. III. Onde estiveram suas habitações até agora. Foi dito acima, no parágrafo 48, que todas as nações e todos os povos foram ordenados de certa maneira no Mundo Espiritual, e eles foram vistos como se segue: No meio apareceram reunidos todos que se chamam reformados; ao redor destes os que são da religião pontifícia; além destes, os maometanos; e por último, ao redor, as diversas nações gentias. Pode-se ver assim que os católico-romanos formavam a periferia mais próxima ao redor dos reformados, os quais estavam no meio. Se eles estavam na periferia mais próxima, é porque no meio estão os que se acham na luz do vero segundo a Palavra, e os que estão na luz do vero segundo a Palavra também estão na luz do Céu, porque a luz do Céu vem do Divino Vero, e é na Palavra que está o Divina Vero. Que a luz do Céu venha do Divino Vero é o que pode ser visto na obra "O Céu e o Inferno" (126 a 140); também que a Palavra seja o Divino Vero (303 a 310). A luz procede do centro em direção as periferias e esclarece. Portanto, é por terem a Palavra que os que são da religião pontifícia estão mais próximos do centro; e ela é lida pelos que pertencem ao seu governo eclesiástico, ainda que não seja pelo povo. Foi por isso que as pessoas dessa religião obtiveram as suas habitações no Mundo Espiritual ao redor dos que estão no vero segundo a Palavra. Agora se dirá como eles habitavam. Antes de suas habitações terem sido inteiramente destruídas e feitas em deserto, a maior parte deles habitava no sul e no oeste, enquanto que uma pequena parte deles no norte e no leste. No sul habitavam os que no mundo excederam aos outros em talentos e tinham se confirmado em sua religião. Um grande número de nobres e ricos também habitava lá, mas eles não habitavam na terra, mas debaixo dela, por temor aos ladrões. E colocavam guardas nas entradas de suas habitações. Nessa região havia também uma grande cidade, cuja extensão era quase do leste ao oeste (um pouco mais para o oeste), localizada perto do meio onde estavam os reformados. Ali habitavam miríades de homens - ou de espíritos; ela estava repleta de templos e mosteiros. Os eclesiásticos transportaram para essa cidade todas as coisas preciosas que eles haviam amontoado por diversos artifícios. E eles as tinham escondido em adegas e criptas subterrâneas. Essas criptas tinham sido elaboradas com tal cuidado que ninguém podia entrar lá, exceto eles mesmos, pois elas foram dispostas em torno, em forma de labirintos. Os seus corações estavam nos tesouros escondidos ali, e tinham a confiança que nunca, nem por toda eternidade, eles seriam destruídos. Vi os seus subterrâneos e fiquei admirado de sua habilidade em ocultá-los e aumentá-los sem fim. A maioria dos que se intitula da Sociedade de Jesus estava lá e cultivava relações amigáveis com os ricos que habitavam os arredores. Em direção leste, naquela região do sul, estava o consistório onde eles deliberavam sobre o aumento de sua dominação e sobre os meios de manter o povo em cega obediência (como acima no parágrafo 56). Tudo isso se refere às suas habitações na região sul. No norte habitavam os que tinham menos talentos e haviam se confirmado menos em sua religião, pois tinham estado em uma obscura faculdade de discernir, e, por conseguinte, em uma fé cega. A multidão lá não era tão grande como no sul. A maioria deles estava em uma grande cidade, estendida, em comprimento, do ângulo do leste para o oeste, um pouco mais para o leste. Ela também estava repleta de templos e monastérios. Na extremidade de seu lado leste havia muitos de diversas religiões, e até alguns reformados. Havia ainda alguns lugares ocupados pelos papistas, além da cidade, naquela região. No leste habitavam aqueles que no mundo estiveram em grande prazer de comandar e ao mesmo tempo em alguma luz natural. Eles apareciam lá sobre montanhas, mas somente na região voltada para o norte, mas não havia ninguém na parte voltada para o sul. No ângulo voltado para o norte havia uma montanha, em cujo cume eles tinham posto um que não gozava de bom juízo, ao qual, por comunicações de pensamentos - conhecidas no Mundo Espiritual, mas desconhecidas no mundo natural - eles podiam inspirar o que queriam. Eles proclamaram que ele era o Deus Mesmo do Céu, aparecendo sob forma humana, e assim eles lhe prestavam culto Divino; isso por que o povo queria retirar-se de seu culto idolátrico e assim eles imaginaram isso como meio para contê-los em obediência. Essa montanha é a que se entende em Isaías pelo "monte da congregação, da banda dos lados do norte" (14:13). E os que estavam sobre as montanhas se entendem por "Lúcifer" (verso 12), pois tais, da turba babilônica que estavam no leste, tinham estado em uma luz maior do que os outros, luz essa que eles preparam para si mesmos por artifícios. Vi também uns que edificavam uma torre que devia alcançar o Céu, onde estão os anjos; mas ela era apenas um representativo das suas maquinações, porque as maquinações no Mundo Espiritual se apresentam aos olhos dos que estão ao longe por muitos objetos que, entretanto, não existem para os que estão nas maquinações mesmas. Isso é comum no Mundo Espiritual. Por essa aparência foi-me permitido saber o que é significado pela torre cujo cume devia estar no Céu, de onde aquele lugar recebeu o nome de Babel (Gênesis 11:1 a 10). Essas coisas são concernentes às suas habitações no leste. Na parte da frente da região leste habitavam aqueles dessa religião que tinham vivido na Idade das Trevas, a maior parte debaixo da terra, uma geração debaixo da outra. Toda a região anterior, voltada para o norte, estava como que escavada e cheia de monastérios. As entradas de suas moradas eram antros fechados por cima por uma cobertura. Eles saiam e entravam por esses antros, mas raramente conversavam com os que tinham vivido nos séculos seguintes aos seus, pois eles eram de um outro gênio e não tão maliciosos, porque em sua época não tinha havido contestação com os reformados, nem, por conseguinte, tanta astúcia e malícia por ódio e vingança. Além daquela região, em direção oeste, havia muitas montanhas sobre as quais estavam os mais maliciosos daquele povo - os que de coração negavam o Divino, e, entretanto O professavam de boca e O adoravam com gestos mais devotos do que todos os outros. Os que lá estavam tinham inventando artifícios nefastos para manterem o povo sob o jugo de seu império e para constrangê-lo à sujeição desse jugo. Não me é permitido descrever esses artifícios, tão abomináveis que eles eram; em geral, eles eram como aqueles dos quais se fala na obra "O Céu e o Inferno" (580). As montanhas nas quais eles se achavam são as que se entendem no Apocalipse pelas "sete montanhas," e são eles que são descritos pela "mulher sentada sobre uma besta escarlata," nestes termos: "Vi uma mulher sentada na besta escarlata, cheia de nomes de blasfêmia, tendo sete cabeças e dez chifres; ela tinha na testa um nome escrito: Mistério, Babilônia grande, mãe das exortações e das abominações da terra; as sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher esta sentada" (17:3, 5 e 9). Pela "mulher," no sentido interno, se entende a Igreja ali; no sentido oposto, uma religiosidade profana. Pela "besta escarlata" a profanação do amor celeste. E pelas "sete montanhas" o profano amor de dominar. Tudo isto se refere às suas habitações no oeste. A razão pela qual eles habitam distintamente segundo as regiões é porque todos no Mundo Espiritual são levados para a região, e para o lugar da região, que corresponde às suas afeições e amores, e ninguém é levado a outra parte - ver a obra "O Céu e o Inferno" onde se tratou das quatro regiões do Céu (141 a 153). Em geral, todas as deliberações babilônicas daquele povo, têm por fim dominar não somente sobre o Céu, mas também sobre toda a terra, por conseguinte possuir o Céu e a terra, um por meio do outro. Para conseguirem isso, eles continuamente inventam e publicam novos estatutos e novos doutrinais. O que eles maquinaram no mundo, eles também maquinam na outra vida, porque cada um é depois da morte tal qual foi no mundo, sobretudo quanto à religião. Foi-me concedido ouvir alguns dos chefes deliberando entre si sobre uma doutrina que devia servir de regra aos povos. Ela consistia de muitos artigos, mas todos tendiam a isso: que eles obteriam domínio sobre os Céus e as terras, e trariam todo poder para si mesmos, e nada para o Senhor. Esses doutrinais foram depois lidos perante os que assistiam; e, depois da leitura, ouviu-se uma voz do Céu que disse que esses artigos haviam sido ditados do inferno mais profundo - embora eles não soubessem - o que foi confirmado pelo fato que uma turba diabólica, do aspecto mais negro e medonho, elevou-se e arrancou-lhes aqueles doutrinais, não com as mãos, mas com os dentes, e os levou para seu inferno. O povo que viu isso ficou estupefato.