. Mas desde que no mundo Cristão não se sabe que não há fé se não há caridade; nem o que é a caridade para com o próximo; nem mesmo que a vontade faz o homem mesmo e que o pensamento não faz o homem, senão quando procede da vontade, vou adicionar aqui, portanto uma coleção de extratos dos Arcanos Celestes, a fim de que essas coisas cheguem à luz do entendimento e possam servir de ilustração.
EXTRATO DOS ARCANOS CELESTES SOBRE A FÉ
Os que não sabem que todas as coisas no universo se referem ao vero e ao bem e à conjunção de ambos para que se produza alguma coisa, também não sabem que todas as coisas da Igreja se referem à fé e ao amor e à conjunção de um e de outro (parágrafos 7752 a 7762, 9186 e 9224). Todas as coisas no universo se referem ao vero e ao bem, e à conjunção de ambos (2452, 3166, 4390, 4409, 5232, 7256, 10122 e 10555). Os veros pertencem à fé, os bens ao amor (4352, 4997, 7178 e 10367).
Os que não sabem que todas e cada uma das coisas no homem, se referem ao entendimento e à vontade, e que a conjunção de ambos faz com que o homem seja homem, também não sabem que todas as coisas da Igreja se referem à fé e ao amor e à sua conjunção, a fim de que haja a Igreja nele (2231, 7752 a 7754, 9229, 9995 e 10122). Há no homem duas faculdades, uma é chamada entendimento e outra vontade (641, 803, 3623 e 3539). O entendimento é destinado a receber os veros, assim, as coisas pertencentes à fé; e a vontade é destinada a receber os bens, assim, as coisas pertencentes ao amor (9300, 9930 e 10064). Segue-se que é o amor, ou a caridade, que faz a Igreja, e não a fé só, ou a fé separada do amor ou da caridade (809, 916, 1798, 1799, 1834, 1844, 4766 e 5826).
A fé separada da caridade não é fé (654, 724, 1162, 1176, 2049, 2116, 2343, 2349, 2417, 3419, 3849, 3868, 6348, 7039, 7342 e 9783). Tal fé perece na outra vida (2228 e 5820). Os doutrinais concernentes à fé só destroem a caridade (6353 e 8094). Os que separam a fé da caridade são representados na Palavra de Caim, Cham, Rúben, por "os primogênitos dos egípcios" e por filisteus (3325, 7097, 7317 e 8093). Quanto mais a caridade se retira, tanto mais prevalece a religião da fé só (2231). Com o passar do tempo a Igreja se desvia da caridade para a fé, e finalmente para a fé só (4683 e 8094). No último tempo da Igreja não há fé porque não há caridade (1843, 3489 e 4689). Os que fazem da fé só uma fé que salva, desculpam a vida do mal. E os que estão na vida do mal não têm fé, porque não têm caridade (3865, 7766, 7778, 7790, 7950 e 8094). Esses estão interiormente nos falsos de seu mal, embora não saibam (7790 e 7950). Por esta razão o bem não pode ser conjunto a eles (8981 e 8983). E mesmo na outra vida eles são opostos ao bem e aos que estão no bem (7097, 7127, 7317, 7502, 7545, 8096 e 8313). Os simples de coração sabem melhor do que os sábios o que é o bem da vida, assim o que é a caridade, mas não sabem o que é a fé separada (4741 e 4754).
O bem é o ser e o vero é o existir que procedem do bem. Assim, o vero da fé tem o ser de sua vida procedente do bem da caridade (3049, 3180, 4574, 5002 e 9154). Daí vem que o vero da fé vive segundo o bem da caridade (1589, 1947, 1997, 2751, 4070, 4096, 4097, 4736, 4757, 4884, 5147, 5928, 9154, 9667, 9841 e 10729). A fé no homem não é viva quando ele somente sabe e pensa sobre as coisas que pertencem à fé, mas ela é viva quando ele as quer e pelo querer as faz (9224). A conjunção do Senhor com o homem não se faz pela fé, mas pela vida da fé, que é a caridade (9380, 10143, 10153, 10578, 10645 e 10648). O culto pelo bem da caridade é o culto verdadeiro, mas o culto pelo vero da fé, sem o bem da caridade, é meramente um ato externo (7724).
A fé só ou a fé separada da caridade é como a luz do inverno, na qual todas as coisas da terra definham e nada se produz. Mas a fé com a caridade é como a luz da primavera e do verão, na qual tudo floresce e tudo se produz (2231, 3146, 3412 e 3413). A luz de inverno, a qual é luz da fé separada, na outra vida é mudada em densas trevas. Quando a luz do Céu influi, os que estão nessa fé caem então na cegueira e na estupidez (3412 e 3413). Os que separam a fé da caridade estão nas trevas; assim, na ignorância da verdade, por conseguinte nas falsidades, pois elas são as trevas (9186). Eles precipitam a si mesmos nas falsidades e de lá nos males (3325 e 8094). Os erros e as falsidades nos quais eles se precipitam (4721, 4730, 4776, 4783, 4925, 7779, 8313, 8765 e 9224). Eles não vêem e não pensam em nada que o Senhor por tantas vezes falou sobre o amor e a caridade (1017 e 3416). Eles também não sabem o que é o bem, o que é o amor celeste e nem o que é a caridade (2417, 3603, 4163 e 9995).
A caridade faz a Igreja, e não a fé separada da caridade (809, 916, 1798, 1799, 1834 e 1844). Quanto do bem existiria na Igreja se a caridade fosse posta em primeiro lugar (6269 e 6272). Se a caridade fosse o seu essencial, a Igreja seria uma e não dividida em muitas, e então pouco importaria se os homens diferissem nos doutrinais da fé e nos externos dos cultos (1285, 1316, 2385, 2853, 2982, 3267, 3445, 3451 e 3452). Todos no Céu são considerados segundo a caridade e não segundo a fé separada dela (1258, 1394, 2364 e 4802).
Os doze discípulos do Senhor representaram a Igreja quanto a todas as coisas da fé e da caridade em um só complexo, do mesmo modo que as doze tribos de Israel (2129, 3354, 3488, 3858 e 6397). Pedro, Tiago e João representaram a fé, a caridade, e os bens da caridade, respectivamente (3750). Pedro representou a fé (4738, 6000, 6073, 6344, 10087 e 10580). João os bens da caridade (vide prefácio aos capítulos 18 e 22 do Gênesis). Que nos últimos tempos não haveria fé no Senhor porque não haveria caridade, isso foi representado por Pedro negando o Senhor por três vezes antes de o galo cantar pela segunda vez, porque ali no sentido representativo Pedro é a fé (6000 e 6073). Na Palavra, o "canto do galo," assim como o "cair do dia," significa o último tempo da Igreja (10134); e três ou três vezes significa o que é até ao fim (2788, 4495, 5159, 9198 e 10127). A mesma coisa é significada pelo que o Senhor disse a Pedro quando este viu João seguir o Senhor (10087): "Que te importa a ti? Segue-me tu" (João 21:22); porque Pedro dizia de João: "Senhor, e deste que será?" (João 21:21). João descansou no peito do Senhor porque ele representava os bens ou a caridade (3934 e 10087). Na Palavra, todos os nomes de pessoas e de lugares significam coisas separadas ou abstratas deles (768, 1888, 4310, 4442 e 10329).
EXTRATO DOS ARCANOS CELESTES SOBRE A CARIDADE
O Céu se distingue em dois reinos, um dos quais é chamado reino celeste, e o outro reino espiritual. O amor no reino celeste é o amor para com o Senhor e se chama amor celeste; e o amor no reino espiritual é a caridade para com o próximo e se chama amor espiritual (parágrafos 3325, 3653, 7257, 9002, 9835 e 9961). Que o Céu seja distinguido nesses dois reinos, é o que se pode ver na obra "O Céu e o Inferno" (parágrafos 20 a 28); e que o Divino do Senhor nos Céus seja o amor para com Ele e a caridade para com o próximo, vê-se na mesma obra (13 a 19).
Não se sabe o que é o bem, nem o que é o vero, exceto se se souber o que é o amor para com o Senhor e o que é a caridade para com o próximo, porque todo bem pertence ao amor e à caridade, e toda vero pertence ao bem (7255 e 7366). Saber os veros, querer os veros e ser afetado pelos veros pelo bem dos veros, isto é, porque são veros, isto é a caridade (3876 e 3877). A caridade consiste numa afeição interna de fazer o vero, e não na afeição externa sem isso (2429, 2442, 3776, 4899, 4956 e 8033). Assim, a caridade consiste em fazer os usos pelo bem dos usos, e a sua qualidade é de acordo com os usos (7038 e 8253). A caridade é a vida espiritual do homem (7081). A Palavra, em sua totalidade, é a doutrina do amor e da caridade (6632 e 7262). Os homens de hoje não sabem o que é a caridade (2417, 3398, 4776 e 6632). Contudo, pode-se saber pela luz da razão que o amor e a caridade constituem o homem (3957 e 6273). E também que o bem e o vero concordam e que um pertence ao outro; do mesmo modo a caridade e a fé (7627).
No sentido supremo, o Senhor é o próximo, porque Ele deve ser amado acima de todas as coisas; assim, tudo o que é o próximo, o qual vem d'Ele e no qual Ele está, assim o bem e o vero são o próximo (2425, 3419, 6706, 6819, 6823 e 8124). A distinção entre os próximos é de acordo com a qualidade do bem; assim, de acordo com a presença do Senhor (6707 a 6710). Todo homem e toda sociedade, bem como o país e a Igreja; e no sentido universal, o reino do Senhor, são o próximo. E fazer-lhes o bem, pelo amor do bem, segundo seus muitos estados, é amar o próximo. Assim, o próximo é o seu bem, o qual devemos visar (6818 a 6824 e 8123). O bem civil, o qual é a justiça; e o bem moral, o qual é o bem da vida em sociedade, são também o próximo (2915, 4730, 8120, 8121 e 8122). Amar o próximo não é amar a pessoa, mas é amar nela o que faz dela o próximo, isto é, o bem e o vero (5025 e 10336). Os que amam a pessoa e não o que faz dela o próximo, amam o mal do mesmo modo que o bem (3820). E eles prestam usos, tanto ao mau quanto ao bom, quando, entretanto, fazer bem aos maus é ferir o bom, e isto não é amar o próximo (3820, 6703 e 8120). O juiz que pune os maus para que eles se corrijam e para que os bons não sejam corrompidos por eles, ama o próximo (3820, 8120 e 8121).
Amar o próximo é fazer o que é bom, justo e reto em toda obra e em toda função (8120, 8121 e 8122). Assim, a caridade para com o próximo se estende a tudo que em geral e em particular o homem pensa, quer e faz (8124). Fazer o bem e o vero pelo bem e pelo vero é amar o próximo (10310 e 10336). Os que agem assim amam o Senhor, que no sentido supremo, é o próximo (9210). Uma vida de caridade é uma vida segundo os preceitos do Senhor; assim, viver segundo os divinos veros é amar o Senhor (10143, 10153, 10310, 10578 e 10645). A caridade genuína não é meritória (2027, 2343, 2400, 3887, 6388 a 6393), porque ela procede da afeição interna; assim, do prazer de fazer o bem (2373, 2400, 3887, 6388 a 6393). Os que separam a fé da caridade, na outra vida fazem meritórias a sua fé e as suas boas obras como coisas externas (2373).
A doutrina da Igreja Antiga era doutrina da vida, que é a doutrina da caridade (2385, 2417, 3419, 3420, 4844 e 6628). Os antigos, que eram da Igreja tinham posto em ordem e distinguido por classes os bens da caridade, e tinham dado nomes a cada classe, e esta era a fonte de sua sabedoria (2417, 6629, 7259 a 7262). Na outra vida, a sabedoria e a inteligência aumentam imensamente nos aqui viveram a vida da caridade (1941 e 5859). O Senhor influi com divinos veros na caridade, que é a vida mesma do homem (2363). O homem é como um jardim quando a caridade e a fé foram conjuntas nele; mas ele é como um deserto quando elas não foram conjuntas (7626). O homem se afasta da sabedoria na proporção em que se afasta da caridade (6630). Os que não estão na caridade, estão na ignorância sobre os divinos veros, ainda que se julguem sábios (2417 e 2435). A vida angélica consiste em fazer os bens da caridade, que são os usos (454). Os anjos espirituais são formas da caridade (553, 3804 e 4735).
EXTRATO DOS ARCANOS CELESTES SOBRE A VONTADE E O ENTENDIMENTO
O homem tem duas faculdades: uma se chama entendimento e a outra vontade (parágrafos 35, 641, 3539 e 10122). Estas duas faculdades constituem o próprio homem (10076, 10109, 10110, 10264 e 10284). O homem é tal qual estas faculdades são nele (7342, 8885, 9282, 10264 e 10284). O homem se distingue dos animais também por elas; e isso porque o entendimento do homem pode ser elevado pelo Senhor e assim ver os divinos veros, e sua vontade pode ser igualmente elevada e perceber os Divinos bens. Com isso, o homem pode ser conjunto ao Senhor por meio das duas faculdades que o constituem, mas não sucede o mesmo com os animais (4525, 5302, 5114, 6323, e 9231). E como o homem, por essas faculdades, está acima dos animais, ele não pode morrer quanto aos seus interiores, os quais pertencem ao seu espírito; mas ele vive eternamente (5302).
Todas as coisas no universo se referem ao bem e ao vero, assim, no homem, à vontade e ao entendimento (803 e 10122). Pois o entendimento é o recipiente do vero e a vontade é o recipiente do bem (3332, 3623, 5835, 6065, 6125, 7503, 9300 e 9930). É o mesmo que dizer o vero ou dizer a fé, porque a fé pertence ao vero e o vero pertence à fé; e também é o mesmo dizer o bem ou o amor, porque o amor pertence ao bem e o bem pertence ao amor. Com efeito, o homem chama vero o que ele crê, e chama bem o que ele ama (4353, 4997, 7178, 10122 e 10367). E como o entendimento do homem pode receber a fé em Deus, e a sua vontade pode receber o amor para com Deus, o homem pode, pela fé e pelo amor, ser conjunto a Deus, e quem pode ser conjunto a Deus pelo amor e pela fé nunca morre (4525, 6323 e 9231).
A vontade do homem é o ser mesmo de sua vida, porque ela é o receptáculo do amor ou do bem, e o entendimento é o existir da vida proveniente do ser porque ele é o receptáculo da fé ou do vero (3619, 5002 e 9282). Assim, a vida da vontade é a vida principal do homem, e a vida do entendimento procede dela (585, 590, 3619, 7342, 8885, 9282, 10076, 10109 e 10119); do mesmo modo que a luz procede do fogo ou da chama (6032 e 6314). As coisas que entram ao mesmo tempo pelo entendimento e pela vontade são apropriadas ao homem, mas não as que entram somente no entendimento (9009, 9069, 9071, 9182, 9386, 9393, 10076, 10109 e 10110). As coisas que são recebidas pela vontade se tornam propriedades do homem (3161, 9386 e 9393). Daí se segue que o homem é homem segundo a vontade, e, por conseguinte segundo o entendimento (8911, 9069, 9071, 10076, 10109 e 10110). Cada homem é amado e estimado pelos outros segundo o bem de sua vontade e o entendimento que procede dela, pois quem quer o bem e compreende o bem é amado e estimado, mas quem compreende o bem e não quer o bem é rejeitado e desprezado (8911 e 10076). O homem permanece, também depois da morte, tal qual é a sua vontade e o entendimento dela derivado (9069, 9071, 9386 e 10153). E então as coisas que pertencem ao entendimento, e não ao mesmo tempo à vontade, se dissipam, porque elas não estão no homem (9282). Ou, o que é o mesmo, o homem permanece depois da morte tal qual é seu amor e, por conseguinte sua fé; ou tal qual é seu bem e, por conseguinte sua verdade, e então as coisas que pertencem à fé e não ao mesmo tempo ao amor, ou que pertencem ao vero e não ao mesmo tempo ao bem, se dissipam, porque elas não estão no homem e não pertencem ao homem (553, 2363 e 10153). O homem pode receber no entendimento o que ele não faz segundo a vontade, ou pode compreender o que ele não pode querer, por ser contra seu amor (3539). A razão pela qual o homem dificilmente sabe distinguir entre pensar e querer (9995). O quão foi pervertido o estado daqueles cujo entendimento e a vontade não agem como um (9075). Tal é o estado dos hipócritas, dos enganadores, dos lisonjeiros e dos impostores (2426, 3573, 4799 e 8250). Toda vontade do bem e todo entendimento do vero vem do Senhor, exceto o entendimento do vero separado da vontade do bem (1831, 3514, 5482, 5649, 6027, 8685, 8701 e 10153). É o entendimento que é iluminado pelo Senhor (6222, 6608 e 10659). O entendimento é iluminado tanto quanto o homem recebe o vero na vontade, isto é, tanto quanto ele deseja fazer segundo o vero (3619). O entendimento tem luz do Céu, como a visão tem luz do mundo (1524, 5114, 6608 e 9128). O entendimento é tal como são os veros segundo o bem pelos quais ele é formado (10064). O entendimento é o que procede dos veros do bem, mas não o que procede das falsidades do mal (10675). O entendimento consiste em ver pelas coisas que pertencem à experiência e à ciência, as verdades, as causas das coisas, as conexões e as conseqüências em série (6125). Pertence ao entendimento ver e perceber se uma coisa é verdadeira antes de confirmá-la, mas não poder confirmar todas as coisas (4741, 7012, 7680, 7950, 8521 e 8780). Ver e perceber se uma coisa é verdadeira antes de confirmá-la, é dado somente aos que são afetados pelo vero, pelo bem do vero, assim, aos que estão na luz espiritual (8521). A luz da confirmação é uma luz natural que pode existir também nos maus (8780). Todos os dogmas, até os que são falsos, podem ser confirmados até ao ponto de parecerem veros (2243, 4647, 2385, 4741, 5033, 6865 e 7950).