ora se furta de seus companheiros e sacia sua lascívia com a prostituta embaixo.
[6] É semelhante, também, a um ladrão na torre, que simula estar de vigia e que, tão logo vê abaixo um objeto de rapina, precipita-se para baixo e o captura. Também pode ser assemelhado a moscas do pântano que voam em coluna sobre a cabeça de um cavalo que corre, as quais, parando o cavalo, descem e imergem em seu pântano. Tal é o homem cuja vontade ou amor não é elevado pelo entendimento, pois então embaixo, aos pés, permanece imerso nas coisas imundas da natureza e libidinosas dos sentidos. É inteiramente diferente com os que domam as atrações das cobiças da vontade pela sabedoria do entendimento. Nesses, em seguida, o entendimento entra em aliança conjugal com a vontade, por conseguinte, a sabedoria com o amor, e coabitam em cima com delícias.

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