. A imputação do mérito do Senhor não é outra coisa senão a remissão dos pecados depois da penitência. 18. Acredita-se na Igreja que o Senhor foi enviado pelo Pai para fazer expiação pelo gênero humano e que isso se fez pelo cumprimento da Lei e pela paixão da cruz, e, assim, suspendeu a danação e satisfez. Acredita-se que, sem essa expiação, satisfação e propiciação, o gênero humano pereceria de morte eterna, e que isto vem da justiça, que por alguns é também chamada vindicativa. É verdade que, sem o advento do Senhor ao mundo, todos pereceriam. Mas de que maneira deve ser entendido que o Senhor cumpriu todas as coisas da Lei, veja-se acima, no capítulo próprio. E por que razão sofreu a cruz, veja-se também acima, no seu lugar. Por essas exposições se pode ver que não houve qualquer justiça vindicativa, porque essa não é um atributo Divino. Os atributos Divinos são a justiça, o amor, a misericórdia e o bem. E Deus é a Justiça mesma, o Amor mesmo, a Misericórdia mesma e o Bem mesmo, e onde esses atributos estão não existe nada de vingança, assim, nenhuma justiça vindicativa. [2] Pois que o cumprimento da Lei e a paixão da cruz foram entendidos por muitos, até hoje, como as duas coisas pelas quais o Senhor deu satisfação pelo gênero humano e deste tirasse a danação prevista ou que lhe estava destinada, pelo nexo e, ao mesmo tempo, pelo princípio de que o homem é salvo pela fé só em que isto é assim, seguiu-se o dogma da imputação do mérito do Senhor, tomando-se essas duas coisas, que tinham sido do mérito do Senhor, em lugar da satisfação. Mas isto sucumbe pelas coisas que foram ditas sobre o cumprimento da Lei pelo Senhor e por Sua paixão na cruz. E, ao mesmo tempo, pode-se ver que a imputação do mérito é uma expressão vazia, a não ser que por ela se entenda a remissão dos pecados depois da penitência, porquanto coisa alguma do Senhor pode ser imputada ao homem, mas a salvação pode ser adjudicada pelo Senhor depois que o homem pratica a penitência, isto é, depois que vê e reconhece seus pecados e, daí, desiste deles, e isto pelo Senhor. Então a salvação lhe é somente adjudicada, pois que o homem não é salvo por seu mérito ou por sua própria justiça, mas pelo Senhor, Quem sozinho combateu e venceu os infernos, e Quem sozinho, também, combate pelo homem e vence os infernos por ele. [3] Essas ações são o mérito e a justiça do Senhor, e elas não podem jamais ser imputadas ao homem, pois, se fossem imputadas, o mérito e a justiça do Senhor seriam apropriados pelo homem como se fossem seus, e isto jamais foi feito nem se pode fazer. Se a imputação lhe fosse dada, o homem impenitente e ímpio poderia imputar a si o mérito do Senhor e, por assim pensar, ser justificado, quando, todavia, isto seria conspurcar o santo pelo profano, e profanar o nome do Senhor. Porque seria ter o pensamento no Senhor e a vontade no inferno, e, contudo, a vontade é o todo do homem. Existe a fé de Deus e a fé do homem: a fé de Deus tem os que praticam a penitência, porém a fé do homem têm os que não praticam a penitência, e isto ainda que pensem na imputação. E a fé de Deus é viva, enquanto a fé do homem é uma fé morta. [4] Que o Senhor mesmo e Seus discípulos tenham pregado a penitência e a remissão dos pecados, pode-se ver pelo que se segue: "Jesus começou a pregar e a dizer: Fazei vós penitência, porque se aproximou o reino dos céus" (Mat. 4:17) "João disse: Dai frutos dignos de penitência; ... Já, já o machado está posto à raiz das árvores; toda ... árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo" (Luc. 3:8-9). Jesus disse: "Se não fizerdes penitência, todos ... perecereis" (Luc. 13: 3,5); "Jesus... pregando o Evangelho do reino de Deus, ... dizendo: ... Completou-se o tempo, e aproximou-se o reino de Deus; fazei penitência, e crede no Evangelho" (Mc. 1:14, 15). Jesus enviou os discípulos, que, "saindo, pregaram que fizessem penitência" (Mc. 6:12). Jesus disse aos apóstolos que lhes convinha pregar "em Seu nome a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém" (Luc. 24:47). João pregou "o batismo da penitência na remissão dos pecados" (Luc. 3:3, Mc. 1:4); Pelo "batismo" se entende a lavagem espiritual, que é a lavagem dos pecados e se chama regeneração. [5] A penitência e a remissão dos pecados são assim descritas pelo Senhor em João: "Veio aos Seus, mas os Seus não O receberam, mas a todos os que receberam, deu-lhes poder, para que fossem filhos de Deus, os que crêem no Seu nome, os quais nasceram não dos sangues, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus" (1:11-13); pelos "Seus" se entende que eram então da Igreja onde havia a Palavra; pelos "filhos de Deus" e "que crêem no Seu nome" se entendem os que crêem no Senhor e crêem na Palavra; pelos "sangues" se entendem as falsificações da Palavra e as confirmações falsas por esse meio; "vontade da carne" é o proprium voluntário do homem, que em si é falso; "nascidos de Deus" são os que foram regenerados pelo Senhor. Por aí se vê que são salvos aqueles que estão no bem do amor e nos veros da fé pelo Senhor, e que não estão no proprium.