- XIII. É inteiramente diferente com as bestas. 15. Aqueles que julgam somente pelas aparências que estão diante dos sentidos do corpo concluem que as bestas têm igualmente uma vontade e um entendimento, assim como os homens, e que, assim, a única diferença que existe é que o homem pode falar e, portanto, enunciar aquilo que pensa e deseja, enquanto a besta pode somente ressoar isso. Todavia, as bestas não têm vontade e entendimento, mas certa imagem de ambos, à qual os eruditos chamam de análogo. [2] O homem é homem porque seu entendimento pode ser elevado acima dos desejos de sua vontade, e assim, de cima, pode conhecê-los, vê-los e também moderá-los, enquanto a besta é besta porque os desejos a levam a fazer o que faz. Por isso o homem é homem pelo fato de a sua vontade estar na obediência do entendimento, enquanto a besta é besta pelo fato de seu entendimento estar na obediência de sua vontade. Daí se segue esta conclusão, que o entendimento do homem é vivo porque recebe a luz que influi do céu, a qual ele apreende e percebe como sua, e por ela pensa analiticamente com toda variedade inteiramente como por si mesmo, tendo, assim, o verdadeiro entendimento; e a sua vontade é viva porque recebe o influxo do amor do céu e por este age como por si mesmo, tendo, assim, a verdadeira vontade. Mas é o contrário nas bestas. [3] Por essa razão, aqueles que pensam pelas coisas libidinosas da vontade são assemelhados às bestas e também, no mundo espiritual, de longe aparecem como bestas. Também agem de modo semelhante, com a única diferença de que podem agir diferentemente, se o quiserem, enquanto aqueles que pelo entendimento reprimem as coisas libidinosas de sua vontade e, daí, agem racional e sabiamente, no mundo espiritual aparecem como homens e são anjos do céu. [4] Em suma, a vontade e o entendimento nas bestas são sempre coerentes; e como a vontade em si é cega, pois está no calor e não na luz, o entendimento também se torna cego; daí, uma besta não sabe nem entende o que o faz, e, no entanto, o faz, pois age pelo influxo do mundo espiritual, e essa ação é o instinto. [5] Acredita-se que uma besta pelo entendimento pensa no que faz, mas não é assim. Ela é somente levada a agir pelo amor natural que lhes é ínsito pela criação, com o auxílio dos sentidos do seu corpo. O fato de o homem pensar e falar se deve unicamente a que seu entendimento é separável da vontade, podendo ser elevado até à luz do céu, pois o entendimento pensa e o pensamento fala. [6] Que as bestas ajam segundo as leis da ordem inscritas em sua natureza e, algumas, como se fosse moral e racionalmente, diferentemente de muitos homens, é porque o entendimento delas está em cega obediência aos desejos de sua vontade e, assim, não podem pervertê-la por meio de raciocínios depravados, assim como fazem os homens. Cumpre observar que, pela vontade e pelo entendimento das bestas, no que foi anteriormente dito, entendem-se uma imagem e um análogo de vontade e de entendimento; esses análogos são assim chamados por causa das aparências. [7] A vida das bestas pode ser comparada a um sonâmbulo, que anda e age pela vontade tendo o entendimento adormecido; e também a um cego que vai pelos caminhos conduzido por um cão; e ainda a um estúpido que, pelo costume e, daí pelo hábito, faz seu trabalho segundo as regras. É semelhante a alguém privado de memória e, daí, estéril de entendimento que, todavia, sabe ou aprende a se vestir, comer com elegância, amar o sexo, andar pelas ruas de casa em casa e fazer coisas tais que são aprazíveis aos sentidos e indulgem a carne, às quais é levado pelas atrações e volúpias, ainda que não pense e, daí, não possa falar. [8] Por aí é evidente o quanto se iludem os que acreditam que as bestas desfrutam de racionalidade e só se diferenciam dos homens pela figura externa e pelo fato de não poderem enunciar as coisas racionais que interiormente encerram. Dessas falácias eles também concluem muitas outras, a saber, que, se o homem vive após a morte, também a besta deve viver; e, ao contrário, se a besta não vive após a morte, tampouco o homem deve viver, além de muitas outras ilusões oriundas da ignorância a respeito da vontade e do entendimento e também a respeito dos graus pelos quais a mente do homem, como por escadas, se eleva ao céu.