.** I. O gênero humano é a base sobre a qual está fundado o Céu. Isso porque o homem foi criado por último, e o que foi criado por último é a base de todas as coisas que o precedem. A criação começou pelos supremos - ou pelos íntimos - porque procedeu do Divino, e ela prosseguiu para os últimos - ou os extremos - e então, pela primeira vez, ela existiu. O último da criação é o mundo natural, incluindo o globo terrestre com tudo o que está sobre ele. E quando essas coisas foram concluídas, o homem foi criado. E no homem foram reunidas todas as coisas da ordem Divina, desde os primeiros até os últimos. Em seu íntimo foram reunidas as coisas que estão nos primeiros dessa Ordem; e em seu externo as coisas que estão nos últimos, de tal sorte que o homem foi feito a ordem Divina em sua forma. Daí vem que todas as coisas que estão no homem e dentro do homem vêm do Céu e do mundo. Vêm do Céu as coisas que são de sua mente; e vêm do mundo as coisas que são de seu corpo. As coisas que são do Céu influem em seus pensamentos e em suas afeições e os dispõem de acordo com a recepção do seu espírito. E as que são do mundo influem em suas sensações e prazeres e as dispõem segundo a recepção de seu corpo, mas isso conforme as conveniências dos pensamentos e das afeições de seu espírito. Que isso seja assim, pode-se ver nos artigos da obra "O Céu e o Inferno," especialmente nestes: Todo o Céu em um só complexo representa um só Homem (parágrafos 59 a 67). Do mesmo modo cada sociedade nos Céus (68 a 72). Daí é que cada anjo é uma perfeita forma humana (73 a 77), e isso vem do Divino Humano do Senhor (78 a 86). E, além disso, nos artigos sobre a correspondência de todas as coisas do Céu com todas as coisas do homem (87 a 102). Sobre a correspondência do Céu com todas as coisas da terra (103 a 115), e sobre a forma do Céu (200 a 212). Segundo essa ordem da criação pode-se ver que há tal elo contínuo, desde os primeiros até os últimos, que, considerados juntos, constituem um todo, no qual o anterior não pode ser separado do posterior, absolutamente do mesmo modo que a causa não pode ser separada de seu efeito, assim o Mundo Espiritual não pode ser separado do mundo natural, nem o mundo natural do Mundo Espiritual, por conseguinte o Céu angélico não pode ser separado do gênero humano, nem o gênero humano do Céu angélico, pois isso foi providenciado pelo Senhor para que um preste serviços ao outro mutuamente; a saber, o Céu angélico ao gênero humano, e este ao Céu angélico. Daí vem que as moradas angélicas estão de fato nos Céus, e, por aparência, separadas das moradas dos homens. Contudo, elas estão no homem, a saber, em suas afeições do bem e do vero. Sua apresentação como separadas é em aparência, como se pode ver na obra "O Céu e o Inferno" no artigo onde se trata do espaço no Céu (191 a 199). Que as moradas dos anjos estejam nos homens, em suas afeições do bem e do vero, é o que se entende por estas palavras do Senhor: "Aquele que ama-me, a palavra minha guarda e o Pai meu ama-lo-á e para ele viremos, e morada nele faremos" (João 14:23). Pelo Pai e Senhor, também se entende o Céu, porque onde o Senhor está ali está o Céu, pois o Divino procedente do Senhor faz o Céu (ver "O Céu e o Inferno" 7 a 12, 116 a 125). Isso é também entendido por estas palavras do Senhor: "O Paracleto, espírito da verdade, entre vós mora e em vós está" (João 14:17). O Espírito Santo é o Divino Vero procedente do Senhor, por isso ele é chamado de "o Espírito da Verdade;" e o Divino Vero faz o Céu e os anjos, porque estes são os Seus recipientes. Que o Divino procedente do Senhor seja o Divino Vero, por conseguinte o Céu angélico vê-se na obra "O Céu e o Inferno" (126 a 140). Ainda a mesma coisa é entendida por estas palavras do Senhor: "O reino de Deus por dentro de vós está" (Lucas 17:21). O reino de Deus é o Divino Bem e o Divino Vero, nos quais estão os anjos. Que os anjos e os espíritos estão nos homens e em suas afeições, foi-me permitido vê-lo milhares de vezes pela sua presença e a sua morada em mim. Mas os anjos e os espíritos não sabem em quais homens eles estão, do mesmo modo que os homens também não sabem com que anjos e com que espíritos eles coabitam, isto é sabido e disposto somente pelo Senhor. Em uma palavra, há no Céu uma prolongação de todas as afeições do bem e do vero, e uma comunicação e uma conjunção com os que lá estão em afeições semelhantes. E há no inferno uma prolongação de todas as afeições do mal e da falsidade, e uma comunicação e uma conjunção com os que lá estão em semelhantes afeições. A prolongação das afeições no Mundo Espiritual é quase como a extensão da vista no mundo natural. E as comunicações em ambos os mundos são quase semelhantes, com esta diferença, entretanto, que no mundo natural há objetos, enquanto que no Mundo Espiritual há sociedades angélicas. Por estas explicações é evidente que o elo do Céu angélico e do gênero humano é tal que um subsiste pelo outro, e que o Céu angélico sem o gênero humano é qual uma casa sem alicerces, porque o Céu termina no gênero humano e descansa sobre ele. O caso é o mesmo com cada homem em particular: seus espirituais, os quais pertencem ao seu pensamento e à sua vontade, influem em seus naturais, os quais pertencem às suas sensações e ações, e nelas terminam e subsistem. Se o homem não gozasse também dos naturais ou se ele estivesse sem esses limites - ou esses últimos - os seus espirituais, os quais pertencem aos pensamentos e às afeições de seu espírito, se espalhariam por toda parte, como coisas sem limite ou que não têm fundo. O mesmo se dá com o homem quando ele passa do mundo natural para o Mundo Espiritual - o que sucede quando ele morre - aí então, por ele ser um espírito, ele subsiste, não sobre uma base própria, mas sobre uma base comum, que é o gênero humano. Quem não conhece os arcanos do Céu pode crer que os anjos subsistem sem os homens, e os homens sem os anjos. Mas posso afirmar por todas as minhas experiências sobre o Céu e todas as minhas conversações com os anjos, que nenhum anjo ou espírito subsiste sem o homem, e nenhum homem sem o espírito e sem o anjo, e que a conjunção é mutua e recíproca. Desse modo pode-se saber agora que o gênero humano e o Céu angélico fazem um e subsistem mutuamente e reciprocamente, um pelo outro, e que assim um não pode ser retirado do outro. ** Nota do revisor: Como pode ser constatado no original em latim, o autor não enumerou este parágrafo com o numeral 8, como seria esperado. Essa quebra na seqüência numérica será mantida aqui.