. Que depois da separação de junto do corpo o espírito do homem seja homem em semelhante forma, isso me foi provado por experiências quotidianas durante muitos anos, pois por milhares de vezes vi, ouvi e conversei com homens-espíritos, até sobre este ponto: que os homens no mundo não crêem que os espíritos sejam tais, e que os que o crêem são considerados pelos eruditos como simples. Os espíritos ficavam afligidos em seus corações pelo fato de que tal ignorância ainda perdure no mundo e, sobretudo, dentro da Igreja. Mas eles diziam que essa fé é derivada principalmente dos eruditos, os quais pensam a respeito da alma pelos sentidos do corpo, e da qual eles não conceberam outra idéia senão como de um mero pensamento, a saber: que alma, quando sem qualquer agente - no qual e pelo qual ela é vista - é como uma forma volátil de puro éter, que não pode deixar de ser dissipada quando ocorre a morte do corpo. Mas como pela Palavra a Igreja crê na imortalidade da alma, não foi possível deixar de conceder a ela alguma vida, como a vida do pensamento, mas não os sentidos, como o homem tem, até que ela seja unida novamente ao seu corpo. A doutrina sobre a ressurreição está fundada sobre esta opinião e sobre a crença que tal conjunção acontecerá quando vier o Juízo Final. Com efeito, não é possível concluir outra coisa dessa hipótese sobre a alma, quando essa está ligada à fé da Igreja sobre a vida eterna do homem. Daí resulta que quando alguém pensa na alma segundo essa doutrina e ao mesmo tempo segundo essa hipótese, é absolutamente impossível compreender que a alma seja um espírito e que o espírito seja em forma humana. Acrescente-se a isso o fato de que poucos hoje em dia saibam o que é o espiritual, nem, com mais forte razão, que haja alguma forma humana para os seres que são espirituais - os quais são todos os espíritos e os anjos. Disso resulta que quase todos os que vêm do mundo estão no maior espanto de viverem e serem igualmente homens como antes, e de não haver absolutamente diferença em nada. Mas, quando o espanto passa, eles ficam surpresos que a Igreja nada saiba desse estado dos homens após a morte, quando, entretanto todos que viveram no mundo estão na outra vida e vivem homens. E como também se admirassem de que essa verdade não tivesse sido manifestada ao homem por visões, do Céu foi-lhes dito que isso poderia ter sido feito, porque nada é mais fácil, quando isso apraz ao Senhor, mas que jamais os que se confirmaram nas falsidades contra os veros creriam, ainda que eles próprios vissem; e que, além disso, é perigoso manifestar alguma coisa sobre o Céu nos que estão nas coisas do mundo e nas corporais; porque eles creriam a princípio e depois negariam e, por conseguinte profanariam essa verdade - porque profanar é crer e depois negar, e os que profanam os veros são precipitados no mais profundo e terrível dos infernos. É esse perigo que se entende por estas palavras do Senhor: "Cegou os olhos deles, e endureceu o coração deles, para que não vejam com os olhos e não compreendam com o coração, e se convertam e os cure" (João 12:40). E pelas palavras seguintes se entende que os que estão nos amores mundanos e corporais jamais crêem: "Disse Abraão ao rico no inferno, tem Moises e os Profetas, escutem-nos. Ele, porém disse: Não, pai Abraão, mas se algum dos mortos for para eles, eles se converterão Abraão, porém, disse-lhe: Se a Moises e ao profetas eles não escutam, mesmo quando algum dos mortos ressuscitasse, não crerão" (Lucas 16: 29 a 31).