. A isto devem ser acrescentadas algumas coisas a respeito da doutrina do amor ao Senhor e a respeito da doutrina da caridade, tais como houve nos antigos entre os quais houve a igreja, a fim de que se conheça a qualidade dessa doutrina que existiu antes e não existe mais hoje, também pelos Arcanos Celestes (n. 7257-7263). O bem que é o amor ao Senhor se chama bem celeste, e o bem que é o amor para com o próximo, ou a caridade, se chama bem espiritual. Os anjos que estão no céu íntimo ou terceiro estão no bem do amor ao Senhor; são, daí, chamados anjos celestes. Mas os anjos que estão no céu médio ou segundo estão no bem do amor para com o próximo; são, daí, chamados anjos espirituais. A doutrina do bem celeste, que é o amor ao Senhor, é amplíssima e, ao mesmo tempo, cheia de arcanos, pois é a doutrina dos anjos do céu íntimo ou terceiro; ela é tal que, se fosse enunciada da boca deles, mal seria entendida quanto à milésima parte. As coisas que ela contém são também inefáveis. Essa doutrina está contida no sentido íntimo da Palavra, enquanto a doutrina do amor espiritual está contida no sentido interno. A doutrina do bem espiritual, que é a do amor para com o próximo, é também ampla e cheia de arcanos, mas muito menos que a doutrina do bem celeste, que é a do amor ao Senhor. Que a doutrina do amor para com o próximo, ou a caridade, seja ampla, pode-se ver pelo fato de que se estende a todas e cada uma das coisas que o homem pensa e quer, assim, a todas as coisas que ele fala e pratica, e também pelo fato de não existir a mesma caridade em um e em outra, nem que um próximo seja semelhante a outro. Como a doutrina da caridade foi tão ampla, por isso os antigos – com quem a doutrina da caridade era a doutrina mesma da igreja - distinguiam a caridade para com o próximo em muitas classes, as quais também subdividiam. A cada uma das classes atribuíam nomes, e ensinavam de que maneira a caridade devia ser exercida para com aqueles que estivessem numa classe, e de que maneira para com aqueles que estivessem em outra. Assim organizavam a doutrina da caridade em ordem, e os exercícios da caridade, para que entrassem distintamente no entendimento. Os nomes que eles atribuíam àqueles para os quais deviam exercer a caridade eram muitos; a alguns chamavam ‘cegos’, a outros ‘aleijados’, a outros ‘mancos’, a outros ‘pobres’, a outros ‘indigentes, a outros ‘aflitos’, a outros ‘órfãos’ e a outros ‘viúvas’. Mas, em geral, chamavam de ‘famintos’ aos quais deviam dar de comer, ‘sedentos’ aos quais deviam dar de beber, ‘estrangeiros’ aos quais deviam acolher, ‘nus’ aos quais deviam vestir, ‘ doentes’ aos quais deviam visitar e ‘presos no cárcere’ aos quais deviam ir. Quem eram aqueles que se entendiam por cada um dos nomes foi exposto nos Arcanos Celestes, como os ‘cegos’ (n. 2383 e 6990); ‘aleijados’ (n. 4302); ‘pobres’ (n. 2129, 4459, 4958, 9209, 9253 e 10227); ‘indigentes’ (n. 2129); ‘aflitos’ (n. 6663, 6851 e 9196); ‘órfãos’ (n. 4844 e 9198-9200); ‘viúvas’ (n. 4844, 9198 e 9200); ‘famintos’ (n. 4958 e 10227); ‘sedentos’ (n. 4958 e 8568); ‘estrangeiros’ (n. 4444, 7908, 8007, 8013, 9196 e 9200); ‘nus’ (n. 1073, 5433, 9960); ‘doentes’ (n. 4958, 6221, 8364 e 9031); ‘presos no cárcere’ (n. 5037, 5038, 5086 e 5096). Que pelos ofícios para com os ‘famintos’, ‘sedentos’, ‘estrangeiros’, ‘nus’, ‘doentes’ e ‘presos no cárcere’, que foram mencionados pelo Senhor (Mt. 25:34-36) seja compreendida toda a doutrina da caridade, vide nos n. 4954-4959. Esses nomes foram dados pelo céu aos antigos que eram da igreja, e por aqueles que eram assim nomeados se entendiam os que eram tais espiritualmente. A sua doutrina da caridade ensinava não somente quem eles eram, mas também qual seria a caridade a ser exercida para com cada um. Daí é que esses mesmos nomes estão na Palavra e significam aqueles que são tais, no sentido espiritual. A Palavra em si não é outra coisa senão a doutrina do amor ao Senhor e da caridade para com o próximo, como o Senhor também ensina: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, em toda a tua alma, e em toda a tua mente. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo lhe é semelhante: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem a Lei e os Profetas” (Mt. 22:37-40). A ‘Lei e os Profetas’ são toda a Palavra (n. 2606, 3382, 6752 e 7643). Que esses mesmos nomes estejam na Palavra é porque a Palavra, que em si é espiritual, em seu último é natural, e porque aqueles que estavam no culto externo deviam exercer a caridade para com os que eram tais como foram nomeados, mas os que estavam no culto interno, para com os que assim eram, entendidos espiritualmente. Assim, para que os simples entendessem com simplicidade e praticassem a Palavra, mas os sábios, sabiamente. Depois, também, para que os simples, pelos externos da caridade, fossem iniciados em seus internos. * * * * * * *