. (vi). O Senhor Se despojou sucessivamente do Humano gerado da Mãe e Se revestiu do Humano proveniente do Divino, que é o Divino Humano e Filho de Deus. Sabe-se que o Senhor foi Divino e Humano; Divino por JEHOVAH, o Pai, e Humano pela virgem Maria. Daí ter sido Deus e Homem e, assim, a Essência Divina mesma e a Natureza Humana; a Essência Divina do Pai e a Natureza Humana da mãe; daí, igual ao Pai quanto ao Divino, e menor que o Pai quanto ao Humano. E essa Natureza Humana, da mãe, não mudou em Essência Divina, nem poderia se misturar com ela, como ensina a doutrina da fé chamada atanasiana, que a natureza humana não pode ser mudada em Essência Divina, nem pode com ela se misturar.
[2] E todavia, nossa Doutrina vem do mesmo fato, que o Divino gerou o Humano, isto, uniu-Se a ele, assim como a alma ao seu corpo, ao ponto de não serem duas, mas una só Pessoa. Daí se segue que Se despojou do Humano proveniente da mãe, que em si mesmo era semelhante ao humano de outro homem e, assim, material, e Se revestiu do Humano proveniente do Pai, que em si era semelhante ao Seu Divino e, assim, substancial. Por isso o Humano também foi feito Divino. Daí vem que o Senhor, também quanto ao Humano, é chamado JEHOVAH e Deus na Palavra dos profetas, mas na Palavra dos evangelistas, Senhor, Deus, Messias ou Cristo, e Filho de Deus, em Quem se deve crer e por Quem se é salvo.
[3] Ora, como de início o Senhor foi Humano pela mãe, e desse sucessivamente Se despojou, daí, quando estava no mundo, havia n'Ele dois estados, os quais se chamam estado de humilhação ou exinanição e estado de glorificação ou união com o Divino que é chamado Pai. O estado de humilhação, na medida e no momento em que estava no Humano proveniente da mãe, e o estado de glorificação na medida e no momento em que estava no Humano proveniente do Pai. No estado de humilhação, orava ao Pai como a um outro separado de Si, mas, no estado de glorificação, falava com o Pai como consigo. Nesse estado disse que o Pai estava n'Ele e Ele no Pai, e que o Pai e Ele eram um. Mas, no estado de humilhação, sofreu tentações e suportou a cruz, e orou ao Pai para que O não abandonasse. Pois o Divino não pode ser tentado, e ainda menos sofrer a cruz. Por aí agora se pode ver que pelas tentações e, daí, por contínuas vitórias, e pela paixão da cruz, que foi a última das tentações, venceu plenamente os infernos e plenamente glorificou o Humano, como foi mostrado antes.
[4] Que o Senhor Se tenha despojado do humano proveniente da mãe, e Se revestiu do Humano proveniente do Divino n'Ele, que é chamado Pai, é evidente também pelo fato de que o Senhor, todas as vezes que por Sua boca falou com a mãe, não a chamou "mãe", mas "mulher". Nos Evangelhos se lêem somente três vezes que por Sua boca falou à mãe e a respeito dela, e duas vezes a chamou mulher e, uma vez, que não a reconhecia como mãe. As duas vezes em que a chamou "mulher", lêem-se em João:
"Disse a mãe de Jesus a Ele: Não têm vinho. Disse-lhe Jesus: O que há para Mim e para ti, mulher? Ainda não veio a Minha hora" (2:3, 4).
E, no mesmo:
"Jesus... da cruz viu a mãe e, ao lado, o discípulo a quem amava; disse à Sua mãe: Mulher, eis o teu filho; e depois disse ao discípulo: Eis a tua mãe" (19:26, 27).
Uma vez, que não a reconhecia. Em Lucas:
"Anunciaram" a Jesus "dizendo: Tua mãe e Teus irmãos estão lá fora, e querem Te ver." Jesus, "respondendo, disse-lhes: Minha mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a cumprem" (8:20, 21; Mat. 12: 46-49; Mc. 3:31-35).
Em outras passagens Maria é chamada Sua mãe, mas não por Sua boca.
[5] Isso também se confirma pelo seguinte, que Ele não Se reconheceu ser Filho de David. Com efeito, lê-se nos Evangelhos:
"Jesus interrogou" aos fariseus "dizendo: Que pensais vós sobre o Cristo? De quem é Filho? Disseram-Lhe: De David. Disse-lhes: Como? Pois David em espírito O chama seu Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-Te à Minha direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés. Se pois David O chama Senhor, como era seu Filho? E ninguém podia Lhe responder palavra alguma" (Mat. 12:41-46; Mc. 12:35-37; Luc. 20:41-44; Sal. 110:1);
por aí é evidente que o Senhor, quanto ao Humano glorificado, não foi filho de Maria nem de David.
[6] A qualidade de Seu Humano glorificado foi mostrada a Pedro, Tiago e João, quando Se transfigurou diante deles:
Sua face resplandeceu como o Sol, e Suas vestes eram como a luz; "e então uma voz, das nuvens, disse: Este é Meu Filho amado, em Quem Me comprazo; a Ele ouvi" (Mat. 17:1-8; Mc. 9:2-8; Luc. 9:28-36).
O Senhor foi visto também por João,
"Como o Sol brilhando em sua força" (Apoc. 1:16).
[7] Que o Humano do Senhor tenha sido glorificado, vê-se pelas coisas que são ditas nos Evangelhos a respeito da Sua glorificação, como estas, em João:
"Chega a hora para que seja glorificado o Filho do homem". Disse: "Pai, glorifica o Teu nome; saiu... uma voz do céu: E glorifiquei, e de novo glorificarei" (Jo. 12: 23, 28).
Como o Senhor foi glorificado sucessivamente, daí ser dito: "E glorifiquei, e de novo glorificarei". No mesmo:
"Depois que" Judas "saiu, disse Jesus: Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado n'Ele; ...também Deus O glorificará em Si mesmo, e sem demora O glorificará" (13:31, 32).
No mesmo:
Jesus "disse: Pai, é chegada a hora; glorifica o Teu Filho, para que o Filho também glorifique a Ti" (Jo. 17:1, 5).
E em Lucas:
"Não convinha ao Cristo sofrer isto, e entrar na Sua glória?" (24:26).
Estas coisas foram ditas a respeito de Seu Humano.
[8] O Senhor disse: "Deus é glorificado n'Ele", e também "Deus O glorificará em Si Mesmo"; e, depois: "Glorifica Teu Filho, para que Teu Filho também glorifique a Ti". O Senhor disse essas coisas porque a união foi recíproca, o Divino com o Humano e o Humano com o Divino. Por isso dissera também:
"Eu estou no Pai, e o Pai em Mim" (Jo. 14: 10, 11),
e ainda:
"Todas as coisas Minhas são Tuas, e todas as Tuas, Minhas" (Jo. 17:10),
pois que havia uma união plenária. Acontece de modo semelhante com toda união, que, se não for recíproca, não é plena. Tal deve ser também com o Senhor e o homem, e o homem com o Senhor, como o ensina em João:
"Naquele dia conhecereis, que ... vós [estais] em Mim, e Eu em vós" (14:20);
e em outra passagem:
"Permanecei em Mim, também Eu em vós... Quem permanece em Mim, e Eu nele, esse dá muito fruto" (15:4, 5).
[9] Visto que o Humano do Senhor foi glorificado, isto é, foi feito Divino, por isso ressurgiu com todo o Corpo no terceiro dia após a morte. Isso não se dá com homem algum, pois o homem ressurge somente quanto ao espírito mas não quanto ao corpo. Para que o homem soubesse e ninguém duvidasse que o Senhor ressurgiu com todo o Corpo, isto não só foi dito pelos anjos que estavam no sepulcro, mas também Ele Se mostrou no Humano em Seu Corpo diante dos discípulos, dizendo-lhes, quando acreditavam ver um espírito:
"Vede Minhas mãos e Meus pés, que sou Eu mesmo. Tocai-Me e vede, pois um espírito não tem carne e ossos, como Me vedes ter. E, ao dizer isso, mostrou-lhes as mãos e os pés" (Luc. 24:39, 40; Jo. 20:20).
E, além disso:
"Jesus disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as Minhas mãos; e põe a tua mão, e mete-a no Meu lado, e não sejais incrédulo, mas crente. Então disse Tomé: Senhor meu e Deus meu" (Jo. 20:27, 28).
[10] Para ainda confirmar que não era um espírito, mas Homem, disse aos discípulos:
"Tendes aqui algo de comer? Eles ... Lhe deram uma parte de um peixe assado e de um favo de colmeia, os quais, tomando, diante deles comeu" (Luc. 24:41-43).
Quanto ao Seu Corpo, agora não era material, mas Divino substancial; por isso
"Veio aos discípulos estando as portas fechadas" (Jo. 20:19, 26).
E, depois que foi visto,
"Tornou-Se invisível" (Luc. 24:31).
Assim o Senhor foi elevado, e assentou-Se à direita de Deus, pois se diz em Lucas:
"Aconteceu que, quando abençoou" Jesus os discípulos, "separou-Se deles, e foi elevado ao céu" (24:51);
e em Marcos:
"Depois que lhes falou, foi elevado ao céu, e sentou-Se à direita de Deus" (16:19).
"Sentar à direita de Deus" significa a Divina Onipotência.
[11] Visto que o Senhor, com o Divino e o Humano unidos em Um, subiu ao céu, e sentou-Se à direita de Deus, pelo que é significada a Divina Onipotência, segue-se que Sua substância ou Essência Humana é como Seu Divino. Se o homem pensar de modo diferente, será como pensar que o Seu Divino foi elevado ao céu e sentou-Se à direita de Deus, e não, ao mesmo tempo, o Humano. Isto é contra a Escritura, e também contra a doutrina cristã, que consiste em que Deus e Homem são um em Cristo, como a alma e o corpo, e separá-los é contra a razão sã. Essa união do Pai com o Filho, ou do Divino com o Humano é entendida também no que se segue:
"Saí do Pai, e vim ao mundo; de novo deixo o mundo, e vou para o Pai" (Jo. 16:28).
"Parto, e vou para Aquele que Me enviou" (Jo. 7:33; 16:5,16; 17:11, 13; 20:17).
"Se, pois, vísseis subir o Filho do homem para onde estava antes?" (Jo. 6:62).
"Ninguém sobe ao céu, a não ser Aquele que do céu desceu" (Jo. 3:13).
Todo homem que é salvo sobe ao céu; não, porém, por si, mas pelo Senhor. Somente o Senhor sobe por Si.
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