. (iii.) É pelo sentido que a Palavra foi divinamente inspirada e é santa em cada vocábulo. Diz-se na igreja que a Palavra é santa e isso porque JEHOVAH Deus a pronunciou. Mas como sua santidade não aparece pelo sentido da letra somente, por isso aquele que, por causa disso, duvida uma vez de sua santidade, confirma-se nisso depois por muitas coisas quando lê a Palavra, pois então pensa: "Acaso isso é santo? Acaso é Divino?" Por isso, para que tal pensamento não influa e depois se afirme em muitos, e por aí pereça a conjunção do Senhor com a igreja, na qual está a Palavra, aprouve ao Senhor revelar agora o sentido espiritual, para que se saiba onde se encerra nela a santidade. [%2] Mas alguns exemplos ilustrarão isso também. Na Palavra, ora se trata do Egito, ora da Assíria, ora de Edom, de Moab, dos filhos de Amon, de Tiro, de Sidon e de Gog. Quem não sabe que por esses nomes são significadas coisas do céu e da igreja pode ser levado ao erro de que a Palavra trata muito de nações e povos, e pouco do céu e da igreja; portanto, trata muito do que é terrestre e pouco do celeste. Quando, porém, ele sabe o que é significado por eles ou por seus nomes, pode vir do erro à verdade. [%3] Semelhantemente, quando vê na Palavra serem nomeados tantas vezes hortos, bosques, florestas, como também suas árvores, como a oliveira, a videira, o cedro, o choupo, o carvalho; e também serem tantas vezes nomeados os cordeiros, ovelhas, bodes, bezerros e bois, como também montes, colinas, vales e, ali, fontes, rios, águas e muitas coisas semelhantes, ele, que nada sabe do sentido espiritual da Palavra, não pode deixar de crer que somente essas coisas são entendidas. Pois não sabe que por "horto", "bosque" e "floresta" se entendem a sabedoria, a inteligência e a ciência; por "oliveira", "videira", "cedro", "choupo" e "carvalho" se entendem o bem e o vero celeste, espiritual, racional, natural e sensual da igreja; por "cordeiro", "ovelha", "bode", 'bezerro" e "boi" se entendem a inocência, a caridade e a afeição natural; por "montes", "colinas" e "vales" se entendem as coisas superiores, inferiores e ínfimas da igreja; também, por "Egito" é significada a ciência, por "Assíria", o racional; por "Edom", o natural; por "Moab", a adulteração do bem; pelos "filhos de Amon", a adulteração do vero; por "Tiro e Sidon", as cognições do vero e do bem; por "Gog", o culto externo sem o interno. Quando, porém, sabe essas coisas, então pode pensar que a Palavra não trata senão dos celestes, e esses nomes terrestres são apenas sujeitos nos quais se acham. [%4] Um exemplo da Palavra, porém, ilustrará isso. Lê-se em David: "A voz de JEHOVAH sobre as águas, o Deus da glória faz ressoar; JEHOVAH [está] sobre as grandes águas... a voz de JEHOVAH quebra os cedros,... JEHOVAH despedaça os cedros do Líbano e os faz saltar como bezerro, ao Líbano e ao Siriom como filhotes do unicórnio; a voz de JEHOVAH corta como chama de fogo; a voz de JEHOVAH faz tremer o deserto, faz tremer o deserto de Kadesh. A voz de JEHOVAH faz parir as cervas e desnuda as florestas; mas no Seu templo cada um diz glória" (Sl. 29:3-9). Quem não sabe que todas as expressões aqui, quanto a cada vocábulo, são Divinas e santas, pode, se for meramente natural, dizer consigo mesmo: "Que é isso, que JEHOVAH Se assenta sobre as águas? que por Sua voz quebra os cedros, fazendo-os saltar como um bezerro e ao Líbano como um filhote de unicórnio? que faz parir as cervas?" e muitas outras coisas. Pois não sabe que por elas, no sentido espiritual, se descreve o poder do Divino Vero ou Palavra. [%5] Porque nesse sentido pela "voz de JEHOVAH", que é aí o trovão, se entende o Divino Vero ou a Palavra em seu poder; pelas "grandes águas", sobre as quais JEHOVAH se assenta, entendem-se os seus veros; pelos "cedros" e pelo "Líbano", que quebra e despedaça, entendem-se os falsos do homem racional; pelo "bezerro" e pelo "filhote do unicórnio", os falsos do homem natural e sensual; pela "chama de fogo", a afeição do falso; pelo "deserto" e pelo "deserto de Kadesh", a igreja onde não há vero e bem algum; pelas "cervas" que JEHOVAH faz parir se entendem os gentios que estão no bem natural; e pelas "selvas" que desnuda se entendem as ciências e as cognições que a Palavra lhes abre; por isso se segue: "No Seu templo cada um diz glória", pelo que se entende que em cada coisa da palavra há veros Divinos, porque o "templo" significa o Senhor e, assim, a Palavra, como também o céu e a igreja; e "glória" significa o Divino Vero. Por aí é evidente que não há ali vocábulo algum que não descreva o poder Divino da Palavra contra os falsos de todo gênero no homem natural e o poder Divino para reformar os gentios.