. Como, porém, há aqueles que afirmam e confirmaram em si mesmos que sem a Palavra o homem pode saber sobre a existência de Deus e também do céu e do inferno, bem como algumas das outras coisas que a Palavra ensina, e, por esse modo, esses enfraquecem a autoridade e a santidade da Palavra - se não de boca, certamente de coração - por isso não se pode tratar com eles a partir da Palavra, mas a partir do lume racional, porquanto não crêem na Palavra, mas em si mesmos. Inquire pelo lume racional e descobrirás que no homem há duas faculdades da vida que se chamam entendimento e vontade, e que o entendimento está sujeito à vontade, e não a vontade ao entendimento. De fato, o entendimento apenas ensina e mostra o caminho. Inquire também e descobrirás que a vontade do homem é o seu proprium, e que este, considerado em si mesmo, é meramente o mal, sendo que daí procede o falso no entendimento. [%2] Quando descobrires isso, verás que o homem, de si mesmo, não quer entender senão aquilo que provém de sua própria vontade, e nem pode fazê-lo, a não ser que haja outra parte por onde saiba. Por sua própria vontade, o homem não quer entender outra coisa senão aquilo que é de si e do mundo; tudo o que se acha acima disso está para ele na escuridão. É como quando vê o sol, a lua e as estrelas; se então por acaso pensasse na origem deles, não poderia pensar outra coisa senão que eles existem por si mesmos. Não seria isso mais elevado do que o pensamento de muitos eruditos no mundo que, embora saibam pela Palavra a respeito da criação de todas as coisas por Deus, ainda assim reconhecem a natureza? E o que seria deles se nada soubessem da palavra? [%3] Por ventura acreditas que os sábios antigos, como Aristóteles, Cícero, Sêneca e outros que escreveram sobre Deus e sobre a imortalidade da alma, tenham primeiro formulado isso por si próprios? Não, mas de outros que pela tradição receberam dos que souberam disso pela Palavra. Tampouco os escritores da teologia natural tiram de si mesmos alguma dessas coisas, mas somente confirmam, por meios racionais, as coisas que sabem pela igreja em que se acha a Palavra. E pode haver entre eles os que as confirmam e, todavia, não crêem.